quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

OS MORTOS COMUNICAM-SE COM OS VIVOS?*

  • “Perguntei à professora da Escola Bíblica para Moças, da minha Igreja, se era possível mortos comunicar-se com os vivos, tendo como respostas uma série de citações bíblicas proibitivas a respeito.
  • Para mim, o proibido não significa em nada a impossibilidade de contatos; Samuel já morto não se comunicara com Saul?
  • (...).
  • A professora disse que o diabo é quem se fizera passar por Samuel a fim de enganar Saul; a Bíblia, no entanto, não diz nada disto.
  • Lembrei então daquilo que me ocorrera nove anos atrás...”
  • - Trechos do Diário de Selhama, 12 de outubro de 1.983 - 
A mãe resolvera pela limpeza da frente da casa, calçada, quintal, área e vidraças, enquanto a filha, no vigor de seus quatro anos, brincava na varanda dos fundos, e foi num repente que a menina viu o primo Osmar, de sete para oito anos, entrar correndo pela porta lateral da copa, ato às vezes costumeiro sempre que ele chegava com os pais, indo em direção ao quarto de costura em que Selhama (ainda Belinha) brincava, chamando por ela.
Rápida foi até o primo, percebendo-o diferente das outras vezes que o vira: Osmar chorava e mostrava medo, medo de morrer, palavras entrecortadas por soluços abafados de que não queria morrer, que estava com dor, muita dor, ele lá no hospital numa cama alta com muita pressão na barriga e peito, sua mãe chorando demais, seu pai em desespero louco, o doutor apalpando-o, a moça de branco ao lado, o rapaz apressado que aplicava-lhe injeção, ele sentindo falta de ar, sufocado, olhos fechados, o coração já parado e alguém que disse “o pobrezinho morreu”.
- Eu morri Belinha e dói muito, eu não queria morrer, eu não estava doente.
Osmar chorava e a prima ali parada à sua frente, sem nenhuma palavra, apenas a olhar talvez sem compreender muito bem o que se passava com o menino desesperado. Quis gritar pela mãe, e num instante Osmar desapareceu, deixando-a de olhos arregalados.
- Osmarzinho, não vai assim não.
O primo se foi e ela, surpreendentemente calma para quem acabara de vivenciar passagem no mínimo incomum para qualquer ser humano, chegou até a mãe: 
- Mãiê, como é que a gente morre?
Numa fração de segundo, Elisa descobrira ali que não seria nada fácil explicar a morte para uma criança de quatro anos; também sabia que por trás dessa pergunta viriam outras, talvez mais embaraçosas e, mentalmente, pôs-se desenvolver quadros de possíveis desdobramentos, até onde aquela conversa iria chegar, sem imaginar realmente o que a filha tinha para revelar.
A menina sem paciência para aguardar resposta, soltou logo outra:
- Dói para morrer mãe?
As coisas complicaram-se ainda mais: – “sabe-se lá se dói ou não dói? acho que depende da experiência de cada um, sei lá!” – pensou Elisa sem ousar responder, afinal uns morriam sorrindo, outros chorando dores, aqueles com as tais mortes bonitas ou que morreram como um passarinho, os que nem sabem que morreram vítimas de brutais acidentes; Elisa questionava sem encontrar respostas e por isso resolveu dar um basta na conversa:
- Porque você quer saber se dói ou não dói?
- É que o Osmarzinho mãe, está chorando muito, gritando muito, ele não quer ir não, você não viu ele mãe? Acho que dói e deve ser ruim senão ele não chorava né!
- Não vi e nem ouvi nada – de pronto Elisa surpreendeu-se ao dar conta daquilo que a filha acabara de dizer, rapidamente associando perguntas às informações da filha:
- O que você está dizendo menina?
- Que o Osmarzinho morreu mãe! E eu acho que dói porque...
- Faça-me o favor! Osmarzinho foi passear com os pais dele na cidade em que mora o avô que está doente...
- Eu sei mãe, mas ele morreu mesmo e acho que ele tá com medo...
- Como você sabe que ele morreu? Você tá doida menina?
- Eu vi e ele falou mãe!
- Falou o que menina? Você sonhou isso sim, e não estou gostando nada disto, agora vai brincar senão conto para o seu pai quando ele chegar; vai logo antes que coloque você de castigo.
Elisa exasperada e Selhama, a sua Belinha, incrivelmente tranquila com alguma coisa mais para dizer, preferindo todavia bater-se em retirada ante as ameaças da mãe, não sem antes dizer: 
- Mas que ele morreu, morreu sim, e que dói, também dói...
Instantes depois Selhama já esquecera tudo, aparentemente, enquanto a mãe ruminava pensamentos, querendo luz; o telefone toca um tanto depois, Elisa atende, era Arnaldo:
- Querida, negócio chato, você está sabendo? 
- Do que Arnaldo?
- Do Aldevino e da Odete.
- O tio Pedro morreu?
- Pior Elisa, muito pior, o Osmarzinho morreu.
- O que? Meu Deus!!! 
Por momentos nem deu conta do que a filha lhe dissera sobre a morte de Osmar, mas logo depois: – “meu Deus do céu!!! – e a apressar-se até onde estava a filha, temendo qualquer coisa de errado, encontrando-a no quarto de costura, a brincar com bonecas e jogos, sem um mínimo de pavor sequer; abraçou-se à filha, chorando:
- Filhinha, Osmarzinho morreu mesmo!
- Eu sei mãe, mas ele já tá bonzinho, já não chora mais e até deu risada.
A noite no velório Selhama insistia com o pai:
- Eu falei pra mãe, pai, que ele tinha morrido. 
Elisa desconversava e a partir daquele momento não mais desgrudou-se da filha, até que esta dormisse: – “assim é melhor, ainda bem que o Arnaldo e nem ninguém percebeu”.
Não contou nada ao marido, mas já no dia seguinte ao sepultamento de Osmar, lá estava ela na casa do Reverendo Ezequias, da Igreja Presbiteriana Independente, com suas dúvidas e tantas interrogações, a ouvir explicações e orientações que não entendia bem:
- Não conte nada ao Arnaldo por enquanto Dona Elisa, ele já está cheio de problemas de serviços, porque então preocupa-lo com estas coisas? Isto não tem nada com o poder do demônio, são apenas fenômenos da mente, Dona Elisa, telepatia, a senhora entende? No momento da dor da morte, o menino pensou muito forte, ninguém quer morrer, existe a dúvida e o medo do lado de lá, e a sua filha captou isso, um fenômeno normal. Porque ela? Porque ela é sensitiva, Dona Elisa! Se isso acontece com os outros também? Claro, claro, não tão freqüente, mas acontece sim, a senhora já não ouviu falar a respeito do aviso da morte, que os antigos tanto comentam? Então, Dona Elisa, sua filha teve o aviso da morte de alguém. Não, o diabo não tem nada com isso, a senhora acha que Deus iria permitir semelhante coisa, que o diabo venha apoderar-se de uma criança inocente? Ah! isso passa sim, foi apenas um acontecimento, um momento que não vai voltar mais, nunca mais, de mais a mais, as crianças se gostavam e por isso se deu o fenômeno. O nome do fenômeno? é telepatia dona Elisa, às vezes dão outro nome, a Ciência gosta de complicar com termos técnicos, mas é telepatia com clarividência. 
O reverendo parecia bastante calmo ao responder as muitas perguntas de Elisa, já menos preocupada ao deixar aquela casa, com a sensação de que não perguntara ainda tudo o que desejava, porém satisfeita com as respostas e esclarecimentos; um dia perguntaria à própria filha sobre o assunto, ouvir dela as explicações, não agora, conforme recomendações do Reverendo, e muito menos tocaria no assunto com Arnaldo; caso a filha porventura viesse um dia despertar atenções dele com algum tipo de comentário, desconversaria, que a menina lhe dissera aquilo depois que souberam da notícia e que ela, criança ainda presa por sentimentos, confundia as coisas – “Deus me livre se Arnaldo, do jeito que ele é, ficar sabendo de uma coisa dessa!”.
Mais ou menos seis meses depois, Selhama sacudiria sua mãe com novo bombardeio de perguntas: 
- Manhê, o Osmarzinho morreu né?
Elisa não demorou entender que a filha referia-se ao falecido primo, por isso assustou-se: – “será que vai começar de novo meu Deus?”
- Morreu sim, você sabe que Osmarzinho morreu, porque?
- É que ele veio conversar comigo.
A mãe sobressaltou-se:
- Como? Quando? Você está dizendo que o Osmarzinho – interrompeu suas palavras para ouvir a filha.
- Que ele veio conversar comigo, inda de agorinha mesmo.
A mãe procurou manter calma:
- Ara, deixe de besteiras Belinha, morto não vem conversar com vivos não - não tinha tanta certeza disso – o Osmarzinho está no céu e lá ele pede para Nosso Senhor olhar por nós...
- É mãe, mas ele veio.
Quis sorrir das besteiras da filha: – “ah! essas crianças tem uma imaginação fértil”! –, parou contudo reflexiva ao lembrar que, naquele dia, Osmarzinho se vivo, completaria oito anos de idade.
- Filha, hoje é o aniversário dele...
- É mãe, ele falou...
A pobre mulher não sabia o que mais dizer, sem nenhuma palavra para justificar seu espanto, tanto que resolveu pelo encerramento do assunto:
- Tá bom, agora vai brincar, vai.
- Ele tava tão bonito mãe!
- Sei, vá brincar, vai – começava de novo exasperar-se.
- Você disse que ele não podia vir, mas ele veio conversar comigo.
- Depois a mamãe conversa com você, tá bom? 
Selhama saiu em direção ao quarto, talvez para pegar algum de seus brinquedos, enquanto a mãe matusquelava, lembrando que Arnaldo vira a boneca andar sozinha no ar a um pedido da menina, o dia em que ela falara da morte de Osmar, e agora mais essa que o primo viera visita-la: – “Porque isso tudo meu Deus? Ela é tão criança!!!” – despertou-se ao ouvir a filha:
- Manhê!!!
- O que é menina! – estava tensa.
- Vem aqui vem mãe, vem ver um negócio.
- Tô ocupada, não tá sabendo?
- Vem ver uma coisa, vem!
- Fala o que é que eu escuto, e vê se não enche!
- É o Osmarzinho mãe...
Irritada foi rápida em direção ao quarto da filha; dar-lhe-ia uma bronca daquelas:
- Já falei para você...
Interrompeu com espanto suas palavras, a jurar pelo Santo Nome de Deus, que vira uma luminosidade, um facho de luz talvez, a se mover rápido da beirada da cama da filha para a janela do quarto e ali desaparecer; jurava também que vira o pequeno urso de pelúcia da filha rolar pelo chão, como se esbarrado pelos pés de alguém ou chutado a uma pequena distância: – “Deus do céu, o que é isso?” – cismou consigo acreditando nalguma alucinação visual.
Espanto ainda maior quando a menina levantou-se de sobre o tapete, para lhe mostrar um papel com alguns rabiscos que definiam, na forma de desenho rústico, a figura de uma criança:
- Mas é o Osmarzinho!
- É mãe, foi ele que fez e escreveu o nome dele.
- Fez como? – estava atônita, querendo ainda ser incrédula.
- Ah! mãe, ele pegou minha mão para desenhar. . .
- Vamos filha, vamos sair já com a mamãe – e quase arrastou a filha, do quarto e, direção a porta da copa, para dali sair ao corredor em direção à rua.
Elisa estava simplesmente apavorada quando chegou à casa da sogra, em lágrimas a relatar acontecimentos de antes e de agora; a senhora Salles não tinha explicação alguma para a nora, no entanto apresentou expectativas:
- Vou falar com o Pastor Almir, da Igreja Restauração, pois que o nosso reverendo é muito fraquinho nisso, fique tranquila Lisa, Belinha está bem, e quando Arnaldo chegar, conte tudo, não esconda nada dele não.
Uma oração confortante, Elisa e filha voltam para casa. À noite Arnaldo já ciente e preocupado, a questionar a esposa – “como não me falaram nada? Será que Belinha está doente?” – quando chega-lhes a visita esperada do Pastor Almir, acompanhado de um grupo de fiéis, homens e mulheres.
Orações para toda família, uma especial para a menina, expulsões de demônios porventura incrustados no lar; Pastor Almir a seguir abriu a Bíblia para a escolha aleatória de um versículo ou texto bíblico – acreditavam que Deus desse mensagens de semelhante maneira – e o texto apontado recaiu em I Samuel 16: 14 a 23, onde um espírito maligno da parte Deus apossava-se vez ou outra de Saul, rei de Israel. 
Não podia haver passagem bíblica melhor, para Pastor Almir explicar à família o que estava a acontecer em seu meio; a menina era um vaso escolhido por Deus para uma grande e estranha obra, e que permitira aqueles manifestos demoníacos como alertas aos pais, “pois eis que era chegado o tempo da restauração de tudo, da qual Deus falara pela boca de seus santos profetas, conforme texto extraído de Atos 3: 21, aliado ao – Vede entre as nações, e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos; porque realizo em vossos dias uma obra, que vós não crereis quando vos for contada (Habacuque 1: 5)” – e essa era a maneira pela qual Deus dera-se a revelar para a família.
Esses versículos que convenciam os crentes da denominação quanto a atuação de Deus na terra, comoveu sobremaneira Arnaldo que, após a visita, continuou estuda-los noite adentro, com outros textos deixados pelo Pastor, dedicando especial atenções à citação de Atos – “O qual convém que o céu contenha até aos tempos da restauração de tudo, dos quais Deus falou pela boca de todos os seus santos profetas, desde o princípio.”. Sentiu-se agraciado com as revelações divinas em sua vida: – “como pudera durante anos não perceber verdades tão evidentes?” 

*Declarações da mãe e registros posteriores de Selhama colocados no diário.





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