quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

SELHAMA SE DEIXA APANHAR PELA MÃE*

Osmarzinho, foi legal você ter vindo me visitar esta noite, uma pena que (...). Acho que dá sim para a gente namorar, estive pensando sabe (...). - Diário de Selhama 12 de outubro de 1982. 
Elisa levantou-se por volta das 3,00 horas da manhã e, ao dirigir-se à cozinha para alguma realização qualquer, próxima do quarto da filha escutou esta a falar com alguém, quase em sussurros, impossível entender o que estava sendo dito, por mais que se esforçasse; pensou abrir a porta de vez, quem sabe flagra-la com alguém, mas aí correria o risco de não haver nenhuma outra pessoa, somente a jovem a simular susto e lhe dizer com certeza que estava sonhando em voz alta; a mãe sabia que se fizesse isso perderia a confiança da filha, fosse em qual situação se encontrasse.
Tentou olhar pelo buraco da fechadura, tudo escuro, embora pudesse perceber vulto da filha sentada à cabeceira da cama, como que abraçada a uma outra pessoa, que podia no entanto ser ilusão visual ou simples vontade de ver confirmada sua suspeita: “a filha estaria a trazer um amante para dentro da própria casa”.
Poderia a filha estar realmente a sonhar? Sim, era uma possibilidade e já ouvira muito falar de pessoas sonâmbulas, e quem sabe Selhama até fosse uma delas, todavia existia aquele maldito passado da menina com o primo Osmar, que de repente e sem querer Elisa evocou por instantes, mesmo sabendo ser a filha uma paranormal desvinculada das crenças espíritas, segundo dizia.
Conversaram na manhã seguinte e a resposta foi exatamente a esperada: – “ih mãe, uma 'sonharada' tão esquisita que só vendo, e até acho que falei mesmo”. Elisa percebeu que a filha mentira, que ela recebera sim alguém em seu quarto, que provavelmente entrara e saíra pela janela que dava para o quintal ao lado, onde qualquer pessoa podia penetrar às escondidas desde que combinado; não tinha certeza e, embora atenta, Elisa não ouviu ruídos. 
Não se sabe se por tal atitude da filha, Elisa quis observa-la ainda mais atentamente e a procurar vestígios no quarto, sem nada encontrar que pudesse denunciar a presença de algum estranho naquele ambiente.
Coincidência ou não, Elisa numa tarde em que Selhama fora estudar na casa de uma amiga, resolveu por ordem no quarto da jovem: “essas meninas de hoje em dia não querem saber de mais nada, um relaxo total, o quarto uma bagunça” – parecia não lembrar-se que tinha motivos maiores para botar ordem naquele cômodo. 
Deu de cara com um dos volumes do Diário da filha, e fez-se curiosa: “também um dia tivera o seu, vindo depois queima-lo quando ficou noiva de Arnaldo, coisas próprias de adolescentes, e não ficaria nada bem que Arnaldo viesse um dia conhecer seus pensamentos”. Seu diário era escondido a sete chaves jamais permitindo que alguém o visse, nem mesmo suas colegas mais íntimas que também tinham os seus, para as quais mentia: “nunca gostei disso e para que escrever se em minha vida nada acontece de diferente?”. Acontecia sim, tinha seus segredos, versos de lamúrias sobre suas paixões, os garotos que insistiam ignora-la e pelos quais apaixonava-se secretamente; seus ídolos de radionovelas, fotonovelas e depois aqueles da televisão e do cinema. Seu diário, eram diversos volumes, guardavam seus questionamentos, brigas com os pais, desavenças com colegas, xingamentos aos professores; depois que conheceu Arnaldo, seus escritos foram diminuindo – “já não tinha motivos para escrever sus mágoas”. 
Ficou tentada ler o que a filha escrevera, recriminou-se mas não resistiu e assustou-se ao dar exatamente na página onde Selhama descreve a presença de Osmar em seu quarto, em sua vida... – “Deus do céu! Ela escrevendo de um morto que vem visitá-la, e ainda por cima namorando? É isso mesmo que entendi? 
Correu folhas e folhas do diário sentindo-se tomada de um horror, ao ver ali versos e cartas a um morto, mensagens recebidas do além, referências a diálogos com outros espíritos; quis ler, procurou mas não encontrou os demais volumes, anteriores e posteriores àquele cujas datas iam de 1980 a 1982, deduzindo que desde muito sua filha mantinha aquelas estranhas ligações com o outro mundo e que provavelmente ainda as mantivesse.
Não poderia contar a Arnaldo sua descoberta nem a ninguém, pois seu amor pela filha era tremendo e agora descobrira o quanto, e jamais iria expô-la numa situação de vexame, de recriminações, questionamentos e castigos. 
Conversaria com sua filha, um diálogo mais franco e aberto como sempre desejara fazer, e a protegeria sim levando-a onde quer fosse preciso, a algum especialista para tratamentos se isso realmente fosse algum mal; mentiria ao marido que a filha estava com problemas de mulher. Selhama aceitaria sua sugestão, não tinha dúvidas que sim.

*Informes da mãe e relatos de Selhama.

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