quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

SELHAMA REVELA SEGREDOS E PARECE LEVITAR*

Na terceira e ultima noite que passariam no Monte, na Ilha Vicente de Carvalho – o acampamento seria levantado logo pela manhã, quando do encerramento dos trabalhos – e os crentes ainda demonstravam entusiasmos, sem canseiras aparentes daqueles que há mais de sessenta horas permaneciam acordados, muitos sem qualquer alimentação sólida, uns e outros se sustentando com soro caseiro pelas manhãs e noites, outros com sopa rala, ao lado daqueles que permaneciam em jejum absoluto, conforme disseram ou foram percebidos.
As orações estavam vibrantes, no instante em que a voz de Selhama destacou-se das demais, num estranho linguajar diferente do que falara antes, todavia não menos empolgante – posteriormente analisadas não apresentavam nenhuma proximidade com idiomas ou dialetos humanos conhecidos, ao contrário do lituano que anteriormente e noutra ocasião falara, de acordo com especialistas de fora da Igreja, assim como as palavras hebraicas pronunciadas e tidas designativas de Deus.
Depois uma senhora também falou, destacadamente, em tatibitate – denominada língua dos anjos, segundo a crença, e alí prontamente interpretadas por Selhama, numa típica tradução simultânea, como mensagem de um Deus feliz com as orações e sacrifícios de seu povo.
Tão logo calada a mulher, Selhama aventurou-se numa profecia de exortação à Igreja acerca da consagração, e mais a promessa de que, ainda naquela noite, Deus distribuiria do dom de milagres [operação de maravilhas] àqueles que O buscassem de coração puro. Apesar das palavras bastante eficientes e bem coordenadas, o teor da mensagem não parecia profundo ou de alguma revelação inédita, antes sim, bastante infantil como se Deus, por instantes, se fizesse um menino, afinal, o que seria 'operação de maravilhas' senão aquilo que estavam a viver naqueles momentos felizes? 
O que viria a seguir no entanto, deixaria todos os crentes estupefatos: Selhama, de olhos fechados, ergueu os braços para o alto e clamou: 
  • “Eu vejo os céus abertos e os anjos aqui, Deus está em nosso meio, Jesus toca os corações e o Espírito Santo derrama fogo, só não vê quem não tem fé”.
Ditas as palavras, fervor e emoções tomaram conta do ambiente, em tremenda proporção que até crianças que dormiam, acordaram e ali chegaram ao local onde Deus com certeza estava a derramar bênçãos sobre seu povo, conforme desejos e crenças; uma árvore não distante teve um de seus galhos quebrado, um toro mais ou menos grosso que, segundo um vidente, quebrara-se por não suportar o peso da casta de demônios nele empoleirada. 
Quase ao mesmo tempo um grupo de fiéis, enquanto Selhama cantava alto o coro evangélico – “Derrama fogo, fogo, fogo, derrama fogo, fogo, fogo, derrama fogo celestial” – pôs-se a gritar ante a presença, visível a todos, de princípio de incêndio, quase aos pés de uma árvore, fogo azulado, crepitante a consumir gravetos e folhas secas, rapidamente espalhado num círculo maior onde conteve-se; medo de alguns, a princípio, alguém no entanto percebeu que as chamas eram frias e úmidas, incapaz de queimar as mãos e roupas daqueles que as tocavam, crédulos que aquilo seria algo espiritual, e muitos, inclusive o pai de Selhama, pegaram galhos maiores ou raízes secas e já consumidas em parte pelo tal fogo espiritual, para guarda-los de lembrança. O evento durou pouco mais de um minuto, talvez, tempo suficiente para aumentar ainda mais o louvor daquela gente, que jamais vira coisa igual, e que em momento algum ousara questionar possibilidades de algum fenômeno natural explicável pelas ciências: – para eles aquilo era um milagre e nada os demoveria da opinião.
Mulheres gritavam externando emoções, homens choravam ao lado dos que riam e bailavam felizes nas graças de Deus, enquanto muitos apreciavam, fervorosos, os mínimos detalhes dos acontecimentos. 
Uma senhora de meia idade, a repetir as palavras de Selhama, “eu vejo os céus abertos e os anjos aqui”, se pôs a pular em graciosos e ritmados saltos, de olhos fechados numa profunda concentração, enquanto batia palmas e anunciava aos gritos alguma possível visão contida naqueles dizeres, com tal efeito contagiante, que logo foi imitada por tantas e tantos, num êxtase de elevação que parecia completa, quando alguém gritou mais forte num desespero emocionado, como a desejar que todos pudessem participar, pelo menos num segundo, o que estava a ver: 
- “Vejam irmãos, a menina de Deus está dançando e andando no ar”.
A paralisação de todos se deu imediata, olhares rápidos em busca dos feitos clamados e, alguns, puderam constatar que Selhama flutuava acima do solo, numa altura oscilante entre os doze e vinte centímetros, talvez mais, enquanto dançava e cantava em língua estranha que uma senhora interpretava “o poder e a glória de Deus me elevam e me sustentam sobre a terra”, e videntes diziam ver anjos que seguravam a menina pelos braços e axilas. 
  • Uma foto tirada, alguém pensara nisto,  ainda que de baixa resolução, mostrou a menina um tanto acima do solo, como se flagrada num delicado salto, com as pernas ligeiramente separadas, e braços em cruz. Uma segunda foto que teria desaparecido, dizem, Selhama era vista de frente, flutuando, olhos fechados, semblante tranquilo e quase a sorrir. 
Ninguém sabe precisar por quanto tempo Selhama manteve-se suspensa no ar, mas todos os testemunhos testificam que ela efetivamente levitara, assim como as fotos, até que veio pousar suavemente ao chão, atônita com o sucedido, para em seguida correr até o altar improvisado, onde se encontrava o pastor presidente a buscar palavras incentivadoras de ordem geral para que a corrente de louvor não se quebrasse: – “continuem a orar irmãos, não dispersem pensamentos, Jesus está operando maravilhas em nosso meio, Jesus, o leão da tribo de Judá” – com bastante ênfase ao designativo, enquanto estendia as mãos à pequena para auxilia-la subir os degraus do altar. Um membro da comunidade, fotógrafo de profissão, fez de pronto espocar o flash de sua câmara profissional, em direção a Selhama, conseguindo uma foto que viria fazer história no meio evangélico de todo o mundo: – no lugar de Selhama, um fogo de proporções com a nítida representação da cabeça e juba de um grande leão, com a boca aberta onde até os caninos eram visíveis, de tamanha clareza que é impossível a não identificação imediata daquele animal.
Surpreendentemente, enquanto os crentes pareciam voltados às orações – difícil afirmar com exatidão se realmente concentrados –, Selhama sai em prantos e rápida de onde estava aos pés do improvisado altar, em direção ao acampamento das crianças, num choro compulsivo de quem estaria apavorada com alguma coisa, sem nada dizer à monitora quanto aos motivos; sossegou um tanto, com a presença dos pais, para relatar uma estranha visão que tivera instantes antes:
  • Do altar Selhama via o Pastor Marcelino entre demais crentes, quando lhe sucedeu tipo transporte e teve uma visão, mental ou espiritual, bastante enigmática: três homens fortes invadiam cômodo bem longe dali, anexo a uma Igreja [salão ou templo evangélico], não sabia precisar onde e nem quando, e enquanto dois deles batiam e seguravam Marcelino, o terceiro esfaqueava-o violentamente até a morte.
Chamaram o Pastor Almir e o Pastor Presidente, colocando-os a par do que a menina afirmava ter visto e apavorado muito. O líder máximo da seita, sabe-se lá porque, acreditou que Selhama estivesse cansada de tantas emoções da noite, a mente confusa e um tanto preocupada com um Pastor popular, como o Marcelino, que todos gostavam especialmente as crianças e jovens; e o próprio Marcelino, convocado e imediato, disse não ter qualquer desafeto e jamais fora ameaçado por quem quer que fosse.
Arnaldo, Elisa e a monitora Isabel, esta da Igreja de Vila Munhoz – São Paulo, omitiram detalhes da visão, e se arrependeriam dias depois: Selhama dizia que Pastor Marcelino estava namorando, embora fosse casado, uma mulher de sua Igreja e por isso seria morto, pelo marido e seus irmãos. 
  • Porque esconderam isso? Primeiro porque era algo grave que poderia gerar algum problema maior, caso a visão fosse mentira ou algum engano, depois, a mulher a quem Selhama se referia estava também presente no local, e qualquer denúncia ou divulgação, certa ou errada, poderia se transformar num escândalo.
Os pais da vidente, todavia, decidiram comunicar maiores detalhes ao Pastor Almir, tão logo de volta à cidade, porém tarde demais, e assim o Pastor Marcelino foi assassinado, por três homens (o marido traído, um irmão carnal e um cunhado) naquela mesma noite, que Almir fora comunicado; os três homens invadiram cômodo anexo ao prédio principal da Igreja, flagrando Marcelino e a amante, sem que o Pastor Almir lograsse êxito comunicá-lo via telefone. 
Pelo acontecimento ou talvez algum outro motivo Selhama, ainda que famosa naquele meio evangélico, jamais voltaria apresentar fenômeno algum, até se recusando orar pelos que a procuravam, optando pelo refúgio de seu quarto, algo de princípio compreensível por todos, cientes dos acontecimentos com o Pastor Marcelino. 
Selhama, por volta dos quatorze anos de idade, quando a seita impôs vestido longo para as mulheres, até um palmo acima dos tornozelos ou um palmo abaixo dos joelhos, Selhama abandonou a 'Obra da Restauração'. 
Selhama foi incapaz de sentir-se indiferente às bruscas transformações surgidas na Restauração quanto ao papel da mulher na Igreja: 
  • “A mulher aprenda em silêncio com toda a sujeição. Não permito, porém que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio” (I Timóteo 3:11-12); “As mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é indecente que as mulheres falem na igreja” (I Coríntios 14:34-35), uma interpretação bastante particular da seita, como ordem expressa de Deus. 
Depois outros exageros surgiriam, como as proibições do uso de jóias, roupas finas, penteados, sapatos de salto alto, tudo baseado em textos bíblicos, no entanto incompatíveis com a vida moderna e nem sempre aceitos pelas mulheres. 
Seus pais não a recriminaram, e pouco depois também abandonariam a seita, escandalizados com o romance entre o líder Magno com uma profetiza no Rio de Janeiro, mulher casada, num adultério biblicamente justificado por Magno, no livro bíblico do profeta Oséias 1: 2 - "(...) vai toma uma mulher de prostituições e terás filhos (...)", e, no mesmo livro, 3: 1, "Disse-me o Senhor: Vai outra vez, ama uma mulher, amada de seu amigo (...)".
  • Sem importar o contexto e traduções, Simões justificava-se com a máxima que Deus Mandava, manda e para sempre mandará, pois ele é o Senhor e sua obra é santa. Pouco depois, em Goiânia - Goiás, o grande líder suicidou-se e a seita fragmentou-se.
O próprio Pastor Almir, decepcionado com os acontecimentos, foi morar em Manaus para lá fundar sua própria denominação que, em muito, lembrava a 'Restauração'. 

*Os fenômenos ocorridos foram testemunhados por membros da seita presentes no evento, com algumas variantes. O Pastor Marcelino realmente foi assassinado - crime passional; e os problemas da 'Obra da Restauração', com o suicídio de Magno, estão em conformidade com os acontecimentos.



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