quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

RESPOSTAS ÀS DÚVIDAS*

Quero compreender meu novo universo, obter respostas às minhas dúvidas. Experimento, ainda, certos conflitos íntimos que insisto não existir quanto aos meus próprios dons: seriam eles realmente meus, do diabo ou será que Deus está metido nisso? Seo Walter esclareceu-me que, embora a Igreja negue, a Bíblia tem uma série de referências de fenômenos espíritas, e tenho comigo a relação de capítulos e tantos versículos bíblicos, em livros diversos, que realmente confirmam – assim entendo como certos especialistas – manifestos que a Igreja condena mas que o Espiritismo prega. Conheci ontem o Dr. Moacir [médico psiquiatra, professor universitário, parapsicólogo e conferencista], na casa da professora Vera, um homem de sabedoria, com o qual aprendi muito, em especial uma técnica que ele chama de projeciológica, e gostei muito; ensinou-me também como fazer auto-hipnose com maior liberação de minhas capacidades; fiz isso à noite quando cheguei em casa e realmente consigo o que desejo, e até movi meu compasso de escola, fazendo com que ele girasse deitado sobre a escrivaninha, sem a ajuda de Osmar ou de qualquer outro, como os meus bons companheiros. Com as técnicas ensinadas Dr. Moacir disse que só faço contato com quem e quando eu quiser, mas que posso receber entidades para fins religiosos que transmitiriam mensagens através de escritos e da fala, por incorporações – até ontem ainda não sentira isso em mim – ou vibrações em meu perispírito – o que se passava comigo – mas que isto somente deveria ser feito em Centro Espírita de confiança, pois que eu poderia pegar obsessores e espíritos mistificadores, e isso seria de muita complicação e comprometimento inclusive mental. Apesar de 'bocada' na matéria, não acredito que Dr. Moacir seja espírita e ele está simplesmente puxando sardinha para o braseiro de Seo Walter.  Acho que vou me atirar nisso de cabeça, mas longe desse negócio de religião, mesmo que seja espírita ou afro-brasileira, que só serve para encrencas e cada seita a acusar a outra, cada uma querendo ser a única dona da verdade, embora sejam bem melhores que os evangélicos – puxa, ainda bem que não sou mais obrigada a ir na Igreja de ninguém e escutar aqueles babacas darem seus gritos e a irmandade aprontar aquela gritaria como se Deus fosse surdo. - Trechos do Diário de Selhama, 10 de janeiro de 1984. 
Preliminarmente quanto aos textos do diário, verifica-se que Selhama por volta dos dezesseis anos parece caminhar para a plenitude de seus dons, com consciência ao lado dos questionamentos próprios das religiosidades; não sabe a origem de seus manifestos, se dela mesmo, de Deus ou do Demônio.
As insistências vistas em abominar religiões, ou não submeter-se às regras de fé, até com declarado desdém, indicam temores ou, no mínimo, idéias confusas a respeito da própria paranormalidade.
A um observador atento, percebe-se em Selhama senão contradição, um outro lado que passa existir em sua vida: consegue promover pelo menos um fenômeno telecinético sem a participação de Osmar – sabidamente morto – e dos dons companheiros, estes desencarnados senão frutos ou criações mentais; ela não se refere à ocorrência do copinho falante.
Oras, o que seriam Osmar e os bons companheiros para ela? Espíritos ou muletas psicológicas? 
São ainda interessantes, nestas primeiras observações, que Selhama é plenamente cônscia de seus poderes e valor representativo nas comunidades que frequenta ou mesmo daquela que já tenha participado, conduzindo seus atos conforme vontade própria independente das doutrinas de credos tão diferentes – todo seu potencial é utilizado à sua maneira sem se importar com as confusões provocadas ou preocupações de líderes. 
Outro ponto fundamental: ela conhece Dr. Moacir Lichtenberg, e com ele, pelos primeiros contatos, a necessidade de redefinir posicionamentos, o que viria fazer gradativamente para enfim concluí-los uns dezoito meses depois. 
Dr. Moacir Lichtenberg, médico, professor universitário na área de psiquiatria, estudioso quanto aos atributos e poderes da mente, excelente hipnólogo e versado em Parapsicologia, sempre à caça de fenômenos paranormais ou daqueles que eram capazes de produzi-lo, não importando o grau de classificação. Talvez por isso fosse considerado profundo conhecedor de seitas religiosas, místicas, esotéricas, exotéricas, gnósticas e as exóticas – verdadeiro nicho de sensitivos, médiuns ou simplesmente paranormais – e, às próprias expensas inicialmente – posteriormente teria apoio de uma Fundação – pesquisava sensitivos que demonstrassem potencialidades. 
O próprio Dr. Moacir não possuía capacidades paranormais – sabia fazer trucagens e conhecia praticamente todos os tipos de fraudes comuns ao próprio meio – todavia era capaz de fazer, através de hipnose, que um sensitivo considerado pequeno ampliasse seus feitos, com desbloqueios mentais, até atingir nível máximo dentro daquilo que a pessoa poderia atingir.
Se interessou pelo caso Selhama ao ouvir Walter, seu particular amigo, analisando fotos que pareciam autênticas, nas quais viam-se auras ou esboços de figuras como nuvens de fumaças sobre a cabeça ou ao lado da sensitiva, além dos negativos que não demonstravam manipulações fraudulentas – não teve dúvidas que Selhama influenciava filmes fotográficos – e outros materiais como fitas cassetes, escritos, desenhos, objetos metálicos retorcidos, além de testemunhos redigidos e assinados por Walter e pessoas que testemunharam feitos de Selhama, especialmente quanto aos conhecimentos paranormais, alguns futurísticos, outros em relação a terceiros que nem se encontravam em sessões e muito menos tivessem ligações com algum dos frequentadores.
O primeiro encontro entre pesquisador e pesquisada aconteceu na casa de Walter, onde se pode constatar que Selhama, livre de religiosidades ou de qualquer sistema de crença, produzia fenômenos psicológicos sem conhecer as causas e origens, mesmo das locuções internas – a voz que lhe determina ações, tida por ela como voz do subconsciente – ou das visões com falecidos, que acreditava captações mentais de pessoas presentes, conforme Dr. Walter a ensinara quando pode entende-la avessas à religião espírita, talvez como meio de cativar, interessar para o assunto e assim mante-la a seu lado.
Na visão médica de Moacir, Selhama não apresentava nenhum distúrbio orgânico ou mental, sendo jovem plenamente saudável que simplesmente era capaz de ver coisas que outras pessoas não enxergavam, ou de ditar assuntos desconhecidos dela e dos que a cercavam, até com bastante profundidade, além das revelações de mensagens, sem dúvidas um fenômeno telepático, vez que ela sempre dizia nas mensagens escritas ou faladas, aquilo que as pessoas desejavam efetivamente ouvir, ou seja, elas tinham de certa maneira respostas prontas às perguntas ou desejos ainda que mentalmente formulados, quando não de certos acontecimentos mais ou menos esperados por alguém.
A capacidade de curas pela imposição de mãos ou transferência bio- energéticas, tinha nítida influência evangélica pentecostal, assim como para doenças irreversíveis ou que ela não se mostrasse capaz de efeitos produtivos, tinham características espíritas, inclusive nas suas justificativas: – “doenças cármicas”.
Nos trinta dias – período de férias prorrogados por mais quinze – que manteve contatos diários com Selhama, inclusive conhecendo-a no ambiente do lar, Dr. Moacir constatou nela pelo dois feitos notáveis, até segunda ordem ausentes de fraudes: o primeiro, bem no estilo Zé Arigó/Dr. Fritz, Selhama (lera matérias referentes na noite anterior) com uso de afiado canivete extirpou pequeno tumor interno, cisto de ovário, de uma senhora que fora revelada, inicialmente, como possuidora de corrimento; o material foi analisado e dado como real tecido humano, enquanto a cliente, prontificando-se a exames médicos teve constatada evidências de ato cirúrgico. Numa outra oportunidade constatou-se também ato que pode ser considerado cirúrgico, ainda que sem uso de instrumentais, onde a sensitiva valeu-se apenas da imposição de mãos: um garoto revelado como portador de amígdalas inflamadas – laudo médico atesta aquele estado e Dr. Moacir confirmou diagnóstico – teve simplesmente desaparecidas aquelas glândulas, após profunda concentração da sensitiva, constatando-se posteriormente que foram efetivamente extraídas; Dr. Moacir embora estupefato com o inusitado ato praticado, considerou desnecessária referida cirurgia, todavia prevalecera a vontade dos pais que assinaram termos de responsabilidades, ainda que sem valore jurídicos. 
Durante os dias que o doutor esteve na cidade, Selhama praticamente não arredou pé da casa da professora Vera e Valter, procurando saber tudo e mais que pudesse do homem; e por ele foi hipnotizada e nessa condição, depois também consciente, foi-lhe colocada as principais técnicas que seriam por ela utilizadas no seu desenvolvimento parapsicológico.
Dr. Moacir, homem experimentado, sabia que tinha em mãos uma alta sensitiva, pronta para fenômenos de telergias e outros variados, por isso ensinara a ela como concentrar-se, fazer a auto-hipnose, provocar fenômenos e sobre eles exercer controles possíveis, exercícios de projeciologias de maneira consciente, influenciar objetos e seres animados ou inanimados, mesmo que à distância.
Presenteou a jovem com livros e apostilas de sua autoria para os cursos que ministrava, nos quais viria aprofundar-se de maneira a saber praticamente o essencial da Metapsíquica, Parapsicologia e Espiritismo.
Tornaram-se bons amigos e correspondentes por anos, com encontros esporádicos duas vezes mais quando ele retornara à cidade, duas outras em que ela foi visita-lo, e Selhama até promoveu curso especial, ministrado pelo doutor, no anfiteatro da faculdade que ela viria estudar. 
Sabe-se que pouco antes de sua morte, Dr. Moacir esteve com membros experimentadores da Faculdade que trabalhavam com Selhama, a verificar documentos e contribuir com seus conhecimentos para melhores êxitos dos trabalhos, com pelo menos uma participação numa das sessões feitas com a jovem.
O doutor não tinha dúvidas que a jovem faria história, desde que bem treinada e liberta de certos vínculos perigosos com entidades do além-túmulo; não contara a ela antes mas detectara isso, vindo revelar-lhe uns cinco anos depois, numa conversa bastante confidencial, para então expor e discutir o mesmo assunto com os professores e experimentadores da paranormalidade de Selhama, na Faculdade esta estudava, conforme decisão pensada, julgando o ilustre doutor haver cometido erro em relação à sensitiva, pois que a treinara capaz de bloquear interferências de terceiros, e somente ele estranho tinha condições de penetrar aquela mente de modo eficaz; no tempo certo pretendia isso, entrar nela e lutar se necessário fosse para libera-la.
Dr. Moacir no entanto faleceria antes de tal realização, todavia deixando com o médico psiquiatra da faculdade (um dos experimentadores) a chave para abrir a mente de Selhama e trabalha-la se e quando necessário – morto Dr. Moacir, o psiquiatra faria um dia valer-se do código ao entender Selhama em perigo iminente de vida. 
Foi com Dr. Moacir que Selhama deixaria seu universo de fenômenos ocasionais para faze-los quando e onde desejasse, com raros insucessos; também foi por ele que a jovem em breve viria abandonar suas atividades paranormais em cultos religiosos, para vive-las unicamente na sua própria individualidade.

*Das mesmas fontes do capítulo anterior.

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