quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

UMA SEITA CRISTÃ MUITO ESPECIAL*

No culto do domingo seguinte, à noite, na Restauração, encontravam-se a senhora Salles e Arnaldo com a esposa e filha, emocionados pelas palavras de sabedoria do Pastor Almir, surpresos diante de tantos belos testemunhos de crentes agora salvos, que antes viveram na perdição, em obras de feitiçarias, mundo da marginalidade e da prostituição, entre outros tantos procedimentos não menos escabrosos e, agora, remidos pelo 'Sangue de Jesus'
  • Os crentes pentecostais gostavam falar do passado negro em suas vidas como forma de engrandecimento pessoal: quanto mais podre, violenta e marginal a vivência, mais destaques no meio, não sendo raro o uso de mentiras para se adquirir status maior. 
Converteram-se: a senhora Salles porque há muito desejava fazer parte daquela congregação, Arnaldo por sentir que ali estava a verdade bíblica, Elisa para acompanhar o marido e talvez assim aliviar a filha dos problemas que, de certa maneira, afligiam-na também, nada podendo se falar de Selhama, ainda de tenra idade e praticamente sem nada entender, senão como causa daquilo e obrigada acompanhar os pais.
A Igreja Evangélica 'Obra da Restauração' era do ramo pentecostal, crédula nos manifestos divinos através dos dons espirituais descritos no Novo Testamento, I Coríntios, 12:1-11, dos quais destacam-se os comumente aceitos pelos demais pentecostais e católicos carismáticos, denominados avivados: 
  • Discernimento – dos e quanto aos espíritos manifestantes, embora tenham explicação diferente: o espírito seria um só, o Espírito Santo, distribuidor dos dons conforme a Palavra (Bíblia) – na verdade se de acordo com a doutrina da seita –, sendo que alguns membros às vezes extrapolavam situações, cabendo ao discernidor verificações quanto as procedências dos manifestos, se de Deus, do Diabo ou de alguma mera carnalidade, isto é, do próprio homem;
  • Variedades de línguas estranhas [angelicais e dos homens] – o mais comum dos dons manifestos, um fenômeno bastante próximo à xenoglassia, a maioria simples tatebitate ou seja, vontade de estar ou se dizer possuído, quando não advindas de fortes emoções a facultar línguas indecifráveis, sem um mínimo de construção gramatical ou mesmo de inteligência, mais próprias para certos estados de êxtases;
  • Interpretação das línguas [estranhas] – um fala e outro interpreta, de acordo com recomendação bíblica para ordem, decência e resultados, pois nada valeria dois ou três falarem línguas nada compreensíveis, sem alguém que possa interpreta-las para a Igreja, não se tratando de dom ou fenômeno comumente usado, salvo situações especiais; 
  • Profecias – atos premonitórios e das cognições, sem dúvidas o dom mais buscado pelos avivados, ao lado da cura, tratando-se em geral do indivíduo falar línguas estranhas, embora não necessariamente, entremeadas com palavras ou frases soltas em português (no caso brasileiro) que, ordenadas, trazem mensagens de exortações e alertas à Igreja, de caráter bíblico e doutrinário, ou ainda certas revelações quanto a acontecimentos passados, presentes ou futuros, geralmente ligados à Igreja, com mensagens de otimismo ou repreensão, ou a seus membros, tanto coletiva quanto individualmente, não raro com revelações bombásticas de problemas ocultos, às vezes particulares e desconhecidos da comunidade; o dom profético é mais comumente observado em reuniões particulares dos crentes; ainda que raro nos dias atuais, o profeta pode se valer também de gestos ou símbolos para suas predições ou mensagens, como o profeta Agabo em relação a Paulo (Atos 21:10-11), ou os do Antigo Testamento, também chamados videntes, que muitas vezes falavam através de oráculos e jogos de pedras sagradas (Urim e Tumim);
  • Revelação (as clarividências, telepatias, e assemelhadas), fenômeno quase nunca isolado, bastante comum quando das profecias e curas e com estas confundido; no geral atribuem-se como de revelações as denominadas visões, o ouvir vozes ou chamados e sentir impulsos para determinadas ações, como o desejo de curar, notoriamente um dom telepático, quando não de prevalências, artimanhas e carismas do agente, métodos useiros e vezeiros no meio, numa real exploração de fé; 
  • Dons de curar, pela bioenergia com imposição direta de mãos ou à distância, e das projeciologias mentais, todas com emissões de ondas cerebrais condutoras de nêutrons, que podem atingir e excitar células ou organismos doentes, às vezes com êxitos surpreendentes; alguns curadores valem-se da aloscopia (entram mentalmente no indivíduo e detectam moléstias internas, mesmo que desconhecidas do paciente e médicos, com grandes precisões) e a autoscopia (o doente, através de orações, seria induzido a buscar o mal interior, como se revelação divina, e nisto consegue conhecer uma enfermidade inoportuna; para a cura o texto bíblico refere-se a dons e não dom, nesse caso cabendo pressupor especialidades para os tipos específicos de moléstias;.
  • Palavra da sabedoria, as próprias do saber, oratórias e mensagens, mais adequadas aos líderes quanto as interpretações doutrinárias e as bíblicas, também comum entre membros anciões da Igreja quando dos aconselhamentos, geralmente aos mais jovens; diz-se do homem com capacidades de interpretar acerca dos mistérios divinos;
  • Palavra da ciência, trata-se de conhecimentos científicos e da razão, confundidos e quase não distintos dos dons da sabedoria, revelação e do discernimento, como elemento adquirido ou dado por Deus – conhecimentos supranormais; nos dias atuais, a palavra da ciência perdeu muito das suas características originais, restrita aos teólogos, estudiosos e curiosos letrados, que conhecem e expõe bases cristãs desde suas origens, com evidentes defesas doutrinárias da seita, nisto a perder sua qualidade de dom paranormal ou espiritual que seja;
  • Fé, o ato maior dos membros de uma seita, sem o qual não haveria razão do para seu existir; trata-se de um fenômeno individualizado, subjetivo, de caráter psicológico não apenas receptivo como também de fazer-se capaz das transposições exteriores do indivíduo – do seu duplo, mente ou alma/espírito –, com ações coletivas próximas ou mesmo à distância; a fé indica graus de bem estar ou não da pessoa em seu meio e consigo mesma, além de propiciar-lhe condições percepientes para aquisições dos demais dons;
  • Operação de maravilhas [milagres], seria o realizar de fenômenos físicos, que os evangélicos no entanto preferem como sendo ações e operações conjuntas dos demais dons, num mesmo ambiente, cujos manifestos seriam quase sempre incitados ou provocados por algum líder, em momentos especiais de indução coletiva; alguns entendidos da Bíblia [os de menos esclarecimentos] confundem-no com o dons de cura, sem observação às distinções feitas em I Coríntios 12:8-10, enquanto outros creem que operação de maravilhas nada mais seria que expulsões de demônios; o dom de operação maravilhas ou de milagres, conforme traduções, opera quase sempre com a natureza inanimada, manipulações de seres e objetos, a maioria das vezes vindo contrariar leis físicas naturais, portanto fenômeno físico. 
Acrescentam-se a esses fenômenos as visões e oniromancias, Joel 2:28 e Atos 2:17, bastante comuns no meio evangélico pentecostal e carismático católico, como os demais já mencionados; as visões (clarividências) e sonhos confundem-se com as revelações, profecias, discernimento e sabedoria.
A Bíblia, Antigo e Novo Testamento, aponta para outras capacidades fenomênicas, não tão usuais e atribuídas como manifestações satânicas pelos neo-testamentários, que citam erroneamente II Coríntios 11:14 em defesa de causa, embora a Bíblia não as diga demoníacas, posto que praticadas por alguns dos mais excelentes homens de Deus e com Ele em plena comunhão, como as adivinhações (leituras de presságios, Gênesis 44:5 e 15 e referências; jogos esotéricos por oráculos e sortilégios, Atos 1:26, Jonas 1:7, Exodo 28:30 e citações; materializações, de espíritos, formas e alimentos, vistas em Lucas 24:37, Hebreus 13:3, Daniel 5:5, II Reis 4:2-36, Mateus 14:3 e referências; psicografias, II Crônicas 21:12, ainda Daniel 5:5 e mais os textos referentes às Tábuas da Lei ou Decálogo; locuções internas, tidas como inspirações ou ordens divinas para se falar ou escrever textos, como toda Bíblia Sagrada o teria sido, segundo tradição judáico-cristã – são fenômenos plenamente aceitos pelos cristãos pentecostais e carismáticos, correlacionados a outros dons como os de revelações e profecias; incorporações espirituais, benignas e malignas conforme vistas em I Samuel 10:10 e 16:19-23, e manifestos outros tantos, conforme vistos no Novo Testamento; levitações, em I Reis 6:5-7, João 6:15, Mateus 14:29 e outras passagens; ressuscitar mortos: II Reis 4:32-36, os feitos por Jesus e os de Pedro e Paulo, pelo menos um caso para cada – todos os crentes pentecostais e carismáticos aceitam e admitem esse fenômeno, citam casos acontecidos entre eles, todavia sem testemunhos isentos ou de comprovações científicas, exceto nos casos de alguns redivivos; quiromancia (quirologia): Jó 1:7, ainda que sem mencionar o ato de leituras; rabdomancia (radiestesia) como a praticada por Moisés para encontrar água em pleno deserto, numa passagem um tanto deturpada; encantamentos, feitos tanto por Jacó quando desejou determinados caracteres em ovelhas que, assim, seriam suas, quanto Moisés em algumas das célebres dez pragas sobre o Egito, além de outros, alguns como evidentes conhecimentos de fenômenos naturais ou das conseqüências destes, ao lado dos praticados pelo método indutivo, hipnose ou de truques mágicos. 
Alguns dos fenômenos citados têm ocorrências simultâneas com outros, como as passagens em Daniel 5 (materialização, psicografia e interpretação), e a passagem narrada segundo o evangelho Mateus 17:3, com materializações e transfigurações.
Todos os dons espirituais podem e devem ser classificados como de paranormalidades ou sobrenaturais. Às exceções dos dons de operação de maravilhas [milagres] e em alguns casos do discernimento, no caso realmente de existir espíritos, os demais dons são de caráter psicológico, isto é, entram e atuam apenas com e para a parte humana.
Dentro dessas vivências fenomênicas, a Obra da Restauração surgiu no Brasil no início dos anos 60, num período em que os evangélicos de todo o mundo experimentavam vazio espiritual, mesmo entre os pentecostais, com o advento da apostasia no meio e das certas tendências de identificação com o mundo moderno do século XX, e envolvimentos políticos; os crentes não eram mais vistos como homens de Deus ou os separados do mundanismo. A nova denominação surgiu exatamente para restaurar todos princípios e doutrinas da Igreja Cristã Primitiva, sob a liderança de um certo Pastor Magno Simões, então considerado a primeira inteligência dentre os teólogos brasileiros.
A Restauração não era portanto apenas mais uma seita voltada para os dons espirituais, como tantas espalhadas pelo Brasil, quase todas importadas dos Estados Unidos ou de influências estrangeiras; também de forma diferente das congêneres, não buscava prioritariamente a salvação de pecadores e sim a união de todos os salvos, descontentes com os rumos das próprias seitas ou religiões, como optavam chama-las.
As grandes novidades apresentadas pela nova Igreja empolgaram o universo evangélico brasileiro que para ela migrava em massa, a causar sérias preocupações nas lideranças daquelas que se esvaziavam dia a dia, com males adversos dentre os quais, principalmente, a queda de rendimentos.
Quais seriam as novidades? Em princípio tudo o de melhor que existiam nas outras seitas, que estivesse em conformidade com preceitos bíblicos, assim como o “osculo santo” (Romanos 16:16 e referências) tomado de empréstimo da Cristã do (no) Brasil, devidamente adaptado: o beijo sagrado não era no rosto e sim na mão, com isso a evitar discriminações entre homens e mulheres.
A Santa Ceia era uma prática mensal, como nas outras denominações, todavia celebrada com pão ázimo (sem fermento) e suco natural de uva, antecedida pelo ritual do lava-pés.
O homem não podia usar cabelos compridos e os cortes não podiam ser arredondados na nuca, enquanto à mulher não era permitido corta-los; o homem não devia cobrir-se para orar, uma obrigatoriedade para as mulheres – uma prática também da Igreja Cristã no (do) Brasil.
O Batismo do Arrependimento – ritual de iniciação – só poderia ser realizado em rio de água corrente – frisavam –, sendo que apenas os adultos poderiam recebe-lo, salvo raras exceções de alguns púberes.
Aos iniciados – membros da seita – destina-se também o batismo no Espírito Santo, uma busca bastante incentivada, que consistia no indivíduo revestir-se do alto poder de Deus, isto é, estar apto para recebimento dos dons espirituais; quase que sem exceções, o Batismo no (com o – alguns assim preferem) Espírito Santo seria algo como elevado estado de êxtase individual, um tanto subjetivo, adquirido num momento de bastante fervor e incentivo na comunidade. Embora objetivos e recebimento sejam praticamente idênticos em todas as seitas, ainda é bastante comum que esse batismo e os dons depois manifestos, sejam aceitos como de origem divina apenas na comunidade de origem, e demoníacos quando de outras denominações – entre os evangélicos de seitas diferentes, tais situações já quase não existem, salvo se grupos rivais ou dissidentes, porém são fortes as discriminações e resistências aos católicos carismáticos, com intolerância sistemática, e nisto se unem os carismáticos aos crentes, quando se trata de fiéis espíritas, umbandistas, adeptos de cultos afros, orientais, nova era, gnósticos, etc, ainda que os fenômenos produzidos sejam iguais em todos aspectos e sentidos.
Outra grande novidade da Restauração, por certo a maior delas e que a distinguia por inteiro das demais seitas, era a crença que de seu meio haveria de se levantar as duas testemunhas bíblicas referidas em Apocalipse 11, que seriam mortas em Israel numa missão especial de evangelização e depois ressuscitariam, como o maior sinal precursor da segunda vinda de Jesus; as duas testemunhas já tinham nomes: Magno Simões – o Elias do século XX – e Elmir Guimarães Maia – um iluminado evangélico e político brasileiro, levantado por Deus como o João Batista dos tempos do fim.
Esse Elias, profeta do século XX pretendido por Magno, era inspirado em Willian Marrion Branhan, pregador norte americano morto em meados de 60, o que veio a facultar caminho para as aspirações do brasileiro. 
A Restauração muito mais que outras Igrejas, ousava interpretar textos bíblicos apocalípticos e demais, não menos obscuros ou jogados às contas dos mistérios divinos, muitos até hoje não satisfatoriamente esclarecidos, como os contidos nos livros de Daniel, Ezequiel e outros, mas que a nova seita esclarecia de maneira bastante convincente, numa prática mais associativa às tendências políticas da época, como por exemplo, o então Mercado Comum Europeu que nada mais seria que a restauração do antigo Império Romano (citação da estátua de Daniel, etc); a criação do Estado de Israel era outra evidência que Cristo haveria de retornar para a geração a partir de 1948 – um sinal a partir desse evento, e quando a figueira amaldiçoada por Jesus no mesmo ano recomeçara brotar, depois de quase dois mil anos seca, numa alusão às palavras de Jesus em segundo Mateus: “atentai para quando a figueira despontar seus brotos. . .”. A escatologia bíblica, para a Restauração, seria israelocêntrica e o enigmático 666 era o Papa católico, etc. 
Em 1969 a Restauração era o mais próspero núcleo pentencostal do Brasil, por isso mesmo perseguida e difamada por líderes cristãos de outras denominações, sendo Magno Simões o alvo maior dos ataques inimigos, não tardando ser ele acusado de problemas com Fisco – remessa ilegal de dinheiro para o exterior –, Polícia Federal – contrabando –, e Polícia do Estado – proteção a marginais e prostitutas, corrupções de menores, dono de jogos de azar e pontos de drogas. Aos crentes comuns, base piramidal da seita, tudo não passavam de acusações injustificadas cometidas contra um servo de Deus, conforme esclareciam os pastores locais que, talvez, também não acreditassem naquelas injúrias, calúnias e infâmias levantadas contra Magno; para os mais próximos à alta cúpula, líderes regionais ou de estados, o Profeta do Século XX estaria de fato sob suspeição mas não exatamente naquilo que o acusavam, e sim com o Exército ou, mais precisamente, o DOPS: o líder máximo teria fortes vínculos com militantes políticos de esquerda, considerados na época como comunistas, subversivos ou terroristas e, como tais, inimigos públicos número um do país [governo militar].
Mentiras ou verdades, o fato é que Magno Simões passou ser contestado em sua liderança eclesiástica, sendo Elmir Guimarães Maia, o João Batista, seu principal adversário; seja como for, Magno teve comprovado adultério cometido com a profetiza mor da seita, mulher casada, e de cuja união lhes foi gerado um filho já por nascer, sendo tal ato considerado pecado intolerável em se tratando de um homem da grandeza do líder. Magno recusou ser excluído da Igreja, ainda que provisoriamente, justificando seu crime como ordem divina, embasado em Oséias (1:2 e 3:1) onde o profeta teria sido supostamente ordenado por Deus, para cometimento de adultério. 
Em 1970 Magno Simões sai de circulação pública, e a Igreja perde sua unidade para transformar-se em duas grandes correntes antagônicas, os pró (maioria) e os contra Magno, sendo os a favor veiculadores da notícia de que o líder entrara num longo retiro espiritual, para então buscar de Deus um novo João Batista que viesse substituir Elmir, enquanto para os seguidores deste Magno fora retirado do Estado do Rio de Janeiro por familiares poderosos, para assim, estrategicamente, escapar de uma prisão iminente – fizera cirurgia plástica mudando a fisionomia, ganhara nova identidade, etc. – era procurado pela Justiça Militar, por supostas atividades políticas de esquerda.
Três meses após a cisão, o grupo de Elmir Guimarães Maia apresenta atestado de óbito de Magno, ocorrido no estado de Goiás, dando como causa morte “asfixia por estrangulamento mecânico” ou seja, suicídio; ao contrário daquilo que se poderia crer ou imaginar, os favoráveis a Magno não crendo em sua morte, e muito menos por suicídio, saíram com a máxima: “Deus o retirara da face da terra por uns tempos para depois retorna-lo glorioso e dar prosseguimento à obra levantada”, e apresentaram algumas observações, até que justificáveis, a comprovar como falso o atestado de óbito, impresso em documento já em desuso nas repartições públicas do Brasil. 
Falso o atestado ou não, Magno vivo ou morto não importa, a verdade é que a facção liderada por Elmir sofreu defecções, uma após outra, acabando quase por completo, às exceções de alguns grupelhos sem representatividades maiores. Por seu lado, durante quase dois anos o grupo pró Magno sustentou-se coeso porém fechado ao público, tipo sociedade secreta, sem acréscimos significativos em seus quadros, sempre a acreditar na volta triunfante do líder – dizem que Magno era mantido escondido entre eles, até que a polícia do governo militar explodiu o núcleo, prendeu líderes e liderados, sem contudo encontrar Magno, nisto talvez alguma evidência de que ele estivesse vivo. 
Em fins de 1972 o grupo pró Magno reiniciou atividades abertas ao público, com pregações salvacionistas, contudo sem as fantasias ou pretensões do Elias do Século XX em seu meio: Magno era caso encerrado; foi mais ou menos nesta época que os pais de Selhama ingressaram na seita, que ainda tinha, dentre todas seitas evangélicas, a mais belas das doutrinas bíblicas, e assim ainda continuaria por anos, até o surgimento das seitas neo-pentecostais, a exemplos das Igrejas Internacional da Graça de Deus e Universal do Reino de Deus, esta a principal representante do novo segmento. 
Não interessa-nos todavia polêmicas acerca de Magno Simões – hoje muitos informam-no realmente morto nos porões da ditadura pelas forças de repressão do governo militar –, nem os pontos de vistas teológicos, questões de interpretações bíblicas, pontos doutrinários de seitas reformistas, e menos ainda quanto ao mérito da existencialidade histórica ou não de Jesus Cristo, cabendo-nos tão somente esclarecer determinados pontos de uma seita na qual Selhama viria desenvolver seus dons de paranormalidade, alguns inatos outros adquiridos, exatamente naquilo que se refere aos dons espirituais, que a Igreja Obra da Restauração, mais que qualquer outra seita cristã no Brasil em todos os tempos, soube tão bem desenvolver e exigir práticas de seus fiéis. 
Nesse universo a menina Selhama iria viver por quase dez anos, razões pelas quais se fizeram necessários aqueles alguns esclarecimentos a respeito da seita, sem todavia, repetimos, aprofundamentos teológicos ou discussões de méritos quanto aos aspectos doutrinários e religiosos.

*Pesquisas do autor.


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