quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

UMA MENSAGEM NO IDIOMA LITUANO*

Uma fita 'cassete' gravada numa das reuniões do clube de senhoras, foi entregue ao Pastor Almir que atentou exatamente para a estranha língua que Selhama falara, percebendo uma sequência lógica nos palavreados e bem diferente das pronunciadas pelas demais irmãs de credo.
Almir gravou cópia apenas da parte proferida pela menina, entregando-a a um tal Reverendo Abel Amaral Camargo, de outra seita (Igreja Presbiteriana Renovada), Teólogo e conhecido especialista em línguas antigas, que detectou palavras em hebraico, entre tatebitates aparentes de algum outro idioma, possivelmente moderno, mas que ele Abel não conhecia; o hebraico consistia de palavras repetitivas do nome de Deus em diferentes situações ou momentos especiais, nada incomum a um exegeta bíblico, entretanto de difícil compreensão para uma criança de apenas nove anos de idade.
Selhama e os pais foram chamados para uma conversa reservada com Pastor Almir e líderes da Igreja, primeiro para saber onde a menina aprendera aquelas palavras hebraicas, e depois a advertência para que ela evitasse falar, em voz alta, línguas estranhas sem algum intérprete levantado por Deus para aquela finalidade. 
Um contrassenso que não passou desapercebido nem para Selhama, nem para seus pais, afinal, porque tantos e tantas crentes na Igreja falavam línguas estranhas, quase aos gritos, se não havia nenhum intérprete?
Não se sabe se por desafio ou alguma ordem íntima, daquele dia em diante Selhama não se calou mais, pondo-se a falar línguas estranhas em alto e bom som, em cultos ou reuniões de oração, praticamente numa mera repetição das palavras antes gravadas, o que despertou no Pastor Almir suspeita de que a garota houvesse decorado alguma mensagem do gênero captada de alguma emissora evangélica.
- Se é de Deus permanece, mas se é da carne ou do diabo, com certeza isso cessa – saiu o pai em defesa da filha, parafraseando Atos 5:38-39 – e de mais a mais não nos parece que tal falar tenha causado escândalo na Igreja, e o testemunho da menina é dos melhores.
Almir calou-se e Selhama deu continuidade ao novo dom adquirido. 
Algumas semanas depois, membros da Igreja – entre estes Selhama e os pais – viajaram para encontro de Igrejas da denominação, que seria realizado um monte, por três dias e três noites na presença de Deus; na segunda noite do congraçamento, para desespero de Almir e demais de sua Igreja, Selhama se pôs a falar aquela estranha língua perante todos, de nada a valer o toque do pai e beliscões da mãe para que a menina se calasse, antes ela retirou-se de seu lugar indo em direção a uma senhora que chorava desconsoladamente.
A menina tocou as costas da mulher, falando palavras estranhas porém de brandura, e por instantes puseram-se num rápido diálogo, incompreensível para os demais exceto para as duas que pareciam entender-se perfeitamente bem; e Selhama voltou calada para seu lugar deixando feliz uma mulher antes chorosa...Deus havia falado com ela, não tinha dúvidas e em altos brados glorificava o nome do Senhor, num português carregado a evidenciar uma estrangeira que ainda não perdera sotaques de sua língua materna, apesar dos longos anos de vivência no Brasil: - “irmãos, Deus falou comigo, Deus perdoou os meus pecados, aleluia meu Deus...”.
A mulher era de cidadania lituana, e as palavras que Selhama lhe falara era exatamente naquele idioma, uma mensagem de conforto e perdão que a pobre tanto necessitava, de um pecado terrível que cometera em sua juventude e ainda o trazia dentro de si, em segredo absoluto, a torturar-lhe a consciência, mas depois aquele diálogo tão íntimo e reconfortante, ela e Deus, através da menina, a incentiva-la – e precisava disto – uma vez revelado e perdoado seus pecados, contar para toda a Igreja reunida o que se passara com ela, em forma de comovente testemunho; ela e o marido, este um oficial de nacionalidade russa, trabalharam para o nazismo alemão durante a Segunda Guerra Mundial, como espiões e denunciante de judeus que viriam ser presos e depois mortos, muitos deles, em campos de concentração; seu esposo foi capturado e morto pelos russos, enquanto ela logrou fuga para o Brasil com nova identidade. 
Comparadas a gravação daquela noite com a fita anterior, os líderes da seita entenderam que apesar de ser a mesma língua falada, a ultima mensagem era muito mais longa e provavelmente completa, e alguém até mesmo sugeriu que durante meses Deus prepara Selhama para aquele momento tão especial. 

*O fenômeno constou de registros da Igreja Sede da Obra da Restauração - Bangu-RJ.


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