quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

UMA CLIENTE NADA HABITUAL*

A placa indicativa não deixava dúvidas tratar-se ali de um consultório médico: Dr. Z. Berlanga Mateus, o Dr. Mateus, como conhecido o profissional de saúde, moço novo e bem afeiçoado, que chegara ainda recente à cidade e já a desfrutar prestígio imenso, doutor 'prá lá de bom', cirurgião bem sucedido que ainda não perdera nenhum paciente; solteiro – dizia-se noivo, a provocar certo arrepio no mulherio e moçoilas casadoiras da região.
Os médicos mais antigos não viam Mateus assim com bons olhos: "este doutorzinho quer fazer a fama e depois (...); ele faz concorrência desleal; não sei não mas aquela cirurgia não me pareceu assim tão necessária; esse cara vai se estourar ou morrer de fome; porque ele não se emprega no SUDS? (atual SUS)".
Mateus não ignorava o que os colegas diziam dele, veladamente; não era tolo e bem sabia que, uma vez estabelecido na cidade seus clientes sairiam de alguém, e se enchiam-lhe as portas sem dúvidas outros consultórios estavam às moscas, vivendo os velhos mercenários da 'máfia de branco' - Mateus assim se referia aos médicos seus colegas concorrentes, às custas de antigos e tradicionais clientes, endinheirados evidentemente.
Não era nenhum mercenário da profissão e sim um bom vocacionado que amava a medicina mas não gostava de médicos arrogantes que se julgavam superiores a tudo e a todos, como senhores da vida e da morte. Voz corrente na cidade, Mateus fazia sempre bons acordos com seus clientes pobres e às vezes sequer cobrava pelos serviços, e que não se credenciara a nenhuma Instituição de Saúde do Governo simplesmente porque não acreditava no sistema, preferindo apenas fazer sua obrigação social posto que estudara em Escola Pública.
Nascido em 1960, na região de Campinas, S.P., seu pai era um religioso adepto ao maniqueísmo e se considerava espiritualista, embora na verdade um homem perdido entre fundamentos de religiosidades diversas do misticismo oriental, numa miscelânea bastante incompreensível de tantas idéias que não conseguia expressa-las convincente ao próximo, nem à própria família, tornando-se um incompreendido em seu próprio universo.
O homem desde cedo propusera-se restaurador das idéias de Maniqueu, e de tal forma gostava do Masdeísmo que veio dar ao seu único descendente o terrível nome Zoroastro (o mítico homem-deus persa, fundador daquela religião, da qual valera-se Maniqueu para algumas de suas idéias misturadas ao cristianismo, pelas quais inclusive veio a ser morto); para o pobre místico, a ultima religião verdadeira e correta havia sido a dos Cátaros, combatidos, perseguidos e mortos pelo catolicismo, e Marcion (teólogo do 1º. Século) seria o evangelista maior.
O pai do menino Zoroastro morreu precoce, sem conseguir levar adiante sua mensagem de fé. A mãe casou-se novamente, em segunda núpcias, para então o destino do garoto 'Zoró' sofrer profunda transformação: do Teólogo pretendido pelo pai foi estudar Ciências Médicas, sem livrar-se do nome que detestava, embora conhecido por Mateus; já no Cursinho Pré-Vestibular concomitante com o Colegial, ganhara o apelido ZBM - iniciais do nome e sobrenomes com pejorativo significado de 'Zona do Baixo Meretrício', que aliás preferia que ser chamado de Zoroastro ou simplesmente 'Zoró'.
Formado médico em 1986, ateu convicto, Mateus clinicou primeiro em sua cidade natal antes de escolher, no início de 1988, a mesma cidade em que Selhama morava, para montar consultório, sem ao menos imaginar que o acaso o colocaria justamente no caminho da então jovem sensitiva, para juntos viverem um dos maiores e estranhos dramas de amor e espiritualidade que a cidade conhecera.
E tudo começou na tarde daquele dia em que Elisa, mãe de Selhama, entrou em seu consultório para conversas preliminares com o doutor. A paciente seria sua filha, contudo antecedera-a a fim de dar ao médico informações do que efetivamente ocorria com sua menina, que por certo lhe omitiria detalhes ou motivos da consulta. 
Mateus já se acostumara com isto numa cidade típica do interior, onde certas coisas as jovens temiam ou não gostavam de falar, transas, menstruação, gravidez indesejada e escondida dos pais, mas que a mãe percebera, assuntos assim dos quais até sorria.
Elisa no entanto não lhe trazia nada disto, mas falava detalhadamente e sem parar de outras certas causas que Mateus jamais imaginara algum dia ouvisse em seu consultório; não interrompendo o que lhe dizia a mulher, vez ou outra balançava a cabeça pausadamente, como a concordar ou compreender aquilo tudo, bastante atento a todos mínimos detalhes como se nada quisesse perder daquela história, fantástica, de uma garota paranormal que convivia com certos estados fenomênicos psicológicos e de efeitos físicos, muito mais adequados não a um parapsicólogo e muito menos a algum religioso  - duvidava desses profissionais mercadores da fé e vendedores de ilusões, mas sim a um bom psiquiatra e depois, talvez psicoterapia de acompanhamento.
A mãe quase desesperada, percebia-se isto, continuava as arengas que pacientemente Mateus ouvia; se ele queria logo terminar tudo aquilo, não dava a mínima impressão, apenas a fazer algumas anotações, assim parecia, numa folha de receituário, talvez até rabiscando coisas à toa, desenhos infantis tão comuns a quem desinteressado de algum assunto que, por educação, não pode demonstra-lo. A verdade, porém era certa e Mateus sabia disto: ouvia sim a mulher mas seus pensamentos já estavam um tanto distantes dali, com vivas lembranças de um velho amigo dos tempos de cursinho e que juntos cursaram faculdade.
– Porque lembrava-se de Nivaldo?
Oras, porque Nivaldo gostava desses assuntos, dos chamados casos paranormais. Onde estaria, naquele momento, o amigo Nivaldo? Sabia-o em sua própria e distante cidade, vez ou outra conversavam por telefone, e ainda dois dias antes se falaram demoradamente à noite. Vida engraçada, eram tão unidos antes e agora ausentes, embora amigos como sempre foram, Nivaldo um filósofo, às vezes roubador de frases poéticas: – "distância é um lugar que não existe" dissera-lhe quando optaram por cidades diferentes, por não desejarem concorrências entre si.
– Mateus, família acontece, amigo a gente escolhe - e aí Nivaldo parecia original, por isso não eram irmãos, jamais se trataram assim, pois eram amigos, amigos de verdade, amigos para valer, com direitos a brigas sem ressentimentos.
Pensamentos ágeis, num instante Mateus lembrou-se de Marcinha, lá no quarto de pensão onde ele e Nivaldo dividiam despesas; naquela noite ela dera para os dois – "ôpa espera lá! um de cada vez, bem entendido, enquanto o outro estudava" - recordou-se.
Chutou para longe os pensamentos, Marcinha casada, médica, mas e Nivaldo, que diabos estaria a fazer agora? Formado, Nivaldo montara seu consultório para as bandas de Neves, no estado das Minas Gerais, onde médico ainda fazia falta, e lá foi ele cheio de sonhos e ilusões de se fazer na vida; reencontraram-se um ano depois, num desses congressos médicos numa cidade estação de águas, que tanto entusiasmavam recém formados.
– Mateus, minha primeira cliente não se mostrava nada grave, algumas pílulas - gostava de falar assim, e tudo resolvido, não voltou mais; um dia, meses depois, encontrei o marido dela na Agência dos Correios, por um dos acasos da vida, e eufórico perguntei-lhe pela patroa: – "ih! Seo doutô, coitadinha passô dessa para a mió". Vendo meu abatimento natural o caboclo acudiu de pronto: – "fique triste não seo dotô, pois com os remédinho que o sinhô deu, ela morreu bem miózinha viu?". Largarei da clinica geral para me especializar em Psiquiatria, em Belzonte - como ele se referia a Belo Horizonte, e vou deixar o interior mineiro muito logo.
– "Nivaldo bem merecia isto" - pensou Mateus desejando rir do amigo ausente, mas não podia; fez esforço tremendo para concentrar-se novamente em Dona Elisa, conversa já chegando ao fim, ela a sair com uns remedinhos 'amostra grátis', de uma consulta filada aproveitando ocasião: – "ah! Doutor e como eu estou?, umas dorzinha aqui outras alí".
– "Porra! se a filha me sair de encomenda como a mãe, tô ferrado patrioticamente, de verde e amarelo" - confessou para si em segredo, de maneira como Nivaldo sempre gostava de falar.
Quando a secretária trouxe-lhe a ficha da garota que logo entraria por aquela porta semi-aberta, Mateus continuava lembrar-se de Nivaldo nos tempos de sexto-anistas, justamente num velório em que se fizeram presentes - estavam de férias, lá no interior onde moravam os pais do amigo, cidadezinha que de tão pacata resolveram 'curtir velório'. Riu na alma ao recordar o colega com algumas doses a mais de conhaque, em esforços para manter equilíbrio, tocar a testa do falecido, benzer-se todo numa simulada oração, assim julgava, para em seguida dirigir pêsames à viúva: 
– Eu estimava muito o finado - Nivaldo parecia reverente - e se mal lhe pergunto dona, do que mesmo morreu o falecido? 
A desolada senhora respondeu que a causa fora pneumonia, e de pronto questionada pelo inconveniente interlocutor se a tal pneumonia er aa simples ou dupla, para receber informação de que era do tipo simples, e Nivaldo então emendar: 
– "Ainda bem dona, ainda bem, porque o foda mesmo é a dupla!"
Correu rapidamente os olhos na ficha de sua próxima cliente, como que a interessar-se pelos dados apanhados pela secretária, mas nada conseguia ler, os diabos das lembranças ainda lá no abençoado do velório, Nivaldo bastante popular – até era chamado de doutorzinho, numa rodada final de cachaça para espantar o frio do mês de julho, de repente tomou por empréstimo o quepe de um policial, correu um a um dos presentes para ajutório e mandar um moleque buscar pinga no boteco mais próximo, e todos colaboraram com tão oportuna iniciativa, até a viúva para depositar seu óbulo: 
– "Não, não dona, a senhora não, por favor... a senhora já colaborou com o 'de cujus', certo?
Nivaldo era mesmo assim, espirituoso, e todos o adoravam.
Entrou a cliente, Mateus realinhou idéias, surpreso ao ver diante de si não uma garota raquítica que imaginava ter uns quatorze para quinze anos, se tanto, pois ali se apresentava uma jovem de vinte anos, tão linda, tão cheia de vida que em absoluto poderia ser aquela ranheta de quem a pouco uma mãe aflita se referia.
Quis certificar-se e com atenção releu a ficha que a secretária lhe entregara: 
– Selhama Isabel Martinez de Larosa Salles, é isso? - Achara curioso o nome ou prenome fosse o que fosse, e somente agora o reparara - por favor, sente-se.
Novamente deparou com os olhos naquele nome Selhama, e pronto a dizer alguma coisa a respeito – "que nome hein!", com intenções de abrir conversa mais a vontade, quando a jovem interrompeu-o:
– É doutor, também seu nome também não é lá nada engraçado, não é mesmo? - e riu educadamente com certo ar zombeteiro. 
Mateus foi pego de chofre e novamente seus pensamentos voaram em direção a Nivaldo:   estavam residentes e dormiam ou descansavam em um adendo ao hospital escola, com outros colegas, no velho alojamento que carinhosamente chamavam de 'chiqueirinho', aguardando hora para o chamado de serviço, e nisto entrara um auxiliar de enfermagem, novato assim parecia, com voz delicada a chamar pelo Doutor Zoroastro, nome pronunciado com alguma dificuldade. Nivaldo não perdera tempo: – "Doutor Zoroastro do que meu filho!". Preocupado por não saber, o jovem auxiliar se desculpou e foi até a distante portaria, andares abaixo, certificar-se do sobrenome do doutor, enquanto no alojamento todos riam, pois onde caberiam dois Zoroastro num mesmo local, se até em todo mundo ocidental já não seria nada fácil? Retornou o jovem para, empertigado declarar Doutor Zoroastro Berlanga Mateus, e de novo Nivaldo: – "ah! é o Z.B.M porra!". Nivaldo adorava chama-lo assim.
Mateus voltou a ser o profissional compenetrado:
– Muito bem Selhama, vamos lá ... seu nome é mesmo?
E a jovem lhe satisfez a curiosidade explicando a razão do nome pela maldita pronuncia espanhola do avô materno, 'se llama', que o imbecil escrevente entendeu como nome Selhama; ambos riram simpaticamente do caso, porém ele recusou-se explicar a origem do seu, aliás nem tinha razão alguma para isso e Selhama muito menos lhe perguntara, tão somente dissera que não era lá nada engraçado.
Muito a vontade Selhama explicou com naturalidade ser apenas uma paranormal, com fenômenos de percepções extrassensoriais, sem tendências religiosas, uma pessoa clinica e psicologicamente normal, desde a infância capacitada em ver, ouvir e sentir o que outras pessoas não podiam, a exemplo de seus pais que a princípio confundiam aqueles atributos, a extrapolarem fantasias da infância, como possessões demoníacas, embora lhe dessem apoio e franqueza de total diálogo; todavia fora exorcizada e teve seus pretensos demônios expulsos por evangélicos, sem êxitos, levando-a contudo a uma adaptação melhor e mais bem compreendida de seus dons inatos e aquisições de outros, quando então aos olhos da uma seita cristã seus espíritos malignos se tornaram anjos de Deus; que embora pessoa capaz e de boa convivência com seus dons, para satisfações à família passara por psiquiatria, neurologia e psicologia, que jamais tiveram aceitas essa sua condição de paranormalidade, onde médicos e psicólogos, da Saúde Mental, insistiam ver nela desvio de comportamento ou alguma forma de desagregação personal.
Porque viera até o doutor? 
Nenhuma explicação por parte dela, talvez nem mesmo tivesse motivo algum, deixando Mateus numa posição incômoda – "como alguém paga consulta para relatar fantasias e nenhum mal, sabendo estar diante de um clínico geral e não um especialista?"
Mateus não acreditou absolutamente em nada das exposições da jovem ou da mãe, julgando-as fanáticas religiosas senão doidivanas quaisquer; quis perguntar objetivos reais pela procura, todavia, não sabia explicar, não era isso que a jovem esperava dele, entendendo-a querer alguma demora a mais naquela consulta, quem sabe para satisfação a familiares ou da mãe; e iria satisfaze-la, afinal ela pagara e não seria nada justo dispensa-la tão rapidamente, sem ao menos saber efetivamente um pouco mais a respeito do que a trouxera até ele.
A demonstrar interesses pelas fantasias até então apresentadas, Mateus optou ouvir mais e deixar a jovem falar de si, explicar sobre o que seriam os dons ou aquelas capacidades, estória impressionante de uma jovem que, aparentemente normal - a própria se dizia assim e ele nem a consultara ainda, que ali chegara apenas ou talvez pela vontade imperativa dos pais, que insistiam ver nela algum mal orgânico para loucuras.
Dr. Mateus concordava – tinha de examina-la evidentemente e solicitar exames complementares e/ou opiniões de especialistas, pois aparentemente ela nada tinha de anormal senão aquelas esquisitices de ouvir vozes, enxergar mortos em suas visões, receber certas premonições de casos inevitáveis e geralmente fatídicos, além de acreditar-se capaz de conversar com falecidos, fabricar fantasmas e dar-lhes formas como se estivessem vivos, mover objetos e outras citações de grandeza e poder da mente, algo fantástico para ele Mateus, descrente da veracidade daquilo tudo – "coisas de espiritistas malucos".
Na opinião de médico, Mateus entendia ali uma jovem atirada para os lados das fantasias e religiosidades, de mente criativa e, o pior, que acreditava real em seus estados psíquicos ou fenomênicos, conforme ela se referia; um quadro bastante sugestivo para o amigo Nivaldo.
Sorriu ter novamente o amigo tão próximo ou dentro de si, lembranças da vez quando ainda estudantes, num fim de semana, foram a um Terreiro de Culto Afro-brasileiro - achava que era mais ou menos isso, onde alguém, após faniquitos manifestara-se com tipo realmente diferente, de nome Capa, não lembrando se era Preta ou Negra, aliás nem sabia direito porque acompanhara o amigo até aquele lugar, enfiado numa das vilas mais pobres de São Carlos.
– "Mas porque tanto pensar em Nivaldo?" - acreditava ser em função de Selhama e seus problemas parapsíquicos, um caso que o amigo adoraria ter em mãos; mais tarde ligaria para ele e dariam boas gargalhadas.
Alguma desagregação personal, desajustamento familiar, social ou mesmo psíquico,  que diabos teria Selhama?”
Não tinha mínima ideia daquilo que realmente se passava com a cliente e, pelo relatado até ali, nada a medicar senão algum controlado que ela não tardaria em pedir – 'o famoso recorte de nome ou cópia de receituário'. Quis perguntar de imediato os objetivos da consulta ou que medicamento ela desejava; não era dado a ratificações de receituários anteriores de outros profissionais, muito menos de sugerir certas drogas não referentes à sua especialidade, mas sem dúvidas tratava-se, no caso, de paciente viciada, sem doença senão alguma imaginada, por certo pessoa já corrida de outros médicos.
Teve pena da jovem, mulher sem personalidade a satisfazer vontades da mãe ou quem quer que seja, para consultar-se, ou antes, vir acompanhada a um consultório médico, afinal já tinha seus vinte anos de idade, mais um para se formar – "e veja no que meu Deus, em Psicologia e ainda os caras lhe fazem experimentos dessas doidices!"
Dar-lhe-ia o medicamento até de bom grado, desde que não contrariasse sua opinião de médico, bastando tão somente ela declinar o nome do preferido ou aquele em uso recente, afinal 'por qual razão aquela lenga lenga toda senão para isso? A mãe trouxera a filha até o consultório e a antecedera para falar das mesmas esquisitices que novamente ouvia
Pensamentos rápidos e confusos, quando Selhama interrompeu-o: 
– "Doutor, talvez minha mãe tenha recebido procuração de Santo Antônio ou alguma sugestão dele para me trazer aqui" - abaixou o tom de voz como se desejasse confiar algum segredo que ninguém mais pudesse ouvir – "... e olha, não arrependi nadinha" - sorriu maliciosamente a piscar um olho para o surpreso doutor. 
– "Será que ela leu meu pensamento?" - pensou para acreditar que não – "que besteira a minha!". 
Sem saber se por curiosidade ou desejo de estender conversa, pediu à cliente que lhe confiasse como sentia as aproximações ou aquelas espécies de contatos.
– "Taí uma coisa que não sei doutor, elas simplesmente me acontecem..."
– Acontecem como? - queria saber.
– Assim oh! - e Selhama baixou a cabeça colocando-a entre as mãos, para suspirar forte e em seguida sustar a respiração por instantes – "Assim doutor."
Mateus estava em guarda, não perdendo um só detalhe, e decepcionou-se com o espetáculo apresentado.
– Assim como Selhama?
A jovem levantou-se para despedidas, dando por encerrada a consulta – "Zangara-se com ele pela observação?" 
-Muito obrigada doutor, o senhor é um bom profissional, sem dúvidas; marcarei retorno com sua secretária, certo? Ah! - e bastante séria - o amigo médico em quem o senhor esteve pensando tanto até instantes atrás, acaba de falecer, vítima de um acidente. Sinto muito, até logo doutor Mateus" - e saiu apressada, como se arrependida com o que acabara de dizer.
Mateus quis manter-se indiferente, não valorizar a mensagem: – "Onde já se viu tamanha estupidez? Não é atoa que dizem que somente faz psicologia quem ainda não se encontrou na vida, e essa 'zinha', pelo jeito, está bem perdida e fodida até" - e quase mostrou a língua e fez caretas às costas da cliente, somente não o fazendo por sentir o olhar penetrante e observador da secretaria que entrara na sala: 
– Oi, pode mandar o próximo - voz um tanto vacilante, para em seguida resmungar – "Mas que 'sujeitinha' mais presunçosa e atrevida!; merda, até o que médico tem que aguentar?"
– O que o senhor disse doutor?
– Nada não - estava confuso - desculpe, mande entrar o próximo.
(...).
À noite chegou o recado que Dr. Mateus jamais imaginara ouvir: horas antes Nivaldo falecera, vítima de acidente automobilístico.


*O recado da morte - do médico, ex-diretor de serviço onde trabalhava o autor, amigo e confidente de Zoroastro.



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