quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

UM LUGAR PITORESCO ONDE TODOS SE CONHECIAM*

No ano 1748 o Conselho Ultramarino de Portugal, a serviço no Brasil Colônia, comunicou ao rei a existência de habitações numa certa região do Vale do Ribeira, com características de bairro rural, ocupadas por negros fugidos. 
Aquilo era um Quilombo, de acordo com a classificação dada, desde 1740, a "toda habitação de negros fugidos, que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados e nem se achem pilões nele", e a ordem de governo era, quando encontrado um, arrasá-lo e prender seus moradores, permitindo-se inclusive o extermínio, em caso de resistências. 
Todavia a tal localidade estava em área de conflito territorial, entre os reinos espanhol e português, face o Imaginário de Tordesilhas cujo divisor findava na Ilha do Meio em Cananéia, segundo a Espanha, ou em Laguna conforme exigia Portugal, assim aquela extensão uma espécie de terra de ninguém. 
A situação agravara-se desde a Provisão Régia portuguesa de 4 de janeiro de 1742, que desmembrou Laguna da Capitania de São Paulo, anexando-a ao Rio de Janeiro, sob protestos e ameaças do reino espanhol, que contava momentânea e circunstancialmente com a simpatia dos paulistas, sem dúvidas prejudicados com a dita disposição real lusitana. 
Dada situação, o Conselho Ultramarino requeria e aguardava ordens de Sua Majestade quanto ao assunto, ou seja, invadir o lugar, prender os moradores e devolvê-los aos legítimos donos ou, na impossibilidade de captura, então exterminá-los em maior número, escorraçando sobreviventes para outras bandas, destruindo-lhes os ranchos, plantações e fortalezas existentes.
Quando chegou a ordem de Portugal para tomar o Quilombo, não mais havia moradores por lá, pois já se sabiam descobertos desde que avistaram soldados portugueses nas imediações. Certamente os brancos foram informados daquela comunidade negra, pelos índios dispostos na região a serviço dos conquistadores. 
Dizem, assim, aquele lugar se formou primeiro com a presença de africanos que ousaram a liberdade por conta própria. Eram negros à força arrancados da África e postos diretamente mineradores nas águas do Apiaí e cabeceiras do Paranapanema, de onde fugiram para se instalar entre morros e montanhas, numa posição segura onde não eram vistos, porém tudo podiam observar.
Mas não se sabe desde quando a formação daquele reduto, talvez décadas em segurança, pela extensão dos roçados, das boas casas construídas, onze delas espalhadas em pequenas propriedades com aguadas, todas convergentes para um ponto central onde uma grande construção que servia, além da casa destinada ao líder, ao deposito comunitário destinado à guarda de materiais e instrumentos de trabalho, inclusive de mineração, além de estocagem de gêneros alimentícios, a significar organização político-social e econômica com regras estabelecidas. Outro grande cômodo agregado àquela construção destinava-se às reuniões e cultos.
Interiorizando-se pelas matarias próximas havia uma trilha que parecia indicar locais de mineração.
A descoberta de um lugar aparentemente próspero podia indicar riquezas, uma suspeita entendida real quando encontrados alguns caminhos abertos por entre as matarias, que bem podiam conduzir a áreas de minerações. Isto nunca ficou comprovado, talvez o quilombola apenas ensejasse conduzir os brancos, ávidos por riquezas, para outras direções que não em seu encalço, diante de algum possível ataque.
Com a expectativa de lucros os reinóis não destruíram nada dali, antes fizeram ocupar e cuidar o lugar, desde então cabeça de entrada e corredor de passagem para as possíveis zonas de minerações, oferecendo pouso, empório e sentinela avançada para os passantes que demandavam a região em busca de riquezas.
Logo se descobriu que não havia nenhum ouro por aquelas bandas que compensassem explorações significativas, mas por lá permaneceram os descendentes dos desbravadores, pequenos proprietários ruralistas, mamelucos na maioria, cafuzos e mulatos.
Talvez o lugarejo jamais tenha experimentado algum tipo progresso desde a chegada dos primeiros brancos, senão pela sua população estável. Sabe-se lá como, mas o fato é que em 1856 lhe foi dado distinção político-administrativa de município, muito mais pelo prestígio do antigo sesmeiro Domingos Pereira de Oliveira, que reservou aquele lugar para sua família desde 1847, quando vendeu suas outras terras, na região atual de Miracatu, ao francês Pierre Laragnoit, por um milhão de réis.
A primeira eleição ocorreu em 1858, quando eleitos os Vereadores e escolhido o primeiro prefeito, na verdade Intendente, assumido pelo primogênito de Domingos Pereira; aliás, a Câmara toda foi composta de cinco parentes do velho latifundiário e dois indicados seus.
Mais de um século depois, em 1964, a política local ainda continuava assim, parentes eleitos ou indicados que apontavam sucessores para o executivo, lado a lado com Vereadores que se reelegiam tantas vezes quanto a saúde e a vida lhes permitissem, substituídos sempre por familiares ou agregados à família, um continuísmo marasmado tanto, que o antigo vilarejo formado de um próspero Quilombo se mostra pequena cidade no Vale da Ribeira onde o progresso teimava não chegar.
Lá não tinha agência do Banco do Brasil nem a denominada seita Cristã no Brasil e, com isso também não havia médico – a igreja evangélica e a agência bancária eram amostragens de progresso inicial de algum lugar, pronta para algum profissional de saúde – e o povo vivia sem infraestrutura alguma, ausência quase total de saneamento básico, com as trágicas consequências de alto índice de mortalidade infantil e de mulheres. 
A localidade não oferecia nenhuma motivação para que seus jovens lá permanecessem, ou que novas famílias desejassem fixar-se; o município, imenso território, consistia muito mais em grandes propriedades improdutivas nas mãos de latifundiários, grileiros que se intitulavam donos de terras devolutas, pelas quais o Estado não se interessava ou as mantinha como reservas florestais. Agentes do governo nunca chegavam por ali.
De interesse para a economia local apenas uma fazenda produtiva e de porte, cujo proprietário associava-se aos chacareiros da periferia urbana, e aos pequenos proprietários de sítios incrustados entre morros e serras, para manter o comércio e quase que a vida local com geração de uns poucos empregos. 
O bazar era do 'Turco', a venda do 'Japonês', a padaria do 'Português', o bar do 'Nhô Pinga' – caboclo bom que sempre acompanhava o freguês em mais uma. O açougue, que funcionava somente nos fins de semana, pertencia à 'Viúva do Lago' – uma referência ao marido que morrera afogado numa lagoa da região e de quem herdara a propriedade, a custos tocada pelo filho mais velho que, nos dias normais, brigava com a atividade agropecuária de sustentação.
Mas a cidade tinha mais: a farmácia onde um prático, o 'Zé da Aguia' [a língua de todos se recusava pronunciar agulha], fazia às vezes de médico, dentista e, nas horas de folga quase sempre, mantinha a barbearia, lotada nos dias de sábado ou vésperas de datas santificadas, quando o padre vinha celebrar missa e promover a quermesse. 
O 'Zé da Aguia' também tinha o ofício de organizar e arbitrar partidas de futebol aos domingos, quando não chovia na véspera ou fizesse tempo feio no dia, e, para tantas atividades, o bom homem valia-se do auxílio da mulher, Sinhá Anna, única parteira dali, que de tão benquista era madrinha obrigatória de quase todas crianças que nasciam por suas mãos. Com todo esse carisma, quase venerada, Sinhá Anna já conseguira fazer do marido três vezes prefeito do local.
Aliás, um antepassado de Sinhá foi o primeiro Prefeito eleito, quando o Distrito assumiu condições de Alcaidaria, e que indicou e fez eleger um tio, com o qual se revezou no poder duas vezes, até que um filho se fez maior e assumiu a Chefia do Executivo quando o tio, titular do cargo, morreu 'do coração'. A partir daí filho indica o pai que indica outro filho que indica o irmão, porque o pai havia falecido, chegando em certo tempo a vez de Sinhá que, por ser mulher, abriu mão da disputa em favor do marido, a entender ela que política era coisa de homem.
Sinhá Anna casara cedo e teve filhos, oito homens lhe nasceram, um deles chegou morto e outro Deus levou cedo, mas aqueles que vingaram, à medida que atingiam idade maior transformavam-se vereadores, nenhum deles a optar pela carreira de prefeito que era exclusividade do pai, que num mandato, no outro o filho mais velho do 'Espanhol' ou quem esse viesse indicar, e depois lá estava o 'Zé da Aguia' a virar 'Zé Prefeito' por mais quatro anos.
Naquele lugarejo, ninguém se interessava por política, isto estava mais no sangue da parteira para não deixar morrer o lugar, e o candidato indicado concorria sempre com oposição arranjada, para dar ares de democracia. No entanto, já de uns pleitos para o período de então, se podia observar ingratidões crescentes com o aumento daqueles que votavam contra, obviamente não identificados em razão do voto secreto, o que fazia a parteira desconfiar de todos e até de fraude eleitoral.
Homem rico dali apenas o 'Espanhol', Guido Lopez de Larosa, dono de razoável fazenda, onde fazia plantações, mantinha gado de corte e leiteiro, empregava gentes e incrementava o comércio. Fez os filhos e filhas estudarem na Capital, sendo a filha mais velha a primeira professora da única escola, depois duas sobrinhas para dividir a labuta e a filha ser diretora do Grupo Escolar, até que o filho mais novo foi eleito prefeito e conseguiu trazer curso ginasial e novos professores. 
O filho do 'Espanhol' que foi eleito prefeito arrumou depois emprego no governo do estado e foi embora, para a capital, por achar que por ali não havia mais nada a fazer.
Ainda tinha o velho doutor Genivaldo a fazer às vezes de Delegado de Polícia, sem ser doutor, auxiliados por dois praças preguiçosos, os três muito amigos de todos dali, conselheiros de poucos velhos bêbados amargurados, ou de alguns jovens cansados do trabalho do dia que aliavam-se àqueles que nada tinham a fazer, para certas discussões de vantagens, às vezes pequenas brigas entre si, quando não unidos em cantarolas apaixonadas pelas poucas ruas da cidade, com alguns motivos de reclamações dos que preferiam dormir cedo.
Não se conheciam viados, talvez um ou dois enrustidos que a família fez bota-fora, pois a cidade não era dada a essas coisas de 'florzinhas', e para isto existia a zona, precária e de mulheres amarguradas, mas suficiente para a iniciação dos solteiros machos e escapulidas de casados mal resolvidos, ou 'zoneiros' juramentados.
O lugarejo estava assim quando, em 1954, chegaram alguns novos japoneses assomando-se aos já existentes desde as primeiras levas migratórias, com seus hortifrutigranjeiros, lavouras de ocasião, plantações de chá e de novidades como as culturas de brotos de feijão e bambu, coisas daqueles japoneses que até cultivaram flores num lugar antes esquecido por Deus, para dois anos depois surgirem os primeiros resultados progressistas da região.
Todavia, o real progresso urbano surgiu apenas em 1958, quando descobriu-se a riqueza do calcário nos solos do município, e uma indústria da capital resolvera instalar-se por ali. Foi uma correria, a cidade logo a fervilhar de gentes para construir prédios da empresa, casas para os novos habitantes, usina elétrica, escolas de secundário (clássico, normal e científico) e técnico em contabilidade. 
Desde então, com população crescente, novas demandas e exigências necessárias, a cidade viu-se invadida por bares, um clube noturno, dois bons mercados (em breve viria um super), pontes de concreto sobre os rios que cortam estradas oficiais, calçamento das ruas centrais, serviço municipal de abastecimento de água e rede de esgoto, uma verdadeira revolução, e ainda era pouco, pois que logo chegariam os doutores da empresa: administradores, advogados, engenheiros, técnicos, pelo menos um médico e equipe auxiliar – para isso já construíam um hospital – além dos novos soldados (policiais), um doutor delegado, e outros profissionais e agentes que, por certo, viriam no rastro e ânsia de fazer vida num lugar que prometia.
Era gosto o povo nativo, desconfiado, criticar os estranhos, como a temê-los ao mesmo tempo em que louvavam o progresso e até sonhavam com a instalação de pelo menos uma Faculdade, a vinda de Juiz e Promotor pra botar lei e ordem nas coisas.
Também chegariam instituições financeiras, Igrejas e quanto mais? 
Foi mais ou menos nessa época de euforia progressista, que o 'Espanhol Guido' vivia às voltas com problemas financeiros, avalista e fiador de seu filho e um cunhado metidos num empreendimento desastroso, que quase o leva à falência para honrar compromissos assumidos. Não perdera a fazenda mas já não ostentava mais a riqueza de outrora, tanto que sua filha temporã, concluído o ginasial, não mais iria para a capital prosseguir estudos, ficaria por ali mesmo, cursar escola normal pela manhã, contabilidade à noite, e depois de formada trabalhar e arrumar um bom casamento com algum graduado da empresa, vontade da moça e dos pais já quase velhos, ficando assim bem distante o sonho de um dia ela ser doutora Médica ou Professora Graduada. 
E assim começa uma história, a partir dessa filha do 'Espanhol', Elisa Martinez de Larosa, que deixou os sonhos de se fazer num centro maior para, em 1961, já formada e com curso de datilografia, empregar-se na Empresa pretendida, como Auxiliar de Escritório; moça bonita, graciosa, de boa família e inteligente, que caiu logo nas graças do Administrador Geral, Dr. Arnaldo Salles, que a promoveu a Secretária, iniciando um romance entre eles que terminaria em casamento três anos depois, 1964, quando a partir de então ela passou a viver apenas e tão somente para o lar.


*Descrições históricas aleatórias

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