quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

TRATAMENTO MÉDICO PSIQUIÁTRICO*

Mamãe leu meu diário esquecido num canto qualquer do quarto; desatenção a minha, poderia ser um outro volume mais comprometedor e aí as coisas poderiam complicar-se. Eu sei que ela sabe que este que lhe caiu às mãos é apenas um dos que escrevi, e ela sabe também que outros mais sérios existem, mas não me forçou entrega-los. Interessante uma mãe não censurar a filha e nem culpa-la por certas coisas, que não são lá nada normais... receber, mesmo que em fantasia mental um morto em seu quarto, e com ele manter uma espécie de diálogo e tê-lo como se namorado, é algo de arrepiar até mesmo um espírita convicto. Minha mãe no entanto preferiu responsabilizar-se, que ela não me deu atenções devidas, não procurou diálogos, não quis saber de minha vida, aquelas coisas todas de mãe falida quanto a educação de um filho; .coitada, me deu dó. Falou-me como que se desculpando, que quando ouvira conversas minhas naquela madrugada, teve a sensação de certeza que era Osmar quem estava comigo, e confidenciou chorando que espiara pelo buraco da fechadura e aquilo que julgara ter visto, e que no dia seguinte procurou vestígios porventura deixados no quarto, pois que se não era Osmar provavelmente seria um outro homem a quem eu recolhia, pela janela. Bolas, expliquei a ela que se tivesse algum namorado normal, humano, jamais esconderia dela e nem usaria de artifícios para encontra-lo e muito menos o acolheria em meu quarto, e com isso confidenciei-lhe que era realmente Osmar quem lá estivera, uma coisa estúpida, irreal mas que eu vivia, certamente uma coisa de minha cabeça, uma doença mental talvez. Choramos abraçada, e não sei se ela entendeu que apenas lhe contei meias verdades, que não lhe dissera o tudo que ocorria entre Osmar e eu. Não posso negar tratamento proposto, embora sei que nada irá adiantar e minha mãe não pensa lá muito diferente não. Uma coisa nós duas compreendemos e estamos de acordo: não é o Diabo e nada de Deus, que pode até ser coisa da minha cabeça, mas aqueles dois nada têm a ver com isso. Meu pai não pode saber e nem ninguém, minha mãe prefere assim; ela vai mentir ao papai que estou com problemas de cólicas, corrimentos, atrasos de menstruação. Pedi a ela para não enfeitar muito o pavão senão a casa poderia cair, pois que papai pode muito bem preocupar-se além do normal e querer acompanhamento mais próximo do caso. Que alternativas teria se não em concordar? A mentira parece presente sempre uma constante nesse nosso jogo”. - Trechos do Diário de Selhama, 12 de setembro de 1984. 

De setembro de 1984 à fevereiro de 1986, Selhama compareceu em média uma vez cada quinze dias junto ao Serviço de Saúde Mental do Estado, para tratamentos médico psiquiátrico de saúde e psicológico; interrompeu tratamento para continuidade com profissional próprio da Faculdade de Psicologia, onde estudaria aquele curso nos próximos quatro anos, pelo menos, a partir de 1986.
Consta no prontuário de atendimento de Selhama, que Elisa teve quatro entrevistas preliminares com o médico psiquiatra a respeito da filha, vindo ser dispensada a seguir.
Dos expedientes no Serviço de Saúde Mental, referentes a Selhama, constam informações que Selhama Isabel Martinez de Larosa Salles, marcou consulta com médico clínico geral da Unidade Básica de Saúde para o dia 16 de setembro de 1984; naqueles documentos verificam-se:
  1. Ficha clínica de atendimentos anteriores, neonatal e de doenças próprias da infância (paciente transferida de outro município do estado em março de 1968, no primeiro mês de vida); retornos secundários e esporádicos, em média uma vez ao ano até 1980, para controles, doenças próprias da infância, tratamento de gripes, solicitações de atestados médicos e duas requisições de exames laboratoriais – mãe apresentando queixas próprias para idade da filha; em julho de 80 consulta referente a relato da mãe sobre perturbações de sono apresentadas pela filha e confirmações desta, sendo-lhe ministradas tranquilizantes suaves – o caso não mereceu atenções maiores do médico consultante;
  2. Atendimentos posteriores na Unidade de Saúde, apontam irregularidade menstrual e medicação dada em setembro 1983, com retornos conforme agendamentos: novembro/83 e março/84;
  3. Passou pela Clinica Geral da Unidade aos 16/9/84, com a mãe solicitando (a rogo) encaminhamento da filha ao Serviço de Saúde Mental (Área de Psiquiatria e Psicologia); anotação médica sugere, pelas referencias das, quadro de aparente estado esquizofrênico, seguida de solicitações (requisições) de exames laboratoriais e encaminhamento à Neurologia (critério profissional do clínico geral);
  4. Retorno em 8/10/84: resultados normais de exames requeridos, sendo que o atendimento neurológico, laudo anexado, não determina distúrbio que exija cuidados próprios da especialidade ou recomendações outras; paciente então encaminhada à Psiquiatria;
  5. 15/10/84, constam dados de entrevistas da mãe e filha, com a Psicóloga da Área, separadamente, constando perguntas próprias exigidas, a exemplos de possíveis conflitos existentes em família, relacionamento psicossocial, distúrbios emocionais e observações outras julgadas porventura necessárias pela profissional;
  6. Em 19 de outubro do mesmo ano Selhama foi atendida, logo depois de sua mãe, pelo médico psiquiatra – outros três próximos atendimentos seriam da mesma forma, com perguntas em cima do relatório psicológico, sendo as respostas atuais confrontadas com anteriores; Elisa seria dispensada após quatro atendimentos; 
  7. A partir de 14/11/85, apenas Selhama seria atendida pelo Serviço com retornos agendados sempre ao final de cada consulta, até fevereiro de 1986, quando ela veio interromper tratamento, para prossegui-lo em próprios da Faculdade de Psicologia, a contar de 26 de março, na qualidade de cliente e aluna daquela Escola Superior – passara no ultimo vestibular em primeiro lugar – conforme anotação [desnecessária] em prontuário.
Sem críticas diretas àquele Serviço Público de Saúde Mental, algumas observações a respeito do tratamento de Selhama, fazem-se necessárias: 
  • Paciente com aparente quadro de distúrbio esquizofrênico, refere-se (...);
  • Das personagens circenses (aparições primárias): características de fantasias próprias da infância não facultadas à vida real;
  • Aparição imediata pós-morte [Osmar]: quadro sugere percepção psíquica não classificada, de provável origem mítico-religiosa;
  • Sequências de aparições irreais diversas: fantasias agravadas por aspectos emocionais diversos e de atitudes reativas de crenças manifesta – grifado irreais;
  • Das personificações: personalidade psicopática, dinâmica processo dissociativo sem contudo a desintegração de personalidade – escrito: psicótica, esquizofrênica a classificar?
  • Da paranormalidade pretendida, relatos: resposta difusa às frustrações possivelmente acumuladas por desajustes emocionais; paciente perceptiva a certas tendências de fantasias através de mente criativa para imposições pretendidas – anotação à lápis e em letras menores diz: paranormalidade, fantasia ou doença mental? (provável colocação da Psicóloga).
  • (...).
  • Distúrbios típicos de estados esquizofrênicos, paciente em processo curativo com necessidade psicoterapêutica de ajuda.
Selhama deixa de ser atendida pelo médico psiquiatra da Unidade, aos 25 de abril de 1985, doravante identificando-se apenas passagens de rotina pela psicóloga, com anotações vagas e próprias de profissional desinteressada pelo assunto, talvez descrente ou incapaz quanto aos propalados fenômenos da mente, sem atenções devidas às diversidades manifestas em Selhama.
A psicóloga, talvez por lealdade ao médico, manteve doença simulada para uma paciente sem noção do falso e do real, acrescendo timidamente que a criatividade imaginativa de Selhama transformava-se num mecanismo de defesa reativa ao meio, com devaneios próprios característicos de adolescentes, a compensar desajustes emocionais de frustrações acumuladas. Selhama, nesse caso, estaria classificada apenas como doente mental com clara tendência de identificação para doente imaginária, ainda assim todavia uma doente e, como tal, indevidamente cuidada e sem resolutividades.
Impossível saber se Selhama iniciou tratamento psiquiátrico realmente doente, estando a enquadrar-se em uma ou mais das classificações de estados esquizofrênicos; parece, de primeiro plano, que não, tudo a apontar para certas desatenções ou descasos profissionais e que ela, como paciente com relatos de paranormalidades – era impossível alguém desconhece-la nessa situação na cidade – deveria de pronto ser encaminhada para algum outro profissional, psiquiatra que fosse, porém versado em Parapsicologia – esta infelizmente uma ciência não aceita pela ortodoxia médica psiquiátrica.
Em referido período de tratamento, na verdade mero acompanhamento de caso, um fato chama a atenção: Selhama sabia minimizar ocorrências, isto é, ocultar profundidade de suas verdades ou acontecimentos, àqueles que de fato poderiam auxilia-la no processo de cura, talvez numa provável ausência de confiabilidade aos profissionais da Área, a temer estigma e ser chamada ou identificada como louca ou, ainda, que viesse ser encaminhada para alguma clínica especializada de tratamento psiquiátrico; essas ocultações de verdades parecem tão bem persuasivas que passaram desapercebidas, aparentemente, pelos profissionais de saúde que dela cuidaram.
Selhama esteve em tratamento de 1984 à 1986, porém seu histórico de acontecimentos, propositadamente, refere-se de 1972 a 1982, ou seja de seus quatro aos doze anos de idade – morte e aparição de Osmar até a data ultima registrada em seu diário encontrado pela mãe.
Os profissionais de saúde não observaram porventura isto?
Com certeza sim, mas o desinteresse sempre foi marca maior registrada do Serviço Público de Saúde.

*Prontuário Técnico arquivado em Unidade Básica de Saúde do Estado de São Paulo.






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