quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

SELHAMA E MATEUS – OS MISTÉRIOS DA VIDA*

Na estrada, o carro dirigido por  Mateus excedia limites permitidos de velocidade, mas tinha pressa em chegar, abraçar sua amada, contar-lhe as novidades e a solução dos mistérios: 
– “Selhama, minha pobre Selhama, o que fizeram com você?”.
Fez a curva da estrada um tanto perigosamente e acelerou mais forte ainda, e de maneira imprudente nem observou a sinalização de preferencial para a rodovia que o levaria à cidade, mais quatro quilômetro adiante, mas viu o caminhão que surgiu também veloz, engrenou marcha mais potente e sentiu o carro como que saltar para frente e continuou sua corrida, para logo mais estacionar o veículo bem defronte a casa de Selhama, não observando nenhuma agitação na vizinhança, e dona Celestina, moradora ao lado, até o saudou sorridente.
Pulou o pequeno muro, sem se lembrar como saíra do carro ou se trancara a porta; sorriu, não tinha motivos para preocupações e nem pressa, tudo estava tranqüilo; a porta lateral da casa encontrava-se aberta, o quarto de Selhama fechado, chamou-a pelo nome uma, duas, três e mais vezes, sem respostas, tentou o trinco alguma coisa estava errada não conseguiu gira-lo, não sabia explicar e nem tinha tempo, agora agitado, tentou bater à porta mas não sentiu contato algum, nem som nem ruído, afastou-se para uma distância julgada suficiente para por a porta abaixo, e isto poderia ser uma loucura, Selhama poderia ter saído, bastava-lhe perguntar à Celestina.
No exato momento do choque de seu corpo com a resistência da porta, esta cedeu numa rápida abertura como se ele a atravessasse antes, mas já não conseguia mais reter o corpo: “porra, ela estava dormindo...“ mas não conseguiu concluir pensamento caindo ao chão quase de quatro, joelhos e mãos sobre o assoalho, sentiu roçar-lhe os cabelos, sorriu, era Selhama naquele seu jeito de acaricia-lo, um vai e vem gostoso em sua cabeça, fechou os olhos para absorver melhor aquele contato, antes de surpreender com as suas as mãos de sua amada.
Gelou o corpo e girou rápido pelo chão, ao sentir que tocara os pés e não as mãos de Selhama, e olhou-a assustado, ela graciosamente a flutuar no ar – “estaria levitando? – Mateus pensou nisto e falou: – “caramba, você consegue mesmo?” – não tão alto que viesse perturba-la na concentração.
Gritou desesperadamente ao ver a corda em torno do pescoço dela, presa a um gancho forte fixado no forro, e correu para suspende-la como se pudesse com isso salva-la. Paralisou de repente ao perceber entre ele e o corpo suspenso de Selhama, havia outra pessoa:
- Meu Deus, é você mesmo cara? 
- Sou eu, não me reconhece mais? Seja forte cara, aqui já não há mais nada que você possa fazer.
Mateus fechou os olhos fortemente – “acho que estou ficando louco” – para depois abri-los arregaladamente com certeza de que já não veria mais nada daquilo; enganou-se, o corpo da jovem ainda continuava lá, a pessoa com quem falara também e, voltando os olhos à meia altura para a parede do fundo, enxergou um túnel, uma luz, e Selhama nele, em espírito, e Osmar, sim, tinha certeza que era Osmar, sorridente a lhe estender as mãos a ela relutante em partir e como a suplicar pela ajuda deles, Mateus e a pessoa que estava a seu lado, próximos ao corpo suspenso.
- Osmar seu maldito, você a matou – gritou a plenos pulmões pouco incomodando se algum vizinho o ouvisse, que por certo entenderia sua dor e desespero. 
O amigo presente bate-lhe às costas:
- Vamos Z.B.M., tudo acabou.
- Mas porque Nivaldo, porque?
E deixou-se conduzir.
...
Algumas pessoas já se encontravam no local, nada mesmo se podia fazer: esmagado entre ferragens retorcidas do veículo colhido por um caminhão de carga, o corpo esmagado do doutor Mateus.
Naquele momento, na Faculdade de Psicologia, Professor Andrada e seus companheiros lançavam os documentos e a pasta de Nivaldo no forno incinerador.
E no outro dia, lado a lado, dois caixões desciam numa única sepultura, e neles o corpo de Selhama e Mateus, enfim juntos.

*Informes pelo espírito do médico Mateus através de psicofonias e psicografias. O acidente do carro de Mateus com um caminhão no trevo foi registrado pela Delegacia de Polícia, com testemunhos do motorista e o acompanhante do caminhão envolvido. A vizinha da casa dos pais de Selhama confirmou ter visto Dr. Mateus chegando na residência da noiva, rápido porém sem o carro, perplexa depois em saber que isto teria ocorrido após a morte do médico.

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