quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

QUANDO, TALVEZ, TUDO TENHA COMEÇADO*

Crianças pequenas enxergar coisas que adultos não são capazes de ver, parece algo bastante normal: elas brincam, conversam, sorriem e até brigam, como diriam os adultos, sozinhas; no entanto, o que acontecera na manhã daquele dia com a filha, era algo que Arnaldo jamais esqueceria.
Da sala de estar onde lia o jornal, vez ou outra desvia o olhar para o quarto quase em frente, onde a filha, de três anos mais ou menos, brincava com suas bonecas e jogos de armar; sem dúvidas um raro momento bastante privilegiado para um adulto.
Já não via mais o jornal, apenas fingia temendo a filha surpreende-lo em observações e assim desfazer todo encanto daquela cena, tão inocente quanto bela; deste modo pode ver quando ela abandonou brinquedos e a boneca mais preferida para pôr-se mais ao lado, sentada sobre as pernas, mãos a apoiar o queixo, assim tão absorta a conversar sabe-se lá o que e com quem, mas uma conversa divertida certamente, pelos risos rápidos quase inaudíveis. Pelos trejeitos da pequena, podia-se entender que diante dela estariam pelo menos outras duas pessoas.
Ajeitou-se melhor à cadeira, empurrou o jornal, encheu uma xícara de café sorvido em goles pausados, acendeu um cigarro e puxou forte a fumaça, já inteiramente dedicado a olhar a filha sem ousar contudo interrompe-la: – “o que se passava pela mente da menina naquele instante?”; não sabia, mas estava delicioso vê-la em seu longo momento de atenção para o nada, talvez.
De repente a filha sorriu mais forte, pequena gargalhada de felicidade, bastante comum quando se vê ou ouve alguma coisa divertida; depois ela bateu palminhas como que para agradecer quem lhe dera alegrias, e até falou algumas palavras que infelizmente o pai não pode compreender; e enquanto a filha vivia seu mundo particular, os pensamentos dele também viajavam, para longe e até distante, regredindo no tempo, lembrando-se da própria infância, dos espetáculos de circos que não pode ver e dos que assistira, das matinês aos domingos no único cinema da cidade onde passaram filmes e mais filmes, entre tantos que assistira e os que não pode ver; voou para o estádio de futebol, campeonatos de várzea e amador, os campinhos onde batia suas peladas com amigos, as brincadeiras de infância, lembranças gostosas de coisas que se passaram, e assim por diante sem se fixar num ponto apenas, vez ou outra voltando ao tempo atual, homem adulto, pai de família trabalhador, a questionar naquele momento todos valores do pensamento que, tão de repente, levava-o de volta ao passado.
Na cozinha da casa, coincidentemente com aquilo tudo que imaginava, a esposa ensaiava letra e música de uma velha toada: “o pensamento parece uma coisa atoa, mas como é que a gente voa, num segundo a lembrar”.
Sorriu da adivinhação da mulher para logo em seguida repreender-se: – “estou qual criança deixando-me levar pela imaginação!” – e deduziu que efetivamente estava criança naqueles instantes, louco no desejo de se dirigir até onde estava a filha e entrar no seu mundo infantil; teve vergonha sem saber bem o porque, para assim permanecer onde estava: – “ah! essa bendita mania das crianças excluírem adultos de suas brincadeiras”.
Viu a filha novamente sorrir – “quantos minutos ela já estaria naquela posição?” – depois estender uma das mãos para o vazio, Arnaldo a atentar-se mais para a cena, aguçar os ouvidos, a menina a falar rápido porém alto e nítido o bastante para ele ouvir – “Me dá boneca” – e aprontar as mãos como que para receber o que pedira.
Assustado o pai coçou os olhos, corpo arrepiado e palavras sufocadas pelos pensamentos velozes – “Porra meu, a boneca andou no ar cara!!!” – não quis acreditar, era extremamente difícil crer naquilo que presenciara:
- Filha, o que foi isso? 
- Nada, tô brincando pai.
- Pra quem você pediu a boneca?
- Ah! tô só brincando pai.
Insistiu interroga-la, com quem ela conversava, quem lhe dera a boneca ou. . .
Ágil a filha chegou até ele, bastante séria, olhando-o bem nos olhos:
- Eu tô brincando viu? 
Carregou bem suas palavras de maneira incisiva, antes de voltar onde brincava; Arnaldo confuso, sentindo autoridade nas palavras da filha, ainda pareceu ouvi-la dizer a alguém: – “pronto, agora ele não enche mais a gente”.
Rápido chegou-se à mulher para uma conversa a respeito do que vira e ouvira.
- Eu vi ela falar sozinha, eu vi ela pedir e a boneca sair do chão, andar no ar e chegar até os braços de Belinha.
A mulher não estava incrédula, percebia-se isto, no entanto preferiu brincar um tanto nervosamente:
- Ah! querido você não viu e nem ouviu nada não.
- Claro que ouvi, vi e ouvi de novo, Elisa!
Rindo ela esclareceu – “são coisas de criança querido” – embora seu coração e a razão mais que tudo lhe dissesse que não; “conversar e rir sozinha ainda vá lá, até com gente grande às vezes acontece, agora boneca voar, isso é que não mesmo!”. Conversaria com a sogra ou com o Pastor da Igreja sobre isso. 
Sem entender bem o porque, por certo dado nervosismo de Arnaldo e apreensão de Elisa, o casal começou um bate boca bastante atoa, o suficiente porém para magoa-los e fazerem-se ouvir pela filha que chegou até a porta: 
- Num brigue não, num vou fazê mais isso – voz cândida de uma criança que sabia muito bem porque os pais discutiam.
Pai e mãe abraçam a filha e pedem desculpas a ela. 
Em seu diário, Selhama escreveu um dia a respeito:
  • “(. . .). Minha mãe perguntou o que eu tinha visto naquele dia em que ela e papai brigaram, por volta de meus três anos de idade; “oras sei lá!”, menti para ela e ainda fiz uma crítica: “foram tantas brigas entre vocês que é difícil saber qual delas e muito menos aquilo que vi”. Mamãe ficou triste, pediu desculpas e que eu esquecesse todo esse assunto; melhor assim que eu falar de minhas coisas. Acho que ela já sabia que eu via coisas antes. Bem, eu sempre tive algumas visagens, aquele homem do circo que quando eu era criança vinha fazer graças e me divertir, e eu gostava muito dele, que se fazia de mágico, trapezista, malabarista e palhaço, o que eu mais gostava; ele era tudo para mim. Talvez ele tenha surgido quando eu tinha dois anos, quando meu pai me levou ao circo, mas eu não posso me lembrar disso, só sei por causa da foto de monoqulinho [negativo de foto visto com uma lente], e se que ele sempre esteve comigo depois, e acho que foi lá por volta de meus três anos que ele tenha aparecido pela primeira vez que eu lembro com certeza, e pode ser que foi nesse dia que papai e mamãe brigaram; tinha mais gente mas não sei quanto, eram outras crianças, meninos e meninas, todos da minha idade, eu acho, algumas que já via antes e que brincavam comigo. Ainda hoje quando esto nervosa ou quero dormir e nada de sono que não vem, eu penso no palhaço do circo, seu nome era Pitiolino e foi ele quem falou esse nome, e posso ver Pitiolino sempre que eu quero, ele com aquela mesma roupa toda colorida, o palco iluminado por luz forte, seu jeito e tudo aquilo que é de circo, até que acalmo ou durmo contente. O Pitiolino é criação da minha cabeça e as crianças também, foi o doutor que disse, mas ele é tão vivo que até converso com ele e que até acho ele seja real, e tenho certeza que foi ele quem pegou a boneca para mim naquele dia, porque foi para ele que eu pedi, e foi ele que pegou e trouxe, fingindo antes que ia levar minha Nani [a boneca] com ele, mas eu sabia que não ia. (. . .). Porque eu bronqueei com papai? Bolas, porque eu já sabia que ele não enxergava aquilo, e se eu contasse ia chover um punhado de perguntas e broncas que eu não estava nada a fim mesmo. (. . .)”  - Trechos do Diário de Selhama, 14 de julho de 1980. 
Os pais nada conversaram com terceiros sobre o assunto, nem com o Pastor nem com ninguém da família, todavia passaram observar mais de perto a menina em suas brincadeiras, contudo sem acontecimento algum que ao menos pudesse lembrar aquele ocorrido. 

*Declarações de família e relatos em Diário.

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