quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

OUTROS QUESTIONAMENTOS PARA O MÉDICO MATEUS*

Numa sexta feira à tarde, após realizar uma cirurgia, Mateus dirigiu-se ao laboratório anexo ao Hospital para pegar resultado do exame de Selhama, por ele requisitado, porém já ciente que o resultado seria apenas confirmação dos anteriores, o que o exasperava.
Em casa lia e relia aqueles exames de Selhama, realizados em três laboratórios diferentes, comparando-os como se desejasse encontrar algum detalhe diferencial em resultados tão iguais, sem nenhuma elucidação diante de evidência tão clara que, no entanto, contrariava a razão.
Releu os expedientes médicos de Selhama obtidos na Repartição Pública que não lhe davam soluções, porém na esperança que em algum lugar, nalgum detalhe quem sabe, pudesse encontrar a chave do mistério exaustivamente procurado, e assim recapitulava o seu saber até ali: Selhama de alguma maneira, contrariando tudo quanto lógicas, mantinha relações sexuais com um morto, ou um espírito, algo que poderia ser encarado normal para uma mente insana e dada a fantasias, todavia essa relação deixava vestígios e estes não eram nada fantasias, pois que ali estavam devidamente comprovados exames laboratoriais, de empresas distintas, com resultados idênticos.
Novamente voltou aos relatórios do médico psiquiatra e da psicóloga: Selhama não tinha confiança nesses profissionais, tanto que não lhes revelara os problemas maiores, a seu juízo, ou seja, aquelas conjunções carnais, embora estas somente viesse ocorrer depois, no entanto já havia aquela espécie de namoro, fase preliminar onde ela se relacionava com um falecido – seria isso? 
Irritava-o saber que mesmo os professores experimentadores, que trabalhavam no caso Selhama, não tinham conhecimentos daquilo que efetivamente se passava com ela, segundo a própria envolvida, o que poderia até não ser positivamente a verdade.
Pouco antes de adormecer já tinha decisão tomada, difícil em razão o código de ética, que mesmo assim não o deteria, resoluto em conversar com todos experimentadores e analistas da jovem, expor-lhes o que sabia e exigir informações, sem que a própria interessada viesse saber, já não ciente mais se estaria apegado a ela por interesses, que não profissionais; e assim dormiu justificando-se num ato mais de amizade ou gesto de solidariedade a uma pessoa necessitada.
Os sonhos lhe foram terríveis:
Tão logo pegara no sono, e naqueles sonhos se via numa tremenda luta contra uma pessoa na qual identificava-se exatamente Osmar, um imortal que desejava levar Selhama para o seu mundo sombrio; e a batalha entre eles travava-se em lugares escorregadios, às vezes no interior de uma caverna, por outras entre catacumbas em ruínas à beira de precipícios mortais, aquela briga sem fim, Mateus sempre em desvantagem, a jovem a clamar por socorro, Osmar querendo arrasta-la à força por uma corda atada ao pescoço da vítima, faca ameaçadora numa das mãos e ela a bradar em desespero “não quero ir, não posso, me deixe em paz por favor, volte para o seu mundo”, Mateus de repente transportado para dentro do quarto de Selhama, ela num canto trêmula, Osmar a ofertar-lhe corda ou faca para suicídio, o meio dela estar junto dele para sempre; sente que a jovem vai ceder àquela loucura, e ele Mateus sente-se num estranho momento revestido de poder e de seu corpo saem fachos de luzes que brilham como o sol e ofusca Osmar naquele instante apenas um vampiro humano acuado, que cai por terra e clama piedade a Selhama e Mateus que aproxima-se com marreta e estaca na mão pronto para cravar no peito do adversário infernal e que tanto dissabores causara à jovem.
Acordou agitado, suor frio abundante, o telefone insistindo no chamado, atende, é Selhama do outro lado da linha, assustada e voz trêmula a chamar por ele; estava só, os pais viajaram e ela estava só, tomada de pânico após uma terrível discussão e rompimento com Osmar.
Mateus chegou rápido para logo ouvir de Selhama um estranho relato de acontecimentos: Osmar surgira-lhe agressivo querendo leva-la para seu mundo, o que para ela significava morrer, e ela amava a vida, não queria partir, havendo discussões e brigas entre eles, o quarto todo revirado, banqueta quebrada, objetos espatifados ao chão, uma faca e uma corda sobre a cama, o primo a induzir-lhe suicídio, a presença surgida de Mateus a atracar-se com Osmar, a aura de repente resplandecente do médico, a ofuscação causada em Osmar que cai por terra em gritos e a pedir clemência, jurando ir embora para nunca mais voltar, ela determinando então a partida dele que se vai, para sempre.
- Mateus, Osmar se foi e me sinto liberta.
O médico deu a Selhama um calmante que trouxera e também tomou um – não era dado a isso, mas a circunstância exigia-lhe – e instantes depois estavam deitados na cada, lado a lado, ele contando o sonho, ela a sorrir, ambos ainda com tempo para desvencilharem-se das roupas, um ao outro com carinho, envolvidos num sentimento de desejo e posse para amarem-se com intensidade até a chegada do sono profundo.
Fora a primeira vez para eles e foi bom, adormecendo felizes, com sorrisos estampados no rosto, não tinham compromissos sérios para o dia seguinte, apenas ele deveria visitar seus pacientes internados, coisas de rotina na vida de um médico.
Acordaram tarde, uma ducha quente a incita-los novamente para o amor, desta vez com mais consciência e juras de amor; meses depois já planejavam casamento, a família Larosa Salles satisfeita, Mateus feliz, Selhama realizada e curada, Osmar apenas cinzas de passado levadas pelo vento.
Ficariam noivos, após a formatura dela, quando escolheriam data para o casamento.  
Um ano depois do episódio, já noivos, Selhama era uma nova mulher; nunca mais tivera sonhos absurdos, visões ou quaisquer outros sintomas de paranormalidade, e Osmar não mais retornara a ela. Cessou seus experimentos na faculdade pois que nada mais tinha para produzir, parecendo todos aqueles seus fenômenos de antes, frutos de uma vida de contrastes entre o real e o abstrato, um universo já sem razões de existir.
Mateus não quis apressar o casamento e nem sua amada; já tinham praticamente vida em comum, apenas não residiam ainda sob o mesmo teto, uma bela casa em construção, e Selhama num curso de pós graduação do bom grado incentivado pelo noivo. Uma vida consciente de duas pessoas que se amavam e não tinham motivos para apressarem nada, pois que nada mais poderia demove-los dos propósitos de uma vida futura..        
 

*Mesma fonte dos capítulos anteriores.

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