quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

OUTRA VEZ OS DONS MANIFESTOS*

A fama de Selhama aborrecia a mãe que já vivera antes, então no meio evangélico, situação idêntica quando muitos procuravam sua filha em busca de soluções para problemas diversos; Elisa temia que líderes religiosos, bem ou mau intencionados, intentassem manipular os dons da jovem e endereça-los para proveitos próprios, com uma espécie de pressentimentos de que as coisas não iam assim tão bem. 
Não se importava da filha seguir essa ou aquela religião, ou mesmo que não viesse professar nenhuma; já se decepcionara muito com tais formas de servir a Deus, e para ela igreja ou religião, fosse o que fosse, nada mais era que execrável maneira de explorar a fé de incautos, vender ilusões, embora indiscutivelmente também tivesse seus altos valores, morais e sociais, como o de recuperar elementos antes perdidos para reintegra-los à sociedade, dar paz em certos lares ao lado de outras tantas virtudes. Todavia o lado explorador das seitas aborrecia-a, e muito mais por saber que sua filha estaria sendo usada com aqueles propósitos.
Elisa não se preocupava com os fenômenos apresentados pela filha, para ela uma pessoa especial que, por algum motivo, era possuidora de capacidades paranormais que já imaginou ser do diabo, de deus e da própria mente da filha, para ficar com essa ultima hipótese; recompensava-a saber que Selhama não era nenhuma fanática ou mística religiosa, a fazer tudo aquilo apenas por ser um dom ou possuir em si potencialidades mentais realizadoras de intentos. Temia no entanto que a jovem viesse engrandecer-se com seus poderes, ou ser induzida por pessoas a vir praticar atos exploratórios contra os necessitados, além de pensar tanto em possibilidades de erros que a filha viesse cometer e assim comprometer-se com a justiça, senão com a própria consciência por haver causado danos a terceiros inocentes. Existia ainda, nas expectativas de Elisa, como mãe, que a menina pudesse valer um dia seus dons para o lado errado, ciente que se ela era capaz de praticar boas ações com notáveis sucessos, nada a impediria de endereçar as mesmas forças para o mau.
Os comentários que diziam a respeito da filha, críticas e louvores, quase não a preocupava: – “ faça melhor quem puder e venha consertar o errado”; nisto comungava identicamente Arnaldo, que até sentia-se envaidecido de ver a filha sempre na 'berlinda', a rir gostosamente quando católicos e evangélicos, em programas radiofônicos e cultos próprios denegriam a imagem dela: – “esses palhaços fazem propaganda gratuita com essas críticas que ainda mais incentivam fiéis procura-la”. Dos evangélicos Arnaldo ainda era mais crítico: – “tiveram-na em suas mãos e não souberam cuidar de tão precioso tesouro”. 
Para Arnaldo, também os feitos de Selhama nada tinham de espirituais, a considerar o povo extremamente crédulo em certas fantasias; em sua visão, a filha possuía muito mais fama que os próprios feitos recomendavam: – “se alguém diz ser capaz e muitos acreditarem nisso, sem dúvidas as coisas acontecem para os que crêem”. Portanto, aparentemente, o pai parecia não se importar com o que a filha fazia e nem com os cultos que ela freqüentava: – “se ela é capaz daquilo que não sou, que então seja”, e assim apenas procurava orienta-la para certos cuidados, como não extrapolar limites do bom senso e muito ferir regras sociais recomendadas e tidas legais.
Marido e mulher certamente desconheciam que a filha tivesse um lado oculto dentro de sua paranormalidade, ou seja, certos vínculos com espíritos sobretudo o pressuposto de Osmar; mas Selhama tinha esse lado secreto ainda desde pequenina e jamais o perdera, sendo que o primo Osmar sempre lhe fora uma constante presença.
Também Walter e Diva, na qualidade de líderes espirituais de grupos, desconheciam a jovem sensitiva interligada efetivamente ao mundo espiritual, desconfiavam até, mas muito mais pela próprias razões de crenças expressas nas palavras do advogado: – “não creio na existência da paranormalidade sem o concurso de espíritos, e para mim Parapsicologia é invenção de católicos para conter o avanço do espiritismo”; outro ponto em comum entre os dois, era que ambos desejavam-na com exclusividade para o próprio meio, assim como outras religiões também se interessavam pela sensitiva, um claro sinônimo de entrada garantida de recursos financeiros. Da mesma forma, Diva e Walter sabiam que Selhama constituía-se num problema de difícil solução, ora por não definir-se a um único credo, ora por não sujeitar-se às doutrinas e regras de espiritualidade, num ambiente onde era preciso crer e fazer crer num mundo espiritual, para manter fiéis, sob penas de esforços em vão, não sendo em nada precipitado afirmar que os dois tinham acordos, talvez tácitos, quanto a Selhama, sabendo certamente que um dia a perderiam. 
Em mais ou menos dois anos de atividades paranormais, no Terreiro de Diva e no Centro de Walter, a fama de Selhama, como era de se esperar, veio ultrapassar fronteiras do município, e caravanas vinham em busca de milagres ou apenas para apreciar maravilhas; alguns políticos, comerciantes ou mesmo religiosos, já pensavam explorar o fenômeno apresentado, enquanto crianças e adultos pobres da cidade, vendiam vagas nas filas para os que vinham de longe, e os que viviam da economia informal prosperavam com o comércio de lembrancinhas, bentinhos, lanches e cadeiras para aqueles que se sentiam cansados de longas esperas.
São inúmeros os testemunhos quanto aos feitos de Selhama, desde os que passaram rapidamente por ela para apenas simples saudações e palavras de conforto, quanto aos que receberam revelações marcantes e aqueles demais com soluções imediatas consideradas milagrosas – estes certamente em menor número, o suficiente porém para propagar ainda mais a fama da jovem. Todos são unânimes em afirmar que encontrar-se diante da jovem já era uma grande recompensa, da mesma maneira que quase todos testificam que alguma coisa estranha lhes aconteceram, um choque suave, arrepios e outras sensações, algumas de êxtases e muitos a manifestarem fenômenos entre os quais o de incorporações em maior número.
Às vezes, parentes ou amigos de enfermos internados ou impossibilitados de locomoverem-se, por ordem médica, levavam roupas destes até Selhama (ao Centro); em alguns dos casos, existem relatos em livros próprios do Centro e duas declarações de próprio punho e firmas reconhecidas de curados, que afirmam haver recebido a presença da jovem em seus quartos para o processo curativo. A sensitiva, ao receber roupas para algum tipo de trabalho do gênero, solicitava sempre da pessoa presente o máximo de informações e dados possíveis, como endereço, tipo do quarto, situação do doente, detalhes da casa e ambiente onde aquele se encontrava, além de pedir a quem lhe entregava as roupas ou pertences, que se dirigisse mentalmente até o local, e assim ela também viajava. Num caso único, doente relata que, ao ver Selhama, sente-se puxado por ela para fora do corpo, e juntos se dirigem até o Centro, com descrições bastante próximas do real físico e ambiente encontrado, onde então recebe orações e doutrinações; o caso ganha especial interesse, em razão de um vidente descrever, antes da declaração do doente, a presença deste juntamente com Selhama em espírito, seus traços fisionômicos, a doença manifesta e o processo de cura.
Todos testemunhos a respeito dos procedimentos de Selhama, evidente que são válidos todavia com ressalvas, sabendo-se de processos ambíguos e uma certa tendência natural de Credos em mascarar fracassos ou minimiza-los, da mesma forma que as pessoas que buscam bênçãos ou soluções de problemas, mesmo que para curas não alcançadas plenamente para os males físicos, chegando alguns a alegarem falta de fé ou não merecimento para a graça pretendida. 
É bastante evidente que Selhama empolgara-se com a nova e súbita fama, e autorizada pelos pais aceitou trabalhar – quase uma necessidade dada fluência do público – todas as noites no Centro de Walter, das dezoito às vinte e duas horas, às exceções das sextas feiras quando dava expedientes no Terreiro de Diva, onde atendia também aos sábados das quatorze às dezoito horas, para desespero dos membros da equipe de Walter, que desaprovavam em muito estas realizações da paranormal. Adeptos das duas casas alimentavam crises de ciúmes quanto aos direitos de exclusividade sobre a sensitiva; Diva apenas lamentava não haver tido antes a ideia de Walter em fazer Selhama trabalhar todas as noites, porém calava-se para inteligentemente manter o quinhão que lhe fora dado.
Apesar da pouca idade e de mais de duas horas diretas em atendimentos, Selhama não demonstrava cansaço físico algum, e em nada aquelas atividades interferiam em seu rendimento escolar – os pais autorizaram-na aos trabalhos, já que era um dom, desde que tirasse notas suficiente na escola e não viesse sentir prejuízos de saúde. Os líderes das equipes onde a jovem cooperava, para evitar desgastes desnecessários a todos e sobretudo ao talento, apenas permitiam que pessoas rapidamente passassem por ela, recebessem mensagens ou revelações, quando o caso, e de pronto encaminhadas para as entidades manifestas em médiuns presentes.
Selhama gostava e sabia conviver muito bem com a fama e aqueles que a assessoravam, assim bastante consciente que sempre cuidariam bem dela, e com zelos para que nada de mal lhe acontecesse.
Como não poderia deixar de ser, os pais de Selhama foram bastante criticados pelo consentimento para que a filha trabalhasse, alguns acreditando que a menina estava vítima inocente de exploradores inescrupulosos, não faltando aqueles que viam interesses econômicos e prosperidades das pessoas, inclusive da família, que cercavam-na; Arnaldo e Elisa realmente tornaram-se bem de vida, todavia não se pode afirmar com segurança absoluta que tenham tido participações lucrativas com as atividades da filha. Por outro lado, é mesmo de se estranhar que eles tão passivamente aceitassem que a filha, ainda menor, se envolvesse com tudo aquilo, sem ao menos um único registro de suas presenças em alguma das duas casas, tivesse ela o talento que tivesse; mas é intempestivo afirmar que eles tenham anuído a preço de ouro. 
Selhama jamais estivera alheia quanto às pretensões de exclusividades daqueles que a cercavam, e nunca ignorou que seus feitos eram cobrados de formas direta (pedidos de contribuições) ou indiretamente (aceitavam ofertas, algumas bastante generosas), ainda que não oficialmente obrigatórias; se não concordava com isso nunca manifestou essa contrariedade, pelo contrário, até gostava de receber presentes, e certamente não foi por motivos das cobranças e recebimentos, que em breve deixaria de exercer atividades paranormais nos Centro e Terreiro. 
Foi de repente que ela veio anunciar que não mais trabalharia; Walter de Diva esperavam por isso, mais dia ou menos dia que finalmente chegara, a tempo porém de se estruturarem para absorver o impacto. Dizem uns que a jovem se retirara para ingressar num outro grupo que lhe pagaria mais, outros que ela, muito mais que solução para as casas onde cooperava, era sempre um problema constante não se sujeitando às regras e com exigências cada vez maiores e difíceis de ser atendidas.
Diz ela haver recebido ordem interna determinado sua retirada, precisava de descanso e tempo para se preparar para o vestibular de 1985 – desejava ingressar na Universidade, Curso de Psicologia, onde Dr. Moacir era um dos diretores.
Dr. Walter acredita que a tal ordem dada fora estimulada pelo Dr. Moacir, mas que de qualquer maneira ela receberia ultimato para se decidir quanto a aceitar ou não as regras do Centro e viver essencialmente o espiritismo e suas leis, ou então retirar-se do grupo.
Uma outra questão não menos preponderante: Selhama iniciava um ritmo de trabalho nada interessante para o Centro, tais como revelações fatídicas de acidentes, mortes e situações congêneres, além de insistir em manter contatos maiores e particulares com clientes que passassem por ela, não admitindo nem mesmo um auxiliar presente, o que de certa forma tirava a vigilância e controle que exerciam sobre ela.
Trabalhou de 1982 a 1984, deixando atrás de si um amontoado de realizações comprovadas, nunca antes vistas em Centros ou Terreiros por nenhum daqueles que a conheceram, além de ser provável causadora dos surgimentos de verdadeiro comércio religioso em seu município, tanto daqueles que lhe eram a favor quanto dos contra; de apenas um Centro Espírita, quando iniciou atividades, a cidade já contava com outros três quando encerrou participações; de um único Terreiro conhecido e devidamente organizado, mais cinco deles surgiram, assim como oito seitas evangélicas pentecostais de diferentes denominações estabeleceram-se na localidade, vindo assim somar-se às outras três já existentes e consideradas mais ou menos tradicionais, isto sem contar o grande número de médiuns e sensitivos de “fundo de quintal” que resolveram por trabalhos próprios, mais voltados às mancias. Na opinião de analistas, tudo muito rápido para ser apenas um fenômeno social da época.
Walter sem dúvidas lamentou a saída da sensitiva, e a freqüência em seu Centro pouco tempo depois ficou restrita a velhos membros da confraria. Diva, talvez tenha sentido muito mais a decisão de Selhama – chegaram a romper amizade – todavia viria a falecer dias depois, num acidente automobilístico quando retornava de um trabalho de encruzilhada – dizem que tal trabalho seria para trazer Selhama de volta ao seu Terreiro.
Efetivamente, os propósitos de Selhama, com aval da família, estaria mesmo em ingressar na Universidade onde certamente seria bem vinda pelo Dr. Moacir – seu real incentivador, grande amigo, conselheiro e o único que parecia ter alguma ascendência sobre ela; a jovem tinha pretensão de ser analisada pelo doutor e equipe, ir para os Estados Unidos e fazer nome como paranormal que considerava ser, nos rastros de Uri Geller – sentia-se tão eficiente quanto ele e capaz de reproduzir os mesmos feitos além de outros que lhe eram peculiares.

*Das mesmas fontes citadas nos capítulos anteriores, acrescidos de informes secundários - diário de Selhama e registros em livros do Centro Espírita onde a jovem exerceu atividades paranormais.

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