quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

OUI-JA*

“Na casa de Silvana Guarido, num quarto de fundos e quase às escuras (portas e janelas fechadas, apenas uma luz fraca a iluminar o ambiente), eram mais ou menos dez horas da manhã. Numa mesa uma grande prancha de madeira, acho que eucatex, com abecedário em círculo, letras grandes entre quadrados, e logo abaixo números de um a dez num círculo menor; no centro da prancha um pequeno copo, tendo à sua esquerda as palavras SIM e NÃO. Sentaram-se à mesa Clarisse, Nanci, Felícia e Silvana, ficando eu e outras colegas sentadas num banco próximo. . .Julia, Eunice, Tieme (uma japonesinha), Marta e eu. Silvana tinha um bloco de papel e uma caneta às mãos, encarregada pelas perguntas ali anotadas e anotar respostas que seriam dadas. Nunca tinha visto aquilo antes, a tal de Oui-ja, e nem sabia direito como funcionava senão por informações das amigas. Clarisse, Nanci e Felicia puseram o dedo indicador em cima do copo que estava virado de cabeça para baixo; Silvana fez uma oração em voz alta, para depois perguntar se havia ali, entre nós, algum espírito que pudesse se manifestar, e o copinho  escorregou para a palavra SIM, e fiquei a imaginar se não tivesse nenhum por ali, será que o copinho  se deslizaria para o NÃO? – não sei”.
                                   - Diário de Selhama, 2 de maio de 1982 -
Desde pequena, por volta dos quatro anos de idade quando efetivamente detectadas, Selhama trazia em si aptidões inatas para paranormalidades, muito provavelmente surgidas anos antes mesmo de tais compreensões, por parte da família.
Quando das primeiras ocorrências surpreendentes, os pais naturalmente a levaram à Igreja julgando assim o melhor para a filha, e tal não poderia ser diferente, tanto pela compreensão da época quanto pelos quadros apresentados pela menina.
Ao crescer num ambiente místico às raias do fanatismo, a menina viria desenvolver, e assim naturalmente, certas tendências para o ocultismo, sem dúvidas a interessar-se pelos mistérios da vida, da morte e do além túmulo, pois que tivera vivência forte demais com o falecido primo Osmar, para que simplesmente alguma seita viesse apagar acontecimentos de sua memória; de fato o primo insistia aparecer-lhe em sonhos e visões, a despeito das expulsões promovidas pela Igreja, e assim também muito cedo viria descobrir o valor da mentira, até como causa de alívio de sofrimentos ante insistências de orações dos evangélicos e pressões dos pais, ao aceitar inteligentemente que aquelas coisas já não lhe eram mais inerentes, e crente algum seria capaz de arrancar-lhe verdades: o primo Osmar era uma realidade em sua vida, assim como as demais figuras que lhe surgiam.
Fantasias infantis ou não, ao lado de tantos adjetivos qualificativos para  fenômenos, talvez psicológicos, o fato era que Selhama tinha e acreditava que o primo lhe surgia verdadeiramente e com ela brincava, conversava e às vezes até mesmo brigavam por coisas poucas de crianças que ambos então seriam.
E não era somente Osmar, pois que tinha ainda o artista circense, figura sabe-se lá se criada mentalmente ou não mas que antecedera, em pelo menos um ano, a vinda de Osmar, posto que este ainda vivo e sabedor desse segredo dela; a própria criança lembra-se, sem muita certeza porém, que também antes do primo recebera outras visitações, como de uma senhora velha preta que aparecia-lhe, às vezes e de repente, sentada numa banqueta, e que sabia ser uma certa Dona Antonia, pessoa de cor já bastante idosa mas ainda viva na sua época de Selhama menina, que costumava vê-la sempre (gostava de visita-la com a mãe, para algum benzimento) ainda ao longe sentada, próxima à porta da cozinha, numa igual banqueta para tomar o sol da manhã, fumar ervas cheirosas misturadas com fumo num velho cachimbo, e meditar sabendo-se lá no que, com tal profundidade e olhos cerrados que mais parecia dormitar – e talvez o fizesse mesmo e até sonhasse, para em sonhos chegar até Selhama, menina de quem gostava e era gostada. Selhama acredita que a imagem da velha senhora causava-lhe grandes impressões, assim como suas palavras poucas e trôpegas mas de muito carinho e elogios, e isto certamente a fazia criar um quadro mental, onde a figura da negra causava-lhe piedade ao mesmo tempo que a sensação de sentir-se protegida.    
Depois de Osmar e quando já na Igreja Pentecostal, começou ter visões e recados de outras pessoas, sabidamente já falecidas, que se diziam amigas ou conhecidas da sua família – não ousava contar aos pais e muito menos ao pastor, para que não lhe viesse certas reprimendas e exorcismos em formas de orações disfarçadas, verdadeiras torturas com mãos fortes na cabeça que quase a afundavam terra adentro, supetões e chacoalhadas pelo corpo seguidos de gritos histéricos “sai demônio em nome de Jesus” e o bicho que tratasse logo de bater-se em retirada, pois senão a comédia não cessava.
Por volta dos oito anos, possível vida além túmulo seria para Selhama mais ou menos como na terra, de pessoas normais que conseguiam, de uma certa maneira, comunicar-se com o mundo terreno, não com todas as pessoas mas para algumas sim e, dentre essas sentia-se eleita, não compreendendo porém porque ela mesma não conseguia – pensava que não – atingir o lado deles quando assim bem o entendesse, sem a necessidade de morrer; não compreendia um céu ou inferno à maneira como a Igreja pregava, mas lhe era conveniente fazer o jogo.
Sempre tivera vontade de conversar com a mãe ou algum adulto que fosse a respeito de suas coisas, isto entre seus oito e dez anos de idade, todavia faltava-lhe inspirações para diálogo que poderia transformar-se, novamente, em pesadelos, e por isso mentia aos pais, pastor e oficiais da Igreja, quando estes lhe indagavam acerca das coisas que antes vivera, informando-os que nada mais daquilo persistia, sentindo-se ridícula por isso e com desejos de falar com alguém que nada lhe cessara, que tudo continuava como antes senão com intensidade até maior; era sua fase de religiosidades e insistências de viver mentiras.
Passou a ter dupla existência, uma para o mundo exterior naquilo que as pessoas esperavam dela, e outra inteiramente particular, voltada para si mesma e portanto muito mais sincera, sendo apenas dentro desse universo íntimo que podemos encontra-la na plenitude de realmente ser, então uma pessoa triste e bastante amargurada, que viria descobrir despertos alguns dons que a Igreja aceitava como de origem divina, mas que ela, criança, não poderia ainda manifesta-los; desde que iniciara freqüência no meio pentecostal, certos manifestos tidos como das visões, vozes internas ou mesmo do falar línguas, eram guardados para si, somente dando a revelar-se quando do processo de cura dos dois pequenos colegas, situações que a Igreja não poderia ignorar e muito menos reprimir, porque foram efeitos físicos testemunhados por pessoas fora do próprio meio.
Quando no congresso das Igrejas da denominação, do famoso encontro no monte, os feitos de Selhama soaram muito mais como desabafos e afrontas à sua comunidade que lá, diante de tantos outros grupos, estaria obrigada a calar-se sob penas de exposição ao ridículo, e então ela foi um sucesso por duas noites tão somente mas que a transformaram, num repente, talvez no maior fenômeno que aquela denominação evangélica teria em toda sua existência – até os dias atuais não se conhece em Igreja alguma fatos de igual natureza, devidamente comprovados, ocorridos com uma criança –  e as fotos que dela tiraram, assim como as fitas gravadas com suas mensagens, correram mundo para ganhar manchetes de jornais evangélicos até no exterior, como a menina usada por Deus”.
Famosa, Selhama optou pelo silêncio, talvez por sentir em si o peso da dualidade que vivia, das duas situações conflitantes – uma de Deus outra do Diabo – na visão da Igreja, e que ela não ousava expor; a morte do pastor Marcelino também parece haver contribuído em muito para seu isolamento maior, pois que sempre acreditou que o assassinato poderia ser evitado, desde que o pastor avisado a tempo, por certo a considerar-se culpada pelo ocorrido.
Os dissabores de seus contatos davam-se portanto ante a necessidade do silêncio, pois que mais gostaria era mesmo de falar a respeito, perguntar e tirar dúvidas; tornou-se pessoa bastante isolada e somente aos treze anos de idade viria escrever num diário toda sua realidade particular, sendo mais ou menos nessa mesma época que daria início de efetivas buscas de si mesma, com amigas de escola que se interessavam por mancias e que promoviam certas brincadeiras com o copinho falante – tipo Oui-já; já havia abandonado a seita.     
Duas colegas de classe, Tieme e Julia, perguntam-lhe se já ouvira falar a respeito do tal copinho falante.
- Vocês estão loucas? Claro que não!
Estava sendo sincera, jamais ouvira falar a respeito daquilo, e as amigas contaram-lhe então das proezas do copinho que, usado por algum espírito desencarnado, dava respostas às perguntas que lhe eram feitas, sobre qualquer assunto, de namorados às provas das escolas, das fofocas de quem estava saindo com quem, e assim por diante.
Achou estranho e chegou mesmo duvidar daquilo que lhe contavam, todavia sua curiosidade foi tanta que não resistiu ao honroso convite para a próxima sessão, aliás objetivo único das amigas encarregadas em convida-la; não era para conversar com ninguém sobre aquilo, e elas lhe avisariam quando seria o evento.
Jurou segredo total, ouviu histórias cabeludas reveladas pelo copinho – tudo a maior verdade conforme Tieme. “Se o tal copinho já havia falado dela, Selhama?”
- Ah! isso não sei não – Tieme parecia relutante numa dúvida que não deixava dúvidas que sim – acho que já sim, um negócio que você, ah! um troço esquisito, que você tem contato, eu acho que é isso, com o mundo de lá, o mundo deles, entendeu?
Selhama estava feliz, primeiro por já não se sentir a única metida com aqueles troços, depois que iria participar de uma reunião secreta – desejos de muitos – e onde espíritos viriam – não sabia como, mas que viriam conforme as colegas. – “Legal, acho que vou poder conversar com elas – imaginou.
O dia da sessão veio logo, embora para Selhama fosse o contrário, uma demora sem fim de tanta ansiedade manifesta; e ela chegou ressabiada, não sabendo direito como seria o funcionamento daquilo, mais intrigada quando percebeu o tal copinho dirigir-se ao SIM, indicando a presença de um espírito.  
- Quem está? É tia Vanessa? – voz emocionada de Silvana que esperava uma tal Vanessa, uma professora que dava-lhes dicas quanto as questões e resultados das provas escolares.
O copo foi para o NÃO.
- Então quem é?
E o copinho agora a deslizar-se rápido para as letras A L D E V I N O
- É você Aldevino? – Silvana perguntara antes mesmo que as letras se completassem.
- SIM – isto era fácil pensou Selhama que gostara mesmo foi de ver o copinho correr para lá e cá, nas letras do alfabeto, até formar um nome
Todas pareciam satisfeitas com a presença de Aldevino, e já tinham perguntas para o dito, mas foi Silvana quem usou da palavra para apresentar a nova colega do grupo, e então iniciar um tipo de diálogo.
- Você sabe quem está aqui? A colega que você mandou a gente convidar. . .
- SIM.
- Quer dizer alguma coisa a ela?
- S E J A B E N V I N D A
- Só isso?
- NÃO
- Tem mais coisa?
- SIM
- De namorado?
- SIM
- Você pode contar?
- NÃO
- Porque?
- E A M O R S E G R E D O
- Conta para gente vá!
- P R O I B I D O
Silvana voltou-se para Selhama:
- Conta pra gente esse amor segredo – e todas riram.
- Não sei o que isso está dizendo! – retrucou Selhama.
- S A B E S I M
- Do que? – interrogou Selhama.
- D O O S M. . .      
- Não, não quero ouvir nem ver – Selhama compreendeu que o copinho certamente iria escrever do Osmar, e nisto não estava nada interessada, era um segredo seu que não importava a ninguém.
Tão logo das palavras de Selhama, o copinho deu um giro rápido pela prancha, totalmente fora do controle daquelas que lhe impunham os dedos, para soletrar com incrível velocidade:
- D E S C U L P E T C H A U
Espatifou-se ao chão provocando susto geral em todas elas, ainda mais quando Eunice começou sacolejar o corpo, rosnar e parecer num terrível duelo corpóreo, querendo e não curvar-se, colocar as mãos para trás dedos em garras, visíveis esforços para pronunciar palavras que não conseguia, senão aquele som cavernoso vindo da garganta da jovem em desespero, acabando por cair ao chão em estertores como se algo a sufocasse, causando pavor em todas demais à exceção de Selhama.
- Ela está morrendo meu Deus!!! – voz trêmula de Silvana. 
- Não está não.
Frase segura de Selhama, uma sensação estranha sobretudo ao dirigir-se até Eunice para ordenar-lhe cessação daquilo e se por em pé – valera-lhe certamente sistema de ação da Igreja Pentecostal, acostumada lidar com aquele tipo de manifesto.
Como num passe de mágica a jovem obedeceu-lhe para de imediato voltar a si, normal mas sem nenhuma lembrança daquilo que apresentara.
- Não brinquem mais com essas coisas – sentenciou Selhama às atônitas colegas, antes de retirar-se.
À noite Selhama sentiu a presença – em clarividência – de seu primo Osmar: “Você fez legal, isso são coisas nossas”.
Somente então se deu conta de que provocara movimentos no copo sem nenhum contato físico com ele, que escapara inclusive dos dedos das colegas para correr letras e cair ao chão.

*Extraído do Diário de Selhama.


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