quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

EXPERIMENTOS PARALELOS EM SESSÕES MEDIÚNICAS*

A) Sessão Doméstica na residência de um dos participantes, sendo cinco médiuns kardecistas, dentre eles um professor universitário, membro da equipe de experimentos, e mais Selhama, ao derredor de uma mesa; na platéia oito pessoas convidadas: três professores da Faculdade de Psicologia, apenas um envolvido com os experimentos, dois amigos universitários de Selhama, e outros três convidados  - um médico, um engenheiro e um parapsicólogo, não vinculados à Faculdade e nem aos trabalhos da equipe. Os médiuns receberam papéis e alguns lápis. 
 Selhama não obteve incorporações, alegando não haver sentido nada durante a sessão; não conseguiu psicografar nenhuma mensagem, ainda que instigada, somente vindo escrever algumas palavras rápidas, resumidamente e com acerto, minutos antes que um dos médiuns viesse ser usado num assunto mais ou menos longo, próprio de religiosidades – ela não conhecia o médium, não sabia o assunto que aquele falaria (tomado de improviso) e nisto pergunta-se: telepatia estabelecida com o médium, com a entidade ou alguma ordem dada, consciente ou não, para que se pronunciasse aquela mensagem?
Mostraram à Selhama a foto de um conhecido artista plástico da cidade, já falecido, que costumeiramente participava de sessões espíritas naquele ambiente, desenhando quadros através de um médium da casa; a jovem tentou evoca-lo e conseguiu rabiscos diversos com representatividade de cruz, um cercado e aparência de uma casa pequenina, muito idênticos, quase xérox segundo testemunhas, do que rabiscara o professor médium apenas para matar o tempo ou aguardar resultados. e a sessão foi encerrada, não atingindo propósitos e com a certeza que Selhama se influenciava pelas pessoas presentes e não as do mundo espiritual.
B) No Centro Espírita Rosa de Shalom:Selhama, num Centro Espírita, com mesmo grupo de pessoas que participaram da sessão doméstica, e mais membros e assistência do núcleo religioso; ela parecia tensa quando apresentada aos membros da seita, com características neuro-vegetativas. Sentar-se-ia à mesa com demais médiuns da casa, ao lado de seu professor e membro da equipe de experimentos, tendo junto de si folhas de papel e lápis, para anotações que porventura viesse julga-las necessárias: relatos de visões, sensações obtidas,  psicografias e desenhos. Antes do início da sessão, numa sala à parte, Selhama declarou à equipe que a acompanhava, captações ou interferências telepáticas – acreditava que fosse isso, por parte de um dos membros do centro, que pensava muito forte num quadro/visão onde via um determinado espírito em bastante dificuldades, por incompreensão quanto ao fato de haver morrido acidentalmente, e classificado obsessor a conturbar a vida dela. Selhama informou que o médium estaria montando o quadro, com detalhes espirituais, para encaixa-lo nela, segundo  os moldes da doutrina, e que por isso ele já se informara a respeito dela. Porque ele faz isso? – foi sua última pergunta antes de assentar-se à mesa, preocupada um tanto com o desenrolar dos acontecimentos.
Os trabalhos do Centro transcorreram normais – Selhama já havia participado de outros da mesma natureza em sua cidade: orações, leitura e explicação de um texto do Evangelho Segundo o Espiritismo, franqueamento da palavra para aquele que dela quisesse fazer uso, a chegada do mentor, alguns espíritos costumeiros da casa, obsessores que manifestaram-se para as devidas doutrinações e encaminhamentos espirituais.
A jovem visitante (convidada) não teve nenhum manifesto, ausência total de inspiração até quase ao encerramento dos trabalhos, quando um médium relatou visão dada no momento, a respeito de um espírito que estaria a perturbar a vida de Selhama, com uma riqueza de detalhes revestidos de caráter religioso; alguns médiuns por orientações da presidente do Centro, se levantaram para orar com imposições de mãos sobre ela: o pretenso espírito não se manifestou em Selhama, mas incorporou num outro médium, para ditar o que perturbava a jovem, a tratar-se de um obsessor pago para proceder de semelhante forma, iniciando-se bate boca entre doutrinadores e o tal espírito, do denominado antro do baixo espiritismo, se recusava sair e deixar em paz a jovem perturbada, com ligeiro princípio de tumultos, quando a jarra d’água que encontrava-se sobre a mesa, começou a chacoalhar-se de maneira lenta, girando aos poucos, a derramar um tanto do conteúdo (água) sobre a mesa – algo natural pelos movimentos da jarra.
O espírito deixou o médium, os doutrinadores se voltaram para a jarra – o espírito estaria nela?. O vidente se levantou assustado, o que incorporara o espírito manifestante também se afastou, e o vasilhame após giros rápidos quedou-se sobre a mesa, sem quebrar, a despejar o restante de seu conteúdo sobre a toalha.
Por sugestão do professor médium, a Presidente do Centro optou pelo encerramento da sessão; Selhama já não se mostrava tensa e até trazia nos lábios um sorriso disfarçadamente zombeteiro, enquanto a irmandade ainda atônita discutia origens possíveis daquele fenômeno, certamente provocado pela jovem e de características puramente mentais – ação telecinética – pelos experimentadores, mas de ordem espiritual para os membros do Centro.
A equipe de experimentos da faculdade, responsável em estudar Selhama, acreditou que a jovem, ao contrário da sessão doméstica, conseguiu interferir mentalmente nos trabalhos, sendo opinião certa do professor espírita (membro da equipe) que foi exatamente ela, quem colocara a visão na cabeça do vidente para faze-lo falar mais ou menos o que ela pretendia, da mesma forma que influenciou o médium de incorporação, a ter em si um espírito conforme desejo dela, a única que pareceu divertir-se com tudo aquilo.
O que desejava Selhama provar com seus feitos?
Nenhum deles tinha resposta conclusiva.
C) Num Terreiro de Culto Afro-brasileiro As pessoas envolvidas nos experimentos com Selhama não viam objetivos para visita num Terreiro de Culto Afro-brasileiro, todavia prevalecera a vontade dela. Durante três meses a jovem procurou estudar tudo a respeito daquelas religiosidades, desde as formas de manifestações às doutrinas básicas, variáveis de uma Casa para outra, para apresentar aos seus colegas de equipe um relatório antecipado do que iria acontecer nos trabalhos, naquilo que ela desejaria, sem ferir regras de crenças ou tumultuar ambiente.Compareceriam numa festa de Terreiros, como meros visitantes e se sentariam mais ou menos esparsos entre a assistência; Selhama tinha a convicção de que seria reconhecida como Mãe de Santo, pela entidade principal que estivesse a presidir os trabalhos, e assumiria tal papel em condições de conduzir parte dos trabalhos com todas realizações de feitos e impressionismos, um plano arriscado mas, nas palavras de um professor, aquilo poderia ou não vir acontecer, e o máximo de prejuízos seria Selhama por-se a descoberto e ali ser desmistificada (desmascarada).Relutantes, os membros da equipe concordaram, todavia não iriam ao Terreiro pretendido por Selhama e nem na época desejada; um dos experimentadores haveria de escolher um lugar e dia, vindo tal escolha recair numa festa de fim de ano consagrada a Iemanjá (passagem de ano), no litoral paulista - cidade Praia Grande, onde milhares de pessoas estariam presentes por tradição; ficariam num grupo entre outras pessoas; a jovem seria avisada apenas na época, e não haveria relatório prévio dela, devendo as coisas acontecerem normalmente.Chegaram ao destino dias antes, alguns levando a família e, aos 31 de dezembro de 1987 dentre os Terreiros assentados na praia, um deles foi escolhido sem nenhum critério ou apresentações, apenas fixado que, a determinada hora todos chegariam ao local. Nos dias que lá estiveram, até a hora do evento, em momento algum Selhama ficou só, sempre acompanhada por casal de professores, ambos da faculdade.O trabalho iniciou-se dentro do ritual próprio de Terreiro escolhido, grande corpo de médiuns separados da multidão por um cercado de cordas previamente fixadas; o público concentrava-se num espaço considerável e muitas pessoas bem próximas das águas do mar. Os experimentadores estavam colocados em lugar privilegiado quase juntos à corrente de médiuns, apenas Selhama e os dois guardiões não haviam chegado, a gerar preocupações nos demais amigos.Haveria ela desistido ou estaria tomada de pânico?
Selhama chegou com seus acompanhantes à praia, ela com vestimenta normal usando calça e blusa, um pacote nas mãos – disse que antes faria uma entrega no mar – e entrou na água com o embrulho, sem se incomodar com advertências e protestos dos que ficaram.
A jovem caminhou em direção às águas mais profundas, contou sete ondas ou mais, para num determinado momento mergulhar, por longos instantes ausente do alcance de visão de seus amigos, num gesto no mínimo irresponsável, para depois surgir num ponto distante, acenar e um novo mergulho, mais um, dois e o terceiro já em direção à praia, para alívio dos que a acompanhavam.
Saiu da água em aparente transe, ignorando os amigos e a abrir caminho entre a multidão em direção ao local onde se assentava o Terreiro; e sua atitude não passara desapercebida e todos voltaram-lhe atenções, numa emoção profunda, aquela jovem morena, alta, de cabelos longos e soltos, um tiara sobre a cabeça e a trajar manto azul molhado, reluzente e longo, todo cravejado de pérolas de aparência tão real e postas harmonicamente naquele vestuário que trazia, ainda, pequenas e delicadas conchas do mar distribuídas com muito bom gosto. Caminhava ela de olhos aparentemente fechados, passos firmes resolutos, braços mais ou menos estendidos para as laterais, como quem distribui bênçãos ou recebe agraciamentos.
O professor que a acompanhava filmou cada detalhe, desde sua entrada no mar – era de sua responsabilidade registrar pormenores estranhos da jovem ou de interesses para a equipe.
De imediato ao encontro de Selhama, como se programado e também abrindo passagem entre a aglomeração, o líder do Terreiro seguido de seus filhos de fé, numa música suave de ritmo balada, acompanhada por atabaques e outros instrumentos, saudava a chegada da Rainha do Mar, às vezes o pai de santo a bradar forte: “não lhes falei meus irmãos, meu guia não lhes ditou que saudaríamos, pessoalmente, a rainha do mar?”. 
Um dos professores, encarregado de Selhama, foi bastante enfático ao episódio: “covardia o que ela faz!!!. A diabinha montou o espetáculo e todos pagaram ingressos; era ela a típica representação de Iemanjá, a divindade ali cultuada.  
Por alguns minutos Selhama comandou o andamento dos trabalhos daquele Terreiro, a, determinar músicas e aspergir água do mar sobre os médiuns e pessoas próximas – alguém trouxera-lhe vasilhame com água e um aspergidor; teve uma rápida aparente conversa com o Pai de Santo e a Mãe Pequena, antes de retornar ao mar, desta vez caminho livre, ela serena em seus passos, pessoas a atirando pétalas de rosas sobre ela pedindo proteção, uma jovem a lhe ofertar ramalhete. Entrou na água e foi aos poucos caminhando, a romper ondas suaves, outras pessoas acompanhando-a, ela aos poucos até desaparecer, um mergulho provável, pessoas retornando, rojões espocando belo espetáculo, exatamente zero hora e o novo ano surgia radiante.
Muitos metros abaixo de onde entrara, Selhama saiu das águas, cabelos presos e somente com roupa normal, misturada entre pessoas que também homenageavam Iemanjá; à custos encontrou a professora que a procurava, e juntas dirigindo-se à casa onde hospedadas.
Selhama entregou à professora/mestra documento onde relatava antecipadamente, e certa precisão, todo desenrolar daqueles acontecimentos, inclusive um termo de responsabilidade pessoal, caso algum sinistro viesse ocorrer-lhe.
Selhama, na opinião dos experimentadores, valera-se evidentemente de prévia inspiração, desenvolvida e trabalhada, para causar impressionismos e exploração da fé de um público dado às crendices, com exitosa realização num comovente espetáculo circunstancialmente aproveitado pelo pai de santo e total delírio da platéia, porém de importância menor para estudos da paranormalidade, na visão dos professores e experimentadores.

*Mesmas fontes do capítulo anterior. 

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