quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

ESTRANHA NECESSIDADE DE CONSULTA MÉDICA*

Jovem, 20 anos em 1988, 3º. ano concluído do Curso de Psicologia e já matriculada para o termo seguinte, Selhama era uma pessoa aparentemente normal, não se observando nela qualquer indício de neuroses ou enfermidades mentais, e seria sério risco de diagnóstico médico ou psicanalítico classifica-la como elemento fronteiriço de personalidade psicopática.
Morena bonita sem pedantismo e produção, inteligente sem arrogância, educada sem fazer-se submissa, jamais valera-se de subterfúgios e artimanhas para satisfazer interesses mesquinhos ou fugir de suas realidades, fosse pelas mentiras ou simulações, e assim era uma pessoa tipo feliz, em pleno gozo de suas faculdades física e mental, apta o bastante para quaisquer atividades a que se propusesse exercer, profissionalmente ou por prazer; um médico não hesitaria assinar-lhe laudo favorável de sanidade. 
Apesar de todas suas características apontar para um padrão ideal psico-social, a jovem bem sabia encontrar-se distante daquilo que se concebe como normalidade, ciente existir entre ela e demais pessoas, certas valorizações de atributos da paranormalidade que ela seria possuidora, ao descobrir-se desde criança capaz de produzir e receber estados ditos fenomênicos, sem fugir desta sua realidade e antes sim vive-la intensamente e a interessar-se pelos enigmas da vida, da morte e dos periféricos outros tantos que, direta ou indiretamente, vinculam-se àqueles mistérios. 
Selhama tão logo compreendera suas diferenças em relação às pessoas comuns, atirou-se às perguntas e respostas acerca de causas e origens de suas capacidades, desde um misticismo às religiões, das ciências parapsicológicas à psicologia clínica; antes, por volta de seus quatorze anos, fora levada pela mãe aos médicos para consultas e exames - clinica geral e especialidades como Neurologia, Psiquiatria e Psicologia, sem jamais um veredicto preciso quanto possíveis anormalidades de ordens orgânica ou psíquica. 
Em 1985, depois de submeter-se a teste vocacional, optou por estudar Psicologia, aprovada em primeiro lugar no vestibular daquele ano; ingressa no curso escolhido, iniciou tratamento psicoterápico de ajuda com profissional da Faculdade, abandonando o que realizava na Unidade de Saúde Mental de sua cidade, vindo com isso submeter-se a experimentos com equipe especializada, dois meses depois, quando houve constatada evidências de paranormalidade, inicialmente como autoconhecimento quanto aos limites das potencialidades inerentes, para assim desenvolver equilíbrio mais adequado de vida, que não a fizesse perder-se pelos caminhos da própria existencialidade, sob penas de viver perigosamente nos limites de uma loucura voluntária. 
Alegre, comunicativa, de raciocínio rápido e coordenado para respostas precisas, todos que lhe eram próximos julgavam conhece-la em profundidade, sem ao menos imaginar que ela pudesse, de alguma forma, esconder segredos ou viver alguma outra personalidade diferente da que apresentava. Selhama, no entanto tinha e vivia segredo inconfessável, desconhecido por amigos, pais e mesmo seus mestres e experimentadores; há anos seis aproximadamente mantinha romance com um rapaz, quatro anos mais velho, tão bem escondido e vivido entre os dois, que ninguém ao menos suspeitava.
Evidente que nada errado, senão a ocultação desse amor, em se tratando de pessoa emancipada como ela; talvez quando púbere até houvesse algum motivo familiar que justificasse tal ato, mas não agora na sua idade e bastante dona de seus caminhos. Também nada demais que ela vivesse esse amor às ocultas, quem sabe por tratar-se de homem casado ou que por uma razão ou outra necessitasse, provisoriamente, de anonimato até que se pudesse revelar, nada disso importando senão o tempo decorrido desse romance, seis anos, quando ela teria apenas quatorze e ele dezoito, idade um tanto precoce para um jovem estar comprometido a uma outra mulher, embora não impossível. 
Eram segredos deles, sabendo, todavia, não ser ele nenhum preso ou perseguido político, a anistia já havia sido concedida a todos aqueles que de uma forma ou outra se encontrassem naquelas situações. 
Tratar-se-ia de algum condenado por crime hediondo? Certamente não, pelo menos que estivesse encarcerado, pois a uma menor não era dado o direito de visitar detento e direito de visita íntima, sabendo-se que ela ainda recente entregara-se ao homem amado, portanto distante de uma cela de presídio. 
Algum fugitivo da justiça? Talvez, porém são conjecturas onde não é dado, ainda, direito de invadir privacidade de Selhama, apenas respeita-la. 
A única certeza existente é que a jovem tinha uma pessoa em sua vida, com a qual vinha mantendo ultimamente relacionamentos sexuais, mais ou menos frequentes desde que deixara de ser virgem, ela sempre a se precaver de gravidez indesejável ou inoportuna, com uso de anticoncepcionais. 
Outro fator a ser considerado, é que Selhama vinha lutando com todas suas forças físicas, mentais e parapsíquicas, nos últimos meses, para alguma modificação de situações, ou seja, de fazer público um amor secreto, por já não suportar sabe-lo impossível da maneira que estava, transformado em pesadelo terrível, ciente que não suportaria continuar por muito mais tempo sem torna-lo conhecido, já a afetar-lhe a razão e dar causas de esgotamento físico/mental nunca antes experimentado; aliavam-se às circunstâncias certas dúvidas suas quanto a esse mesmo relacionamento, as evidências de doença psicossomática que não tardaria exteriorizar-se, ou que alguma loucura viesse domina-la. 
Resolveu consultar um médico, tirar de sua cabeça 'uns bichos grilos' – conforme costumava dizer, realizar ao menos um exame laboratorial que pudesse eliminar dúvidas, para não vir despertar tarde demais diante de alguma verdade mais cruel; o amor, às custas mantido em total segredo, já não lhe fazia bem, mas não podia chegar diante do clínico geral e simplesmente lhe dizer: – "Tó mande analisar isso". 
Os médicos da cidade eram todos conhecidos, à exceção de um, Dr. Mateus, recentemente estabelecido no local; aí dois problemas: médicos conhecidos e um totalmente estranho onde, se não podia abrir-se com aqueles nem com este tampouco e pelas mesmas razões, confiabilidade de seu segredo e julgamento precipitado de alienação mental. 
O tempo, todavia, urgia, sua situação piorava dia a dia, cada encontro a transformar-se em mais pesadelos e dúvidas, que precisava de pronto livrar-se; Selhama poderia até estar no caminho certo naquilo que havia proposto em relação ao homem amado, mas necessitava urgente saber se o que se passava com ela era efetivamente real, ou apenas algum subproduto de sua imaginação criativa. 
Optou pelo doutor estranho, porém como proceder? – “Doutor, eu quero...” ou, “Estou sentindo isso e aquilo” – puras fantasias que seriam descobertas. O médico certamente a examinaria e ela não tinha problema algum para apresentar. 
Estudou uma estratégia: convenceria a mãe acompanha-la ao doutor, precede-la numa consulta e relatar ao médico sobre a sua paranormalidade, o que deixaria o profissional receptivo mentalmente para qualquer absurdo posterior que viesse de uma 'maluquinha', e assim pronto a qualquer solicitação a rogo, para livrar-se logo daquilo, sem muitas mais perguntas, com sugestão ou encaminhamento para algum psiquiatra, que ela certamente não iria. 
E assim chegou um dia o esperado momento da consulta médica, o dia que seu segredo certamente seria desvendado e seu amor posto a descoberto, pois que não havia nenhuma outra maneira de ser.

*Do diário de Selhama.

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