quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

E UMA VOZ INTERIOR LHE DETERMINOU CURAR*

A menina Selhama, levada pelos pais a frequentar a Igreja 'Obra da Restauração' não parecia demonstrar interesse algum pelos cultos regulares, senão quando dos testemunhos e dos momentos de orações coletivas, onde alguns dos crentes mais emocionados, predominando mulheres, vez ou outra falavam em línguas estranhas, relatavam visões e revelações que pareciam exercer fascínios sobre ela.
Talvez por isso a pequena não deixava de lembrar a mãe, dos dias de orações do clube de senhoras, geralmente em alguma residência e onde eram comuns as línguas estranhas e profecias, relatos de visões, sonhos, revelações e testemunhos, ao lado das danças espirituais no poder de Deus.
Diversas vezes, embora repreendida pela mãe, Selhama fora flagrada a ensaiar, tanto nos cultos de orações quanto em sua casa, rezas e línguas, como num processo imitativo; situações provavelmente infantis e não valorizadas pela mãe, a menina vez ou outra relatava visões, que em nada fugiam daquelas referidas pelas crentes, que em tudo achavam graça da pequenina a prometer futuro glorioso na obra.
Orientada pelos pais e o pastor, Selhama deixou de imitar as irmãs ou mesmo de orar em voz alta, todavia notava-se pelo mexer dos lábios que ela orava para si e provavelmente continuasse falar línguas – mais tarde viria dar testemunhos de que jamais deixara de exercer aquelas práticas e suas visões jamais cessaram, apesar das reprimendas.
Fora os processos chamados imitativos – e com certeza eram – a menina passou ser vista de maneira especial pelas autoridades da Igreja quando, por volta de seus seis anos de idade, mostrou certas capacidades para a cura.
A primeira observância efetiva ocorreu quando ela, por volta dos seis anos de idade, num dia de folguedos com meninos e meninas, veio realizar sua primeira cura; um dos meninos pusera-se a sangrar abundante pelo nariz, com isso gerando preocupações nos demais colegas, enquanto Selhama mantinha-se distante e quase indiferente às agonias de todos, até o momento em que veio sentir uma voz determinante dentro de si: coloque as mãos sobre ele e mande o sangue parar.
Não desobediente à voz, Selhama bastante autoritária pediu afastamento dos colegas, ajoelhou-se próxima ao menino que estava deitado de costas tentando recuperar-se, colocou suas mãos sobre a cabeça dele e, em voz baixa, determinou estancamento da hemorragia que, imediatamente à ordem, cessou por completo, com isso a causar forte impressionismo sobre todos dali.
Ao entardecer, Elisa que já ouvira relatos da filha sobre o acontecido, explicava à mãe do garoto que a menina certamente fora usada por Jesus para promover aquela cura. 
Talvez coincidência, hemorragia já finda, algo comum com garotos da idade, quis acreditar Pastor Almir, homem experimentado em milagres divinos que, ainda assim, não resistiu testemunhar sobre o fato, como ação de Deus através da menina Selhama.
Numa outra oportunidade, mais ou menos ano e meio depois, uma nova ocorrência viria demonstrar que aquele ato de Selhama não fora nenhuma feliz coincidência; alguns meninos e meninas, de idade maior, jogavam queimada num terreno baldio, enquanto Selhama e outros menores, sob a sombra de uma árvore, observava-os à distância, quando a bola desviou-se para o mato quase ao lado, seguida de perto pelo seu pegador, encobertos por instantes na moita maior, quando se ouve um grito de dor, o menino a ressurgir rápido, bola nas mãos, saltitante e gemendo, um dos pés a sangrar abundante pelo ferimento, misturado à terra, corte preocupante podia-se ver, causado por caco de vidro.
Rapidamente socorrido pelos amigos e colocado à sombra, enquanto pensavam no que fazer, o menino gemia e chorava ora pela dor ora por temer a mãe que o proibira sair, enquanto ela estivesse fora para compras; foi nesse instante que Selhama novamente ouviu aquela voz mandando-a curar o garoto, e assim rápida tirou o lenço que trazia preso à cabeça, pediu a um dos meninos que fosse molha-lo na torneira do quintal da vizinha, enquanto posta aos pés do ferido tocava o ferimento – “já não sai mais sangue, já não dói mais”. 
- Ué, como é que você fez isso!!! – voz surpresa do menino ao constatar que não sentia mais nenhuma dor e o sangramento cessara por completo, com uma cicatrização rápida, quase total; pé mais ou menos limpo – trouxeram uma lata d’água – realmente nada se podia ver daquele ferimento que antes se mostrava grave, e não fosse pelo sangue farto na camisa do menino – alguém enrolara-a no pé numa vã tentativa de estancar o fluxo – não se podia dizer que o garoto, instantes antes, tinha um corte profundo que sangrava bastante. 
A Igreja alvoroçou por aquilo considerado milagre...Deus certamente agraciara a pequena Selhama com dons de cura, opinião compartilhada até pelos vizinhos não evangélicos ou aqueles que vieram saber do acontecido; Pastor Almir precisou agir com cautela, para evitar que a casa da menina virasse centro de romaria – “orações de cura somente na Igreja” – e mesmo assim não permitiu a pequena curadora usar seus dons – “é preciso antes buscarmos confirmação e autorização de Deus para tais procedimentos”. 
  • Anos depois, Pastor Almir justificaria seu procedimento: considerava Selhama muito criança e temia que esta viesse perder-se pela vaidade dos pais, ou própria, senão idolatrada, além do que, entendia muito mais importante a cura da alma que do corpo, em nada a se entusiasmar com aqueles que apenas vinham em busca do inédito, para curar-se, e depois virar as costas para a Igreja; um outro detalhe não menos importante: uma criança, levantada por Deus – jamais duvidara disso – somente poderia exercer ministério de cura se autorizada pela Igreja, talvez pelos menos motivos que o levava proibi-la de curar na Igreja.
Apesar das proibições do Pastor Almir, veladamente os próprios crentes vinham até Selhama, numa disfarçada visita, e clamavam certas moléstias – em geral dores de cabeça ou mal estar – cientes de que a menina os tocaria, senão fisicamente pelos menos por orações, e nisto acreditavam porque saíam aliviados; Elisa confirma esses deslizes, ciente que o Pastor jamais ignorou os fatos, vez que a própria filha de Almir foi levada à presença da curadora, pela mãe evidentemente, e liberta de aparente bronquite asmática – a doença que parecia crônica, jamais retornou.
Selhama antes dos oito anos já entendia ser diferente das crianças de sua idade, ciente de possuir dons divinos, assim lhe explicavam, e nisto a razão de ser assim tão especial para os pais, motivo de orgulho para a Igreja; também era sabedora de que muitos a invejavam, que certos pais gostariam ver seus filhos iguais a ela, quando não eles próprios assim o desejando ser.
Os feitos da menina cresciam, já quase impossível ignora-los ainda que restritos aos cultos domésticos e orações esporádicas – os pais de Selhama e a própria sabiam que ali, no lar, o Pastor Almir e ninguém ousaria interferir – e assim a garota prosperava em seus dons manifestos, uma vontade divina cada vez mais operante, acreditavam, em atendimento a alguns crentes e pessoas necessitadas que a ela acorria para alguma revelaçãozinha de Deus, traduzida em forma de visões que Selhama dizia ver; eram problemas do lar, brigas corriqueiras de marido e mulher, uma mãe preocupada com seu filho, algum bate boca entre membros da irmandade ou com vizinhos, casos financeiros, situações simples que no entanto atrapalhavam a fé ou a comunhão mais direta com Deus, daqueles que insistiam viver a doutrina da Igreja. Quase todos evangélicos creditavam ao demônio aqueles atrapalhos, que Selhama em seus ensaios proféticos aprendera desde logo explorar.
Pastor Almir tornou-se cúmplice silencioso das realizações de Selhama, todos sabiam disso, ele sempre a par dos acontecimentos ainda que distante, num tremendo esforço visível para manter-se longe dos fatos; não podia avalizar o que ocorria e muito menos ignora-lo, mas algo poderia sair errado e ele não desejava mais nenhum escândalo a envolver o nome de sua Igreja, por isso talvez preferia manter-se silencioso, sempre a dizer quando lhe narravam feitos, que orava e muito pela menina, para que Deus viesse logo confirma-la como uma agraciada, através do batismo com o Espírito Santo, pois esta era a grande sua verdade: a menina continuaria com seus manifestos independente dele ser a favor ou contra, e evoluiria por certo, cabendo a ele apenas prepara-la para aquele momento especial quando ela, em êxtase, viesse ser sagrada por Deus; agiria portanto com a máxima cautela, a conter abusos e não perder sua autoridade. 
Ao lado das verdades porém, Selhama aprendera a mentira como um de seus trunfos, e quando alguém lhe perguntava sobre aquelas suas visões de outrora, com o primo e outros seres humanos espirituais invisíveis, dizia não vê-los mais, sabedora que profeta algum, vidente ou fosse quem quer que fosse, com ou sem dons espirituais, jamais conseguiria arrancar-lhe verdades: o primo Osmar continuava surgir-lhe em suas visões particulares e momentos especiais, assim como tantas outras figuras proibidas pela Igreja; acreditava no entanto que Pastor Almir sabia daquilo que efetivamente se passava com ela, e por isso resistia expô-la em público com seus dons – Almir confidenciaria isto anos depois, quando Selhama já não pertencia mais aos quadros da seita, com uma agravante que atestava sua incapacidade pastoral: o diabo sempre fora um constante na vida dela. 


*Pesquisas do autor, o diário de Selhama e as informações de família.

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