quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

DOS EXAMES CLÍNICOS E LABORATORIAIS - NOVAS INVESTIGAÇÕES*

Conforme exame clínico Selhama não era virgem e isto, para Mateus, era lá com ela; não se achava ela acometida de  infecção gênito-urinária, diagnóstico este confirmado por exames complementares.
Mas o material colhido por Selhama conforme instruções, após ato sexual, foi encaminhado para análise, sendo constatado líquido seminal com presença de espermatozoides inférteis.
Mateus, atônito, solicitou nova coleta sob alegação de confirmar resultado, com intenções de vigia-la, com vantagem dela encontrar-se em férias escolares, portanto sem razões para sair de casa, senão algumas horas à noite e com ele. Apesar da vigilância segura e com isso a eliminar suspeitas, a jovem teve novos relacionamentos sexuais com o pretenso Osmar.
Novos exames laboratoriais trouxeram comprovações daquele primeiro, deixando Mateus em grande dificuldade de alternativas possíveis: ou ela teria órgãos masculinos internos ou de fato mantinha relações sexuais, e desejou presenciar uma conjunção carnal dela com o pretenso amante espiritual e de imediato colher material. 
- Mas que diabos estou a pensar? – questionou-se. 
Selhama não possuía órgãos masculinos internos – o próprio doutor Mateus achara isso um absurdo, mas não sentiu-se aliviado, impotente para resolver o mistério: Selhama mantinha relações sexuais com um morto, ou que fosse um espírito, mas não admitia a possibilidade de tal acontecimento, contrariando toda lógica possível. 
Apenas de uma coisa Mateus tinha certeza, a jovem não corria riscos de engravidamento; mas, e se alguma outra entidade, fértil, viesse possuí-la com a mesma força e intensidade de Osmar? 
Era tremenda loucura acreditar nas absurdas histórias de Selhama, bem o sabia Mateus, entretanto que alternativas restavam diante das evidências? O que efetivamente acontecia com Selhama?
Pesquisaria mais profundamente Osmar e ela.
A presença quase constante de Osmar para Selhama, ainda que limitada a algumas horas da noite e sempre restrita ao quarto, já vinha desde a infância de ambos ou pouco meses depois da morte dele, quando ela não tinha ainda cinco anos de idade; cresceram juntos em planos diferentes, Osmar sempre quatro anos mais velho.
Dos primeiros contatos infantis deles, houve reconhecida evolução disto: de alguns rabiscos, quase indecifráveis e até poderiam ser chamados psicográficos ou de desenhos mediúnicos iniciais, e outros tantos acrescidos posteriormente, com bastante beleza e profundidade, quase sempre com o nome Osmar – em vida ele gostava de desenhos e escritas –, assim como conversações e certas revelações primárias sobre alguém vivo ou morto, da família ou pessoas próximas, para depois ganhar seriedade de informes gerais e particulares de seus parentes, conhecidos mais chegados e de novos amigos, às vezes revelando data de morte, acidentes, doenças e outros acontecimentos que evidenciavam Osmar conhecedor de fatos ou, então, Selhama, como cognitiva em fenômenos pré e pós, escudava-se de certa maneira numa figura pressupostamente espiritual.
Crescendo, a jovem teve seu período de questionamentos quanto aos absurdismos dessas aparições e contatos; talvez por sentir a vigilância da mãe e os rigores do pai, exercia-os em seu silêncio, vez que lhe era impossível o afastamento daquilo que considerava normal, que tanto gostava, todavia considerado como sinônimo de castigos, expulsões de demônios em trabalhos da Igreja, além das proibições de saídas. Assustara-se, jamais sabendo se estivera ou não em transe – sempre pareceu consciente de tudo –, quando aos dezenove para seus vinte anos mantivera sexo com Osmar pela primeira vez, tudo como se fosse real, como reais envolvimentos anteriores, os amassos, até a chegada hora.
- Existira isto, de fato, na vida de Selhama?
Mateus queria saber, ciente que parte do diário que a mãe apanhara falava dos seus primeiros contatos com o primo Osmar, já na qualidade de púbere ela e adolescente ele, das trocas de carinhos e juras de um amor eterno: estavam namorando, talvez até natural para ela e Osmar, jamais compreensível para a mãe ou, por qualquer vivente no mundo, com um mínimo de normalidade.
Já não eram mais coisas infantis, de crianças que enxergam anjos ou que vêem abertas as janelas dos céus, e sim de menina moça bonita que sente o despertar e explosão da própria sexualidade, talvez, sabe-se lá, mal conduzida e entregue ao lado não compreensível da vida.
Soube que Selhama jamais conversou com a mãe sobre isto e com ninguém, senão ele, mas a mãe lera partes de um de seus diários, talvez não tão comprometedoras, e que doravante passou ser tratada de maneira diferente, obrigada ir aos médicos especialistas, fazer uma série de exames e longo tratamento psiquiátrico e psicológico.
Tinha ela quatorze anos de idade e já obrigada a uma reclusão mental, incapaz de negar os contatos como parte de sua existência real, todavia com plena capacidade de mante-los em segredo, ao dizer-se curada e que aquilo fora de fato coisas do demônio, entendimento da Igreja, fantasias mentais para a mãe – chegara mesmo dizer que estaria a escrever um livro.
Omitir verdades e com isso provocar negação de si mesma, talvez tenha sido um dos piores pesadelos para Selhama, que deixou a Igreja por volta dos quatorze anos, depois de vive-la por quase dez, com total plenitude de seus dons, então considerados espirituais.
Como sentia seus manifestos, extensões de contatos, a maneira como os recebia e o que sentia de tudo aquilo, revelara-os a ele, Mateus; mais que isto, numa prova de confiança absoluta e total, entregara-lhe também seus escritos.
Mateus conseguiu, sem o conhecimento de Selhama, cópia integral dos originais de seu prontuário médico em arquivos no serviço público, com as anotações clinicas,  psicológicas e psiquiátricas
Acreditava estar no caminho certo para o desvendar mistérios.
  
*Mesma fonte do capítulo anterior.


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