quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

CONSULTAS E CONVERSAS COM PRETENSO ESPÍRITO*

“O Pastor bateu forte, não sei se para alertar a Igreja quanto aos perigos espirituais de se consultar feitiçarias, ou se era sabedor que alguém dentre os irmãos tinha ido à procura de algum trabalho. Achei até muito interessante ele falar a respeito dos adivinhos, prognosticadores, lançadores de sortilégios, feiticeiros. e daqueles que manifestam espíritos, para os quais o fogo do inferno lhes era dado por castigo eterno, se não se arrependessem  e convertessem ao Deus Vivo. Como, se José filho de Jacó era um adivinho e lia presságios? (Gênesis 44: 5 e 15). Porventura os apóstolos não lançaram sortes para a escolha do substituto de Judas? (Atos 1: 26). Saul não incorporou [teve sobre si] um espírito mau da parte de Deus? (I Samuel 16: 14 a 23). Deus não marca as mãos de todo ser humano para que todos conheçam sua obra? (Jó 37: 7). (...). Acredito que o Pastor Almir sempre soube que jamais deixei de ter minhas visões, conversas com Osmar e outras presenças, mas sempre se calou a respeito, apenas com uma ou outra pergunta se essas coisas ainda me perturbavam, para receber uma resposta já esperada: – “claro que não Pastor” – uma mentira que ele aceitava como verdade. Também acho que o Pastor nunca acreditou nessa história de demônio, céu e inferno, ou que as minhas presenças fossem coisas do diabo, afinal, daquilo que sempre apresentei na Igreja que diferença tinha daquelas particulares? Nunca achei legal esse negócio de mentir ou esconder a minha verdade, de ter que falar sempre apenas das coisas que a Igreja aceitava, e foi por isso que comecei a procurar explicações mais lógicas para o que realmente eu era. Aquele caso do Pastor Marcelino, se era de Deus, porque Deus não evitou acontecimentos? Porque permitiu  assim ao pobre do Pastor morrer assassinado? Acho que foi esse caso que me levou não mais manifestar na Igreja, não que elas acabaram, não acabaram não, eu apenas me calava, afinal porque só contavam aquilo que lhes interessava para engrandecimento da Igreja? Se tivessem avisado o Marcelino, não poderiam com isso evitar sua morte? Então não eram coisas de Deus e sim minhas, e se eu as tinha, tinha de busca-las em algum outro lugar senão dentro de mim mesma. (...). Pois bem, fui à casa de Dona Diva, uma tal mãe-de-santo que recebe espíritos de mortos e uns guias espirituais, uma espécie de anjos para ela e demônios para a Igreja, e eu fui lá.” - Diário de Selhama, 4 de maio de 1982 -
Selhama soube pelas amigas que, tão logo esta se retirara da casa de Silvana, o medo novamente voltara-lhes com novos prenúncios de ataques em Eunice, o que as obrigou dirigirem-se à residência da Dona Diva, uma conhecida Mãe de Santoque lê cartas de baralho e mexe com espíritos de saravá, disseram-lhe –; e mais, que Dona Diva queria falar com ela, Selhama, se possível ainda naquele dia.
Motivada talvez mais pela curiosidade, comprometeu-se ir desde que alguma das amigas passasse em sua casa, com desculpas de estudar na casa de outra colega, que preferencialmente morasse distante e não tivesse telefone, caso contrário sua mãe não a deixaria sair; prepararia o ambiente para isso.
Dona Diva a recebeu muito bem, assim como as amigas todas presentes; leu sua mão, deitou-lhe cartas e consultou búzios, sempre a ressaltar a maravilhosa mediunidade de Selhama, como pessoa dotada de bons acompanhamentos e muita luz.
Num momento em que D. Diva esclarecia-lhe sobre espíritos, Selhama viu sair do chão batido do Terreiro uma mulher jovem – sabia tratar-se de uma das suas visões – que agarrou-se  aos pés da Mãe de Santo para, num ato rápido e repente transformar dona Diva na figura dela, a mulher espírito que viera do chão, aos deboches e gargalhadas, falar alguns palavrões e rapidamente ser atendida por uma jovem da casa, que lhe trouxe algumas roupas próprias, servi-lhe bebidas e cigarrilhas.
A tal mulher em dona Diva bateu cabeça nos rabiscos a giz – pontos riscados com pemba onde uma vela vermelha tremulava –; depois pediu que todas, menos Selhama, se retirassem do salão, pois que precisavam de uma conversa bastante particular. Era a primeira vez que Selhama ficava frente a frente com uma pretensa entidade, incorporada numa médium.
A tudo Selhama acompanhava com denotado interesse, fascinada com aquela ocorrência, surpresa em enxergar uma outra mulher no corpo que sabia ser de dona Diva, mas não era uma visão fixa, às vezes a mulher manifestante, por outras a Mãe de Santo; a pessoa em dona Diva dizia ser uma Pomba Gira e que seu nome Maria Mulambo – achou interessante o nome para uma pessoa tão bem vestida, que parecia mais ou menos de fino trato, senão pelo uso constante de certos palavrões que, de certa maneira, até lhe caíam bem, como se apenas termos espirituosos, ditos sem maldades aparentes.
Maria Mulambo sabia conduzir muito bem os assuntos, sempre em consideração à idade de sua ouvinte, palavras ditas de maneira sensual; Selhama pode perceber que a tal Maria Mulambo empregava duplo sentido em tudo quanto pretendia dizer, quase sempre a responder perguntas com outra perguntas, como a obrigar quem a ouvisse, de raciocinar e decidir por aquilo que julgasse de interesse interpretar, numa espécie de jogo de palavras fáceis,  habilmente evitando assuntos polêmicos em suas respostas.
Gostou da entidade, em especial quando dos elogios às suas capacidades mentais ou espirituais, conforme  Mulambo desejava; mesmo sem entrar diretamente em seus assuntos, Selhama entendeu-a bastante ciente daquilo que se passava com ela em particular, com toques espirituosos referentes a seus sonhos esquisitos, de suas visões com mortos – que ela, a Pomba Gira, denominava de eguns ou espíritos recentemente desencarnados –, dos seus contatos com figuras ou personagens mentalmente criadas, chamadas egrégoras, dos problemas causados em família, quando criança, pelos seus dons, e do quanto haveria ainda de sofrer por eles. Pela entidade, Selhama soube que fora a responsável de evitar problemas maiores com as amigas, na tal sessão do copinho falante, e que sua mediunidade era e seria quase sempre consciente.
Selhama prometera retorno tão logo possível, e Mulambo não a censurou quanto ao uso da mentira aos pais, para conseguir seus intentos.
Às amigas curiosas do que haviam conversado – Pomba Gira e ela – valeu-se do mesmo estilo da entidade de contar sem efetivamente contar, criando clima de expectativas e assim dar a cada uma delas o pleno direito de interpretar conforme a própria imaginação.
Por uns três meses Selhama foi assídua frequentadora nos trabalhos de Mãe Diva, realizado às sextas à noite, por certo seguindo orientações de Maria Mulambo: – “Você pode vir em vez de ficar na praça com as amigas,, afinal seu namorado é de lá – apontando para cima –  e assim você pode saber mais e mais das coisas que são nossas e suas também”; sem dúvidas Selhama aprenderia muito naquele Terreiro, em conversas com Pretos Velhos, Caboclos e uma série de outras entidades da Mãe de Santo e médiuns, além dos saberes necessários quanto aos fundamentos dos cultos afro-brasileiros.
Apesar da sua incontestável mediunidade, Selhama nunca incorporou entidade alguma no Terreiro de Diva, parecendo não sentir necessidade de tal manifesto; todavia relatava com segurança algumas visões, problemas detectados nas pessoas que chegavam em busca de alguma solução, e até sabia se tal entidade era realmente quem afirmava ser ou apenas algum espírito mistificador – o propalado Dom de Discernimento? Também consta que ela, quando solicitada pela entidade chefe do Terreiro, tenha realizado alguns processos de cura pela imposição de mãos, além de auxílios às entidades em desvendar segredos de clientes, com isso a gozar de prestígios entre os médiuns e frequentadores.
Bem cedo a jovem compreendeu que Diva seguramente era possuidora de alguns fenômenos idênticos aos seus, com muita habilidade para adivinhar situações de momento, prever acontecimentos, receber visões reveladoras, e outras situações como línguas estranhas e curas, estas através de benzimentos e garrafadas, tudo porém atribuído aos espíritos ou guias; outra compreensão viria adquirir também muito logo: que o uso dos dons e atributos eram sempre cobrados, pela mãe de santo, às vezes a preços bastante caros.
Diva sempre acreditou os fenômenos de Selhama superiores aos que ela própria apresentava, apenas a jovem não tinha ainda as experiências dela e nem os conhecimentos de iniciada nos cultos e teogonias, dispondo com isso ensina-la quanto aos mistérios das ditas mancias e aquele que de psicologia intuitiva para relacionamento e tratos com clientes:  – “todos esperam sempre as respostas que desejam e se você souber dá-las, sem dúvidas será uma grande mãe de santo, sem grandes segredos; nunca ultrapasse limites além do que o cliente deseja ou espera de você”.    
Elisa nunca falou a Selhama e nem a Arnaldo, mas sempre soube das andanças da filha n’algum Terreiro de Macumba – assim se referia àquele tipo de culto –, pelos cheiros de incenso e fumo impregnados nas roupas, e até deduzia qual Centro a jovem freqüentava:  – “Depois da decepção na Igreja, a menina tem o direito de escolher sua própria religião” – para concluir com certa dor disfarçada – “deve ter puxado pelo pai, que gostava dessas coisas” (revelação particular que certa vez lhe fizera uma amiga). Elisa acreditava que essa fase da filha passaria, já tinha experiências disso no passado, quando era contumaz freqüentadora de cartomantes, quiromantes e videntes, tendo mesmo arriscado alguns trabalhinhos encomendados, algumas simpatias de amor e as motivadas por necessidades escolares.
Oficialmente Arnaldo e Elisa somente viriam saber das particularidades da filha meses depois, sem contudo impedi-la de frequentar tais tipos de cultos senão apenas orienta-la, para não se fazer presa fácil de vigaristas e charlatães; não se pode dizer, porém, que adotassem aquilo, tudo a indicar que não, pois que jamais foram vistos em companhia da filha em alguma reunião do gênero. 

*Dados obtidos em referido Terreiro e dos escritos de Selhama.

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