quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

CONFIDÊNCIAS*

Há muito Selhama não tinha problemas para sair à noite e desde a puberdade seus pais autorizavam passear com as amigas nos fins de semana, em algum tempo sempre após os cultos evangélicos que era obrigada assistir, com hora para voltar, não podendo ultrapassar o limite das onze da noite, a denominada hora de debandada das virgens – como diziam os rapazes da época.
Por volta dos quatorze anos abandonara a Igreja e, com os pais vindo fazer o mesmo, sua liberdade tornou-se maior, ainda que vigiada e para lugares previamente comunicados, com tolerância inclusive para frequentar sessões espíritas e trabalhos de Terreiro.
Conquistara sua emancipação total, ao ingressar na Faculdade, mas nos últimos meses já quase não encontrava tempo para passeios com amigas, entregue inteiramente aos estudos, algumas visitas profissionais a Centros Espíritas, pessoas sensitivas dedicadas às mancias, Terreiros de Cultos Afro-brasileiros, casas de amigos que curtiam certas práticas ou crenças de espiritualidades, alguns contatos com professores que se interessavam por fenômenos  parapsíquicos.
Aceitou o convite de Mateus para sair naquela noite, sabedora das intenções dele apenas de arrancar confissões, desejos de saber sua vida e seus manifestos; não ignorava que seriam vários encontros preliminares até que houvesse entre eles confiabilidades suficientes para os objetivos propostos. 
De certa maneira, ainda não esclarecida, Selhama também desejava abrir-se com alguém que pudesse compreende-la, como amigo e profissional, sem aquelas necessidades de omitir segredos, mesmo os considerados essenciais que tão bem ocultava, propositadamente, de seus melhores amigos, pais e profissionais com quem mantivera contatos antes e atuais, além de vir possivelmente resolver uma de suas maiores dúvidas, que Mateus, na condição de médico e amigo, bem poderia faze-la.
Os encontros tornaram rotinas tornando-se amigos confidentes, ele com intenções próprias e ela com seus propósitos, ambos sabendo portanto o que efetivamente existia entre eles; e as perguntas de Mateus e respostas de Selhama foram surgindo aos poucos.
- Namorar? 
Não, não tinha namorado algum e que o doutor – ela gostava de chama-lo assim, embora com liberdade para uso do nome Mateus – podia ficar despreocupado, jamais ela tivera algum relacionamento que pudesse ser considerado sério. Na fase puberdade experimentara certas sensações de ciúmes das colegas namoradeiras, porém desde logo compreendeu ser diferente das demais pessoas, e assim nada legal, antes do autoconhecimento pretendido, ter  alguém em sua vida, na condição de namorado. Outro ponto determinante que não a deixava namorar: queria se formar primeiro e namoro às vezes, conforme observara com amigas, podia causar problemas. 
- Amigos? 
Tinha-os bastante, seus colegas de estudos e outros universitários que participavam das mesmas festinhas, pretendentes apaixonados por companheiras e que dela se aproximavam para aconselhamentos, sempre com palavras certas para todas situações e ocasiões; sempre fora a mais requisitada confidente de amigas e amigos, agindo com tato e muita discrição.
Sua paranormalidade? Parecia nada influir em seus relacionamentos, sempre estimada como pessoa e não por aquilo que possuísse de especial; alguns evidentemente sabendo-a sensitiva aproximavam-se por interesses, todavia sabia distingui-los bem para permitir ou não aproximações maiores.
No entanto tinha consigo sérios aborrecimentos causados pelos dons, em especiais os que a faziam saber antecipadamente e com bastante exatidão, o destino de cada um daqueles que faziam parte de seu círculo de amizades; sofria por isto terrivelmente, em segredo, muitas vezes desejando expulsar de si todas capacidades premonitórias e de clarividências, vez que sobre as telepáticas exercia controle quase total sobre elas, e para as quais seus índices de acertos eram sensivelmente menores, além de menos trágicas que aquelas outras. Por mais que evitasse, esse seu lado não era desconhecido por aqueles que a rodeavam, mas habilmente encaminhava o assunto para o lado exotérico disfarçado em tipo brincadeiras de mancias (leituras de cartas, mãos, copos, etc), ou ensaios de algumas sessões tipo espíritas na casa de algum amigo.
- Todos a conheciam como paranormal? 
Sim, praticamente todas pessoas da cidade sabiam-na paranormal, exercera esta atividade anos antes e tivera fama espetacular; atualmente as pessoas mais próximas, das suas novas aquisições de amizades, também eram cientes de seus dons, impossível não sabe-los em se convivendo com ela, e assim eram bastante comuns revelações através de clarividências e premonições, testes de telepatias e nestas também algumas revelações importantes, as quais jamais lhe faltaram ainda que não as desejasse. 
Tivera até mesmo fase exibicionista, longe dos Centros Espíritas ou de ambientes próprios, metida em auxiliar pessoas que se diziam necessitadas, talvez em razão de seus feitos paranormais ainda recentes, onde sua fama e bons índices de acertos atraíram atenções de muitos, chegando inclusive aos ouvidos de professores e pesquisadores da Faculdade onde estudava, divulgada também pelo seu psicoterapeuta da mesma Instituição de Ensino, levada submeter-se a testes de laboratório, e nela constatar potencialidades surpreendentes, sobretudo para lado dos fenômenos psicológicos e os ditos inteligentes.
- O que dizia dos testes e experimentos? 
Participara de conferências, fez alguns cursos de Parapsicologia, vindo conhecer através dos mestres alguns nomes daquela ciência, inclusive pesquisadores e caçadores de fenômenos. Um famoso padre, versado em Parapsicologia, durante três dias em que esteve na cidade a ministrar curso, conversou demoradamente com Selhama, estudando-a para concluir seus fenômenos como mentais, bastante pronunciados, e que gostaria de estuda-la melhor, e ela se prontificou tão logo concluísse seus estudos normais. Um outro estudioso, parapsicólogo conferencista de renome, e de visível tendência espírita – era reencarnacionista pelo menos, considerou seus fenômenos como atributos da alma ou do espírito.
- Quais os fenômenos efetivamente predominantes? 
Alguns, desde que se entendeu sensitiva, outros surgidos depois, com certa prevalência para as visões claras de pessoas já falecidas, como se vivas fossem, e com elas conversar assuntos vagos, alguns profundos, todavia sem jamais saber ao certo como seria a vida do lado de lá. Para estes contatos não precisava da presença de nenhum familiar vivo do morto, e muito menos tê-lo conhecido em vida ou parentes, o que a diferenciava da maioria dos médiuns espíritas, livrando-se dessa forma de possíveis telepatias com pessoas no ambiente ou que delas viesse captar exteriorizações mentais.
Por iniciativa própria fez pesquisas de alguns visitantes, dos quais conseguia informações e dados que podiam ser confirmados, até com bastante precisão. 
Realizou diversos contatos espirituais com presenças de curiosos, entendidos, ou mesmo de familiares, não os valorizando em demasia por considerá-los como fenômenos incertos para a Ciência, pois nada garantia não ter presciência daquilo que afirmava, mesmo quando no uso de idiomas desconhecidos. Tivera comunicações com espíritos de vivos, poucas vezes e, em pelo menos em dois desses casos, obteve confirmações precisas.
Considerava corriqueiros seus estados mentais em telepatias, clarividências premonitivas, cognições (pré, pós e simultâneas) e mancias.
- Fenômenos físicos? 
Conseguia com certa regularidade produzir a telecinesia, fenômeno que mais a cativava e profundamente nela estudado, pesquisado e comprovado; jamais exercera alguma fraude consciente e nunca fora flagrada na tentativa de forjar fenômenos.
- A que agentes ou forças poderiam ser atribuídas essas suas realizações? 
Estudara-as bastante e ainda não chegara a conclusão alguma, podendo sim provoca-las por si – nunca tivera a certeza absoluta disso – ou então evocar certos espíritos que, no entanto, apenas ela podia vê-los, para realizar os feitos visíveis a todos, algo bastante subjetivo esse auxílio espiritual e que poderia até ser muleta psicológica.
Trazer fenômenos em si, quais as inconveniências? 
Desde cedo, às duras penas, aprendera não revelar acontecimentos fatais ou entendidos como inevitáveis, para assim fugir de aborrecimentos e situações de culpas; logo porém, quando se recusava falar do que via ou sentia, às vezes incapaz mesmo de realização, ou, ainda, quando não compreendia as mensagens e com isso a calar-se, mas que disso viesse ocorrer algum fato, os colegas de pronto diziam: – “ela sabia, por isso se recusou falar”; se porventura errasse – e era muito sujeita a isso –, da mesma forma referiam-se:  –  “errou de propósito, ela sabia da verdade e apenas preferiu ditar o contrário”.
Sua fama cobria e perdoava os pequenos erros. Na puberdade ou adolescência tivera alguns problemas com suas faculdades mentais, situação agravada quando a mãe lera um dos seus diários onde relatava experiências próprias de contatos com o mundo além, com um primo já falecido e com o qual mantinha, pelo menos julgava assim, certos relacionamentos de ordem sentimental.
- Problema de ordem sentimental advinda de possível carência afetiva? 
Acreditava que não, pois sempre tivera bom relacionamento com os pais, e os contatos ou aparições já vinham desde sua infância, mais precisamente a partir  da morte do primo, que no entanto poderiam anteceder ao ocorrido.
- Alguma frustração sentimental?
Não. Nenhuma causa sentimental e nem sexual, posto plenamente realizada.
Dr. Mateus surpreendeu-se com a resposta, e mais ainda com a revelação, que ela e Osmar se amavam e mantinham sexo com certa regularidade.
O médico não ignorava que Osmar falecera ainda criança, e até considerava mais ou menos normal a fixação de Selhama pelo primo, mas ...
- Seria possível sexo entre um morto, ainda que espírito, e um ser vivo? 
De início Selhama pensara ser apenas sonhos, depois entendeu-os sonhos acordados e, por fim, já não tinha dúvidas de que efetivamente mantinha sexo com o primo Osmar, desde meses atrás, acreditando às vezes que ela lhe fornecia condições para ectoplasmias, quando não por outras ele a valer-se de energias psíquicas dela para os manifestos ou apresentações praticamente físicas, razões pelas quais imaginava poder traze-lo de volta à vida, um dia.
- Contara isso a algum profissional psiquiatra, psicólogo ou professor? 
Não, Mateus era o primeiro e o único a saber, temia confidenciar isto a alguém, e o próprio espírito envolvido, ou seja, Osmar, exigira-lhe silêncio total sob ameaças de jamais retornar, e ela o amava demais para não atende-lo.
- Nunca pensou sê-lo irreal? 
Sempre o considerou real dentro de um outro plano.
- Não seria este um amor impossível pelas próprias características? 
De princípio acreditava que sim, com o tempo passou julga-lo possível de realizações, talvez mais em razão de certas ectoplasmias atribuídas a Carmine Mirabelli, que alguns médicos constataram que o fantasma criado em nada se diferenciava de um ser vivo.
Se outros médiuns ou sensitivos conseguiram fabricar fantasmas, ela teria o seu.
- Porque agora e a ele, Mateus, a revelação? 
Em razão do relacionamento com o primo é que resolvera procurar Mateus, como médico, abrir-se com ele ou simular um problema ginecológico e com isso submeter-se a um exame interno, para de vez tirar-lhe dúvidas se era ou não virgem – acreditava que não, embora jamais houvesse mantido relação sexual com algum homem físico real; em auto-exames não sentia o hímen que todavia poderia ser tipo complacente ou mesmo não tê-lo, ou talvez que ela própria tenha causado rompimento, lembrando contudo o sangramento em seu primeiro ato sexual com Osmar. 
Um outro problema que a martirizava, era sentir e ver o líquido viscoso a escorrer-lhe da vagina após a conjunção carnal pretendida: se tivesse confiança em algum profissional, pediria para examinar aquele material, não descartando possibilidades de corrimento ocasional, provocado ou simplesmente desejado mentalmente e assim exteriorizado, por isso necessitava de vez eliminar suas dúvidas, além de temer gravidez, ainda que a fazer uso de anticoncepcionais.
E Mateus soube ainda muito mais: Selhama gostava de Magias sentindo-se atraída para esse lado, primeiramente às escondidas dos pais; chegou a estudar cursos por correspondências. Com dois anos de Faculdade, plenamente liberada, meteu-se numa sociedade gnóstica na vizinha cidade onde estudava.
Mateus propôs-se examina-la, mandar material colhido para análise, já antevendo suas conclusões: Selhama era uma doente mental que vivia alucinações tendo-as por real; que desde a infância já seria predisposta a esses tipos de fantasias, deixando posteriormente se envolver e ser hipnotizada por algum espertalhão metido a Pai de Santo, vindo depois sofrer algum tipo de lavagem cerebral, nalguma seita religiosa, para assim viver seu mundo à parte e de todo particular. Quanto ao líquido viscoso mencionado, sem dúvidas seria oriundo de alguma infecção interna, ou fluídos de gozo masturbatório.

*Informes do médico amigo confidente de Mateus.

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