quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

NASCEU-LHES UMA CRIANÇA E SEU NOME FOI ISABEL*

O espanhol Guido Lopez de Larosa estava bastante eufórico ao entrar no Cartório de Registro Civil, seguido de duas testemunhas: 
 “Mi nieta nasció!”. 
O escrevente lhe deu os parabéns, e uma série de perguntas como que a compartilhar da alegria do avô materno: como fora o parto, quando nasceu, se cesariana (já tinham essa novidade de cidade grande) ou normal, qual o sexo, quanto pesou, coisas assim que todos dali já sabiam em se tratando da neta do 'Espanhol', num horrível portunhol naquela velha mania de brasileiro adaptar-se ao estrangeiro por pensar em ajudar e fazer-se melhor entender, quando não puro exibicionismo de mostrar-se poliglota de plantão, antes de compenetrar-se no devido lançamento de registro. 
– Qual nombre de su niêta? senior de Larosa. 
– Mi nieta? Oh! si, se llama Isabel Martinez de Larosa Salles. 
E a recém nascida teve em sua certidão de nascimento o pomposo nome Selhama Isabel Martinez de Larosa Salles, nascida em 1968, naquela mesma antes cidadezinha do Vale da Ribeira, em pleno vigor dos anos de chumbo no país; aliás, seu pai que antes trabalhara como Diretor na empresa de extração de calcário, encontrava-se ausente na ocasião, uns dizem que preso em razão de greve ocorrida dois anos antes e por ele pressupostamente liderada, outros que o Partidão (Partido Comunista Brasileiro) o escondera em algum lugar do Brasil - a esposa acompanhara-o até mais ou menos recente para voltar grávida, não faltando comentários de que Salles, como era conhecido, já se encontrava em Cuba, China, Albânia ou mesmo na União Soviética, com o endurecimento do regime político brasileiro dos generais. 
Dois meses depois, mãe e filha partem ao encontro de Salles que nunca mais voltara à cidade, conclusão tanto vaga considerando os que juram ele jamais haver saído da região, foragido por ali mesmo na fazenda de Guido, até que pode deixar o local em segurança, graças habilidades de um velho político amigo da família, que negociara com militares de patente e governo sua colocação num serviço público do estado, em troca de certas informações, isto é, denúncias de velhos companheiros que ensejavam luta armada no país.
Se Salles era ou não comunista nunca revelou a alguém, todavia, como Diretor de Administração Geral da Empresa, fora tolerante e até simpatizante com um movimento paredista operário, ocorrido em seu trabalho, numa época bastante difícil, quando ao empregado não era dado direito de pensar diferente do patrão ou contrariar o governo; ninguém, no entanto, o viu ser preso embora a polícia do governo sempre agisse às ocultas e em silêncio. 
A família de Elisa, não se pronunciava a esse respeito, não de maneira que viesse satisfizer especulações gerais dos tantos que insistiam ver Arnaldo terrorista famoso, participante ativo de atos subversivos contra o sistema, há tempos na clandestinidade com uso de codinome não menos famoso, mas que ninguém dali sabia; mesmo os mais reservados acreditavam que Arnaldo, uma vez desempregado mudara-se para São Paulo, onde o Sindicato controlado por comunistas, o acolhera de bom grado: 
– “Comunista pode ser o bicho que for, mas não desampara nunca o companheiro quando este está por baixo”, diziam veladamente, pois que até falar podia trazer comprometimentos e cadeia certa no 'chora mas não mama' - uma referência regional ao antigo DOPS. 
Obviamente são inverdades, pois que efetivamente consta Dr. Arnaldo Salles como empregado pelo Escritório Central da Empresa de Mineração (...), para o cargo de Assistente Administrativo em 1958, com apenas vinte e dois anos de idade, formado em Administração de Empresas, num período bastante próspero dos anos dourados do governo JK, e designado em 1960 Diretor Geral naquela cidade do Vale da Ribeira, onde ele seria a própria Empresa que assim ampliava e diversificava empreendimentos. 
Até 1966 Arnaldo exercera com competência e lucros, o cargo maior da Empresa no local, vindo cair no ostracismo ao apoiar, pelo menos mostrou-se tolerante, a greve geral dos trabalhadores num movimento reivindicatório; mais que isso, fora também acusado pelos seus superiores (patrões), de mau gerenciamento e desvio de verbas, culpas nunca efetivamente comprovadas que no entanto levaram-no à demissão, por justa causa, talvez mais em razão de abandono do emprego a que se viu obrigado, com os patrões e a polícia social desejando-o comunista a todo preço, ignorando que ele apenas apoiara os grevistas quando todas ordens superiores e legais determinavam-lhe pronta ação contrária, isto é, demitir os líderes e denuncia-los à polícia, enquanto aos demais, punições com rigores da lei e descontos dos dias parados, ordens que se recusara cumprir. 
Desempregado por justa causa, 'carteira suja', vivendo na clandestinidade, Arnaldo tentou vida em São Paulo conseguindo poucos trabalhos transitórios, sem carteira assinada, e nem podia, vindo experimentar uma difícil situação de vida, a necessidade bater-lhe mais forte às portas, casamento em crise numa incompatibilidade circunstancial proporcionada pela mesma crise que afetara o casal, ou seja, a econômica, não parecendo que a polícia o desejasse preso, embora ele pudesse pensar o contrário. 
Fracassado, Arnaldo totalmente entregue a bebida, tornou-se violento e metido a constantes crises de ciúmes doentios em relação a mulher, para logo destruir um lar antes tão próspero e feliz. 
Elisa consciente ante agravamento da situação, resolvera por empregar-se numa tecelagem, com isso a desafiar todo machismo do marido - trabalhara antes onde Arnaldo fora o chefe, até conhece-lo e com ele se casar, portanto trabalho não lhe causava receios, além da necessidade famélica premente, quando Arnaldo não tinha mais condições de sustentação do lar. Não foi feliz em sua empreitada, conseguira sim vencer resistências do marido às custas de sacrifícios, mas engravidara-se já no segundo mês de serviço, demitida tão logo a notícia chegara aos ouvidos do Chefe de Produção; custava-lhe acreditar, quase sete anos de casada e desejar gravidez que não viera quando estavam bem, mesmo às custas de tantos tratamentos, eis que esta lhe surge agora num momento inoportuno, desabando sobre ela um verdadeiro inferno astral doméstico, numa continuidade de brigas e pancadarias a ameaçar a integridade do feto. 
Com receios de perder a criança Elisa retornou à família, quebrando seu juramento de jamais fazer isso desde que partira com Arnaldo, a acreditar na inocência dele contra tudo e todos, até mesmo os seus; foi de bom grado recebida pelo pai que preferia desonra de uma filha mãe sem marido, que vê-la torturada pela estupidez descabida de um homem enciumado, bêbado e irresponsável, esta ultima qualidade já cantada e decantada desde que o genro deixara o serviço, com abandono de cargo a motivar justa causa, para não ser preso como comunista e ladrão.
Quase ao mesmo tempo, avisada por Elisa através de uma carta onde pedia segredo de identificação, a família Salles pode enfim localizar Arnaldo, depois de quase três anos sem notícias; daí levado para o interior, conseguiram para ele, através de um líder político do local (deputado estadual pelo partido situacionista), emprega-lo na Estrada de Ferro, primeiro como Encarregado do Setor de Obras e Manutenção no município, depois a Chefe de Estação com a aposentadoria do titular. Comenta-se que o Deputado conseguira limpar a ficha de Arnaldo, em troca de favores políticos a favor da Empresa, bênçãos do Diretor do DOPS e de um General de Divisão, Chefe do SNI - situação que jamais poderá alguém checar com precisão, nem mesmo se Arnaldo tinha realmente folha corrida suspeita ou alguma ordem de prisão decretada. 
Quando nasceu Selhama, Arnaldo mostrava-se novo homem, tornara-se evangélico, não bebia mais, o salário era razoável e, na condição de casado, teria casa da Companhia para morar, sem despesas de aluguel, além de outras vantagens. Negociações rápidas entre famílias fizeram com que ele e a mulher se reconciliassem, pois não seria bom para um homem investido num cargo de importância permanecer só, como também não seria nada interessante para Elisa continuar sozinha com uma filha para criar. 
Todos queriam a reaproximação daqueles que a crise ousou separar um dia, e assim perdoando-se um ao outro, reiniciaram vida em comum, deixando o passado sepulto para sempre. 
Nunca mais Arnaldo agrediu Elisa, nunca mais Elisa foi embora, porém, nada disso importa, a personagem é Selhama, e a cidade onde fora morar já há muito era habitada por parentes do pai.
Até a idade escolar, Selhama era chamada de Isabel, Belinha para a família, somente a descobrir seu verdadeiro nome na escola, e dele gostar tanto quanto da história da sua origem, que doravante tornou-se Selhama, não admitindo que alguém mais a chamasse diferente; e assim ela cresceu como Selhama, em graça, beleza e esplendor, dona de invejável inteligência. 
Exatamente nessa mesma localidade foi que a pequena Selhama viria apresentar, muito logo, estranhos fenômenos de paranormalidades ou de mediunismo, de maneira amena a princípio para depois tornar-se extremado a ponto de causar espanto e preocupações em todos que a conheceram, além de uma vivência de amor tão particular quanto absurda e incompreensível.


*Capítulo extraído de trechos do diário de Selhama

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