quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

APRENDENDO O KARDECISMO*

Invariavelmente as conversas entre o rico advogado e fazendeiro, Dr. Walter Bonsegno Pires da Costa, e seu jovem administrador Jônatas Simeão Garcia, giravam em torno de fenômenos paranormais, sempre após expediente de trabalho. Walter era espírita e Jônatas sem profissão de fé, embora filho de evangélicos pentecostais e outrora, quando mais novo, freqüentador da seita Restauração.
Jônatas conhecera Selhama anos atrás e estivera na mesma caravana que ela, quando dos acontecimentos no monte – convenção das Igrejas da seita – e testificava sempre dos fenômenos da então garota :  – “o que vi a menina fazer não foi nada normal, e igreja alguma justifica aqueles feitos apenas pela fé; eu vi a menina quando parecia tomada, mas na realidade estava mesmo numa atividade mental, sei lá, que não precisava de religião alguma ou de fé para aquelas realizações, pois como explicar ato de fé ou religião numa criança  de apenas dez anos?; para mim o dom dela já era algo natural, ela não tinha bloqueios e aquilo tudo lhe era bastante natural, um estado de êxtase que sei lá como ela era capaz de atingir naquele nível (. . .). Quando digo que ela não precisava de Igreja é porque ela já apresentava casos antes e continuou a apresentar também depois de seu período de crente: fazia antes, fez durante e ainda faz coisas que até Deus duvida e o Diabo não acredita”.
Dr. Walter não se cansava de ouvir Jônatas falar sobre Selhama, sempre extasiado e atento a cada novo detalhe contado pelo Administrador, homem bem informado a respeito – conhecia a família dela e a freqüência da jovem junto ao Centro da mãe-de-santo Diva, tia em segundo grau do administrador – sempre atualizado e ciente que o patrão gostava de ouvi-lo falar da jovem; Walter desejava conhece-la.
A oportunidade enfim surgiu quando Vera Sanches, mulher de Walter e professora de Geografia de 2º Grau, veio a substituir o titular do cargo que, entre as diversas classes a lecionar, incluía-se a de Selhama, já quase ao final do primeiro semestre de 1983.
A jovem não se interessava por religião mas, as denominações de seus fenômenos pela Metapsíquica – Walter não adotava a Parapsicologia, para ele coisas de católicos para abafar o espiritismo – despertou atenções dela:  – “até que enfim alguma explicação científica que livra-me das mãos de Deus e das garras do diabo”.   
Motivada pelo advogado e a professora, Selhama iniciou os primeiros contatos com o Kardecismo e as primeiras leituras das obras de Bozzano, Richet, Flammarion e outros; se o credo espírita nada lhe dizia a respeito, os grandes nomes da Metapsíquica e do Espiritismo Científico no entanto tinham muito a esclarece-la, através daquelas leituras pesadas nem sempre bem compreendidas.
Durante o período de mais ou menos seis meses que Selhama esteve a  freqüentar o espiritismo kardecista, pelo menos uma vez por semana,  às quintas-feiras, todavia nada constando que ela tenha apresentado manifestos da ordem naquele Centro, restando apenas um velado relato em seu diário a demonstrar sua discreta participação naquele culto:  – “nada tenho a ver com Kardec, não gosto de sua doutrina que  acho groselha demais [sem fundamentos para ela], aquele negócio de morto incorporar para dizer asneiras e desconhecer sua própria condição de desencarnado, ouvir uma série de orientações descabidas, e assim fico a imaginar se não seria mais fácil o cujo entender-se do lado de lá mesmo com os tais iluminados [espíritos evoluídos]”; para a jovem não havia necessidade dos desencarnados serem doutrinados por terrenos, quando tinham oportunidades melhores no além.
Se não via fundamentos no Kardecismo e logo deixaria de freqüenta-lo, Selhama no entanto não perdia uma sessão doméstica na casa de Walter e Vera, aos sábados à noite, com amigos da família, talvez porque ali não houvesse apego demasiado à doutrina, além da oportunidade de conversas e perguntas diretas com pressupostos comunicantes; por certo mais que isso tudo, a jovem encontrasse ali incentivos para seus próprios manifestos, sem reprimendas, regras ou das imposições doutrinárias que lhe cerceassem feitos; o grupo, mais que religioso mostrava-se científico quanto aos propósitos, com ampla liberdade de atuações.
 Nessas reuniões existem riquezas de participações da jovem: relatos de visões que Selhama – daquilo que julgava ver – colocadas num caderno, às vezes com belos desenhos, a lápis, representativos de cenas; também na casa de Walter de Vera foi que a sensitiva redigiu suas primeiras mensagens tidas efetivamente como psicografadas, em geral palavras de conforto enviadas por falecidos a parentes vivos presentes, com riqueza de detalhes particulares como os apelidos carinhosos, referências a objetos da pessoa quando em vida, lembranças de momentos especiais entre outras situações, com acertos quase  absolutos e bastante semelhanças de grafias e assinaturas, quando o caso.
Uma outra característica peculiar da jovem, era a de revelar presenças de pessoas já falecidas ou não, sem o fenômeno incorporativo, com recados ou alertas aos presentes, nem sempre de cunhos religiosos, quando não a trazer notícias [localizações] de parentes e amigos distantes, alguns dados como desaparecidos desde longos anos.
Obviamente não tardou a casa de Walter ter freqüência de público bem maior que o próprio Centro, com isso a ocasionar desencontros doutrinários entre o advogado e líderes kardecistas, culminando com cisão entre membros da seita, vindo o grupo dissidente (Walter, amigos e aqueles que apoiavam o sistema adotado) fundar um novo Centro, de tendência roustangüinista.
Selhama ao mesmo tempo que sensação maior do novo grupo, pelas suas mensagens e revelações de impactos sempre comprovadas, constituía-se num problemas por não submeter-se às doutrinas e regras de fé, sempre a insistir que seus fenômenos não procediam de espíritos desencarnados e sim de captações mentais do público presente, embora em alguns casos certos assuntos nada tivessem a ver com os freqüentadores ou que por estes fossem conhecidos; outra agravante residia no fato da jovem continuar atividades no Terreiro de Diva, às sextas-feiras, agora no mesmo estilo praticado na casa de Walter, prontamente adotado pela Mãe de Santo, com resolutividades maiores vez que Selhama sentia-se mais liberada e livre de questionamentos.
As revelações de Selhama aos poucos foram perdendo o caráter simples de apenas confortos, instruções genéricas ou de localizações de pessoas, para transformarem-se em pré-cognições [avisos] dramáticas quanto a desencarnes próximos, doenças fatais ou com as quais a pessoa iria conviver pelo resto dos dias, acidentes, traições conjugais e comerciais, roubos e crimes escondidos, com isso a trazer dissabores aos líderes da seita de Walter.
Outras novidades paranormais foram sendo incorporadas, através de Selhama, tanto no Centro quanto no Terreiro, como o hábito de tomar de um cesto os pedidos de orações e revelar conteúdo sem ao menos ler o escrito, com prognósticos favoráveis ou não, sendo que muitos dos bilhetes ou cartas nem eram de pessoas presentes – alguém trazia-os a pedido de outrem; jamais se pode constatar que a jovem valesse de fraudes para aquelas leituras, sendo que os expedientes eram tirados aleatoriamente por ela ou algum assistente; consta que numa certa ocasião, quando Selhama lia bilhetes coletados do cesto – raramente mais que três ou quatro (dizia cansar-se em demasia) –, um jovem da assistência lhe entregou pessoalmente um envelope lacrado, que ela não quis ou não estava capaz de ler, colocando-o assim no cesto:  – “me desculpe, não dá para captar o que está escrito e nem tenho revelação alguma a respeito, estou cansada, mas os do Centro vão orar por este e os demais pedidos ”; o rapaz, para surpresa de todos desafiou Selhama em público:
- Não, você não está cansada, você usa de truques – e esclareceu ao público como se faz leitura trucada: a falsa leitora tira um envelope lacrado e diz seu conteúdo já pré conhecido ou então combinado com alguém da platéia, identifica o autor e rapidamente abre-o como se fosse para ler confirmação, quando na verdade estaria a ler aquilo que dizer no próximo, e assim sucessivamente.
Selhama empalideceu de imediato como se realmente pega em flagrante delito, ou que tivesse seu segredo revelado:  – “Não, você está enganado, eu não faço isso” num tom de voz nada convincente.
- Então diga o que está escrito, aquilo que escrevi.        
 Sem alternativas, Selhama tomou o cesto, chacoalhou-o com raiva e com isto a misturar todos envelopes e bilhetes nele contidos, pediu para uma pessoa da assistência retirar qualquer deles, tomou-o em suas mãos e ditou, sem ao menos abri-lo:  – “você e sua namorada escreveram ainda hoje, a respeito de uma gravidez inexistente, como se fosse complicada ou de aborto inevitável; ela porém não está grávida e isto foi só um teste feito para me complicar” – e entregou o envelope ao rapaz: – “agora abra-o e leia em voz alta para que todos possam ouvi-lo, se não é exatamente sobre isso que vocês escreveram”.
Realmente era de conformidade com aquilo que Selhama dissera, e um profundo silêncio reinaria por minutos naquele ambiente, não fossem choros compulsivos do casal signatário daquele bilhete.
  
*Dados obtidos com alguns membros do Centro Espírita 'Cairbar Schutel', Assis, S.P.



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