quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

A PARANORMALIDADE DE SELHAMA À LUZ DA RAZÃO*

Dr. Andrada se fez solene:
- “Não se pode falar em Selhama sem evocarmos seus atributos de paranormalidade; ela apresenta fenômenos parapsicológicos diversos, emanados de si mesma, alguns exteriorizados e conduzidos através de intensa energia ou força psíquica atuadora, projetados com capacidades de locações que atingem objetos e seres, animados ou inanimados, podendo direcioná-los para alvos desejados conforme sua própria vontade. À distância ela pode até mesmo influenciar pessoas e induzi-las a ações inconscientes, de forma que não se lembrem depois, talvez nem mesmo ela, uma vez quando também inconscientes suas próprias projeções.A valer-se de certos atributos que captam verdades de pessoas, sem que estas percebam ou venham saber, Selhama descobriu-se filha adulterina gerada de aventura amorosa entre sua mãe e um antigo Chefe de Produção da tecelagem onde trabalhava, demitida tão logo aquele a soube grávida; casada, à mulher restavam apenas duas alternativas, ou assumir a gravidez como se fosse do marido ou então procurar Clinica de Aborto, porém jamais dirigir-se ao pai biológico da criança que evidentemente se esquivaria da responsabilidade. A mãe de Selhama, abandonada pelo amante circunstancial e aproveitador, optou pela primeira alternativa, mesmo na certeza de que se ela fora capaz de gerar de um outro homem, seu marido era infértil.Impossível saber como Selhama descobrira isso e em que momento, mas o certo é que uma vez entendendo o processo de sua existência, quis amar o pai e punir a mãe, desenvolvendo uma espécie de mecanismo de vingança, gerada por uma mente infantil senão insana que viria depois evoluir a ponto de, numa forma provavelmente inconsciente porém determinante, colocar a mãe em sono profundo e projetar no pai a figura e personalidade de Osmar, traze-lo em seu quarto e com ele manter relações sexuais. Imaginar o contrário, que todos seriam cúmplices de um ato sórdido, pai, mãe e filha, seria o mesmo que negar faculdades paranormais dela, estas no entanto comprovadas e muito bem documentadas; pode-se até considerar que ela tenha se escudado em suas forças para prática de atos desejados, mas aí, sua realidade e fantasias confundem-se e ela acredita ser realmente Osmar a visita-la.Poderia o pai valer de uma situação, onde a esposa dorme às custas de tranquilizantes e a filha uma crédula pessoa que se relaciona com um espírito, fazer-se passar como se fosse esse espírito? Sim, isto seria possível: um homem traído a vingar-se das duas que representavam todo seu drama, todavia o caso dificilmente poderia manter-se por muito tempo sem desconfianças das anormalidades, uma vez que indivíduos que agem dessa maneira, saem sempre um dia de seu anonimato para declarar-se ou então eliminar algozes julgados”.
Mateus estava estupefato diante das revelações descobertas pelos professores, quase que recentes ainda, quando o médico psiquiatra conseguira hipnotizar Selhama que procurara por ele, apavorada e acreditando retorno de seus fenômenos, então indesejados, e novamente a presença perturbadora de Osmar, ainda que em sonhos, talvez expectativas geradoras de temor e ansiedade pelo casamento avizinhado; a sessão fora gravada às ocultas, tão logo ela em sono profundo, e, se ela sabia da gravação preferiu deixa-la transcorrer normal, ante necessidade maior de desabafar-se com um profissional ou amigo que não estivesse envolvido com ela, que certamente cuidaria das revelações num momento adequado – a segunda possibilidade mostrava-se a mais correta.
Andrada esclarecia:
- “Na mente de Selhama, Osmar sempre esteve vivo e atuante, jamais saíra dela, apenas cessando ações, para agora novamente prestes a agir com toda demonstração de forças que poderia, muito provavelmente, resultar numa tragédia.”
Mateus recusa-se acreditar, ouve a fita onde a própria Selhama deixa impressa sua voz.
O psiquiatra se faz ouvir:
- O amigo está envolvido, razão cega e mente obliterada; ela já o atingiu Mateus, ela o fez, à distância, agir conforme desejara naquela trama de rompimento entre ela e Osmar; seus sonhos naquela noite porventura não foram semelhantes à história que ela contou? Oras Mateus, o pai dela não estava em casa, Osmar não poderia vir, não da maneira como ela o desejava, e o quadro então foi montado, ela prestes a se formar, a família intentando mudança, quem poderia permanecer ao seu lado? Osmar? Não temos respostas absolutas, mas certamente Osmar não, pois para a permanência deste seriam necessários alguns acontecimentos, como a morte da mãe – isso ela não provocaria e nem o pai – e, ainda, que o pai desejasse permanecer ao seu lado, algo improvável para um homem que ainda não chegara aos cinquenta anos, livre de uma mulher que o traíra; outra alternativa, que ela conseguisse fabricar Osmar pela ectoplasmia, mas a existência seria extremamente curta, bastando tão somente ela esgotar-se psiquicamente, no caso dela algo em torno de doze minutos, não muito mais que isso; por isso ela deseja você para transforma-lo em Osmar, dar-lhe uma identidade e profissão. . . 
- Os senhores acreditam positivamente nisso?
Palavras de desdém, olhar desafiador, ali estava um Mateus cônscio de que descobrira toda uma trama sórdida geradas por mentes doentias.
- Eu não acredito senhores; sei que Selhama estava doente, mentalmente doente, e que se curou; os senhores se valeram dela para esses experimentos estúpidos e espúrios, aproveitando-se de credulidades dela, dona de uma mentalidade fértil e imaginação criativa a ponto de viver fantasias e aceitar programações indutivas, colocadas à força através da hipnose...
- Você mesmo comprovou resultados pelas análises de material! – palavras do psiquiatra.
- Sim, fiz isso, mas os senhores me deram a resposta, a prática de incesto. E porque os senhores fizeram isto? Apenas para levar adiante uma estúpida pesquisa; Selhama confidenciou o abuso do pai e o senhores fizeram-na acreditar que não era o pai e sim Osmar, esta história já existe na Bíblia há quase dois mil anos, e ainda bilhões de pessoas acreditam nela [provável citação referente ao ato conceptivo de Jesus em Maria].
- Quer dizer que as fitas foram forjadas?
- Positivo, a fitas foram sim forjadas, não elas, mas o ambiente e os acontecimentos, de uma maneira que ela própria pode acreditar nos feitos e julgar-se paranormal.
- Uma paranormalidade que já vem desde a infância, veja bem Mateus.
- Não consta isso em relatos médicos; o que positivamente existe é o drama de uma mãe que traiu o marido, preocupada com pesadelos da filha e valorizações extremadas para certas fantasias próprias da infância. Porque Selhama não expôs em momento algum aos profissionais de Saúde Mental os dramas que deviam tortura-la tremendamente? Simplesmente porque eles não existiam, pois que se fossem reais, impossível que ela não desejasse cura. Acredito sim que ela tenha um lado voltado para o misticismo, fruto de certas crendices e valorizações culturais, antagonismo pronunciado contra uma religião oficial ou dela advinda, dos atos rebeldes e das contestações próprias da juventude, da natureza humana para desvendar mistérios da vida e da morte, e nisto acredito que ela tenha mesmo desenvolvido formas de religiosidades voltadas para o ocultismo, o mundo das magias e o viver mistérios.
- Você leu o “Diário de Selhama”?
- Sim, tive a oportunidade de entende-lo recente, letras bastante iguais e um português idêntico, que não sofreu transformações através dos anos.
- Poderia tê-lo passado a limpo...
- Então com quebras de essências, com enxertos, adições e exclusões de textos, nestas condições inválido para qualquer mérito.
Apenas Mateus e o Psiquiatra discutiam, os demais calados não ousavam interrupções.
- Mateus, meu caro, você acredita estar mesmo com a razão, a ponto de desmantelar todos argumentos que lhe provam o contrário? 
- Sim.
- Crê verdadeiramente que tudo isso é uma sórdida armação?
- Sim.
- E o que entende você de Parapsicologia ou dos fenômenos da mente?
- Nada, porém o suficiente para compreender fatos...
- Meu jovem doutor, você se esforça para transformar verdades em mentiras e assim vive-las por acreditar num grande amor, fazendo-se cego diante de uma realidade perturbadora porque já se encontra sob domínio dela. Mateus, Mateus, seus argumentos desmonto-os uma a um a partir do momento de seu primeiro contato com Selhama, a revelação da morte de seu amigo; você pode me explicar isto?
- Não tenho respostas para tudo, mas não sou leigo a ponto de desconhecer telepatia.
- Então admite Selhama uma paranormal?
- Doutor, não estamos aqui para nenhum jogo e em absoluto me enquadrarei nisto, e as perguntas cabem a mim e não ao senhor e demais presentes; os senhores me devem explicações, certo?
- Não faça cerimonias, pergunte o que desejar? 
- Porque os senhores me convocaram para esta reunião?
- Para preveni-lo quanto aos perigos desse seu envolvimento com Selhama. 
- Acreditam os senhores que ela me usará para ter Osmar ao seu lado?
- Acreditamos sim, sabemos lidar com isso e conhecemos muito bem os potenciais dela.
- E os senhores não poderiam hipnotiza-la, reprograma-la e traze-la de volta à realidade?
- Pensamos na hipótese, mas por quanto tempo ela permaneceria assim? Não sabemos, e também existem outros fatores determinantes, precisaríamos reprogramar o pai, a mãe, você, e quantos mais?
Mateus entendeu novamente estar metido num jogo, mas desta vez ele ditando regras. 
- E porque não fazem isto?
- Selhama deixaria de ser ela mesma, assim como cada um que viéssemos reprogramar.
- Não bastaria apenas apagar inconvenientes na vida de cada um?
- Não sabemos.
- Mas poderão saber?
- Não acreditamos que haja tempo, muito menos que Selhama não consiga contrapor-se...
- Tempo do que?
- De tudo terminar antes e de uma maneira indesejável.
- E no que posso ajuda-los?
- Afastando-se dela e deixa-la viver sua própria existencialidade.
- O que significa então deixa-la com os senhores?
- Exatamente.
Mais que nunca Mateus tinha certeza, “aqueles putos queriam roubar-lhe a mulher amada e usa-la a bel prazer... se conseguisse provar aquela armação ou que houvesse alguma legislação que pudesse puni-los, não hesitaria entrega-los à justiça” – e arquitetava plano para destruí-los, pois “quantos mais poderiam estar na mesma situação de Selhama, nas mãos daqueles estúpidos?” – quis chorar apenas ao imaginar Selhama uma escrava mental, explorada em suas crendices e nas fantasias de crer possuidora de forças mentais.
Estava pronto para reagir e agora de maneira agressiva, para um ponto final, quando toca o telefone e a secretária da Faculdade anuncia ao Diretor, que alguém deseja urgente falar com doutor Mateus.
- Mateus, é Selhama, com certeza usando outra voz, mas é Selhama; deseja atender? 
- Sim, porque não?
- Pense bem, aconselhamos...
O médico não quis ouvir o Diretor e praticamente arrebata-lhe o telefone das mãos, para atender: 
– “Dr. Mateus, Selhama sua noiva não está nada bem, seria bom que o senhor viesse urgente”. O telefone ficou mudo todavia Mateus fingiu continuar conversa, como se fosse com o enfermeiro do hospital onde trabalhava, e pôs a ditar medicamentos de urgência a um paciente agonizante, enquanto procurava respostas para sua interrogação: “quem ligaria para ele se não passara a ninguém onde se encontrava? Com certeza os bruxos haviam notificado Selhama e a induziram para algum mal e pedir a alguém que o comunicasse, ou que esse alguém também induzido fizesse aquilo”. 
- Senhores, infelizmente preciso ir, um paciente agravou-se...
- Não vá Mateus, isto é uma cilada, sabemos que é Selhama – a voz do Diretor era quase de súplicas. 
- Osmar, o senhor quer dizer? – surpreendeu-se com suas próprias palavras, tomado de estupor habilmente controlado. 
- Osmar está morto Mateus, ele só pode viver através de você.
Quis rir do Diretor, mas educadamente anunciou:
- Preciso mesmo ir, prometo comparecer para uma nova reunião, bastando os senhores me ligar.
A voz do psiquiatra soou forte:
- Não haverá próxima vez Mateus, muito menos o impediremos de partir; destruiremos os documentos tão logo você saia por aquela porta e a partir daí você estará sozinho meu caro.
Entendeu que era mais um jogo.
- Então adeus.
Saiu resoluto, “evidente que destruiriam os documentos, temendo alguma denúncia dele”. No corredor da Faculdade deu por falta de sua maleta “ainda volto para pega-la, mas hoje não, não quero mais ver a cara daqueles putos, e de mais a mais, se me perderem a maleta que se fodam, tenho cópias dos documentos que me interessam”. 
No carro em movimento, sentia-se aliviado pela solução dos mistérios: “Selhama, aí vou eu, chego logo meu amor, não se preocupe, tudo acabou”.
...
Ainda na sala de reuniões, Andrada Peres advertiu os colegas: 
- Selhama vai matar Mateus.
- Com certeza Andrada, com certeza, mas tenho cá pressentimentos e fortes razões que ela também morrerá, por já não suportar mais seu inferno astral; ela ama demais esse menino para levar avante execução de seu projeto de trazer Osmar à vida, um triângulo amoroso que ela não suporta e nem Osmar deseja, por isso ela se suicidará. Mas vamos pedir lanches e comermos por aqui mesmo, depois a gente tasca fogo nisso, afinal tudo está consumado.

*Detalhes em negrito informados por um ex membro da equipe de experimentadores que trabalhara com Selhama. A Secretária da Faculdade confirma telefone para Dr. Mateus que se encontrava em reunião com Diretores da Escola; e dos diálogos ocorridos, obtidos por psicografia, adaptada pelos autores, com partes confirmadas pelo professor acima mencionado.


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